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Como calculamos os impactos dos nossos materiais?

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Como calculamos os impactos dos nossos materiais?

A publicação de relatórios de impacto está virando uma prática cada vez mais comum entre as marcas de moda, e diante disso a gente só comemora! É muito importante para uma empresa fazer esse exercício de autoconhecimento, porque só assim é possível saber de fato se as ações em prol da sustentabilidade são embasadas. Além disso, o compromisso com a transparência é um dever!


Em 2021 saiu o relatório “Fios da Moda: Perspectiva sistêmica para a circularidade na moda”, realizado pelo Modefica junto com o Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas. Essa foi a primeira publicação brasileira a analisar impactos socioambientais da produção das três fibras mais usadas na moda: algodão, poliéster e viscose. 


A importância dessa publicação é enorme. Não só pelo estudo em si, mas também para alertar sobre o enorme déficit de fontes abertas e disponíveis, tanto de dados comerciais e econômicos, quanto de impactos socioambientais causados pela produção das fibras têxteis que fazem parte do nosso dia a dia. 


Como exigir que as marcas tomem decisões mais sustentáveis em relação às suas cadeias produtivas ou que sejam transparentes, se nem existe rastreabilidade da rede produtiva pra começo de conversa?


Na Insecta trabalhamos com relatórios periódicos de sustentabilidade, e você provavelmente já está sabendo disso. Esses relatórios são documentos que nos ajudam a recapitular tudo que foi feito em um ano para então começar a projetar o que queremos para o futuro. Através deles conseguimos mensurar os impactos da nossa produção e conferir se conseguimos alcançar as metas que estipulamos no ano anterior. 


Mas o nosso compromisso com a transparência aliado ao objetivo de ter produtos e processos cada vez mais verdes também gera vários impasses. Certo, queremos trabalhar com os materiais mais sustentáveis, mas essa é uma escolha desafiadora. Nem sempre tudo que parece sustentável de fato é.


Às vezes, uma matéria-prima parece ser mais sustentável por ser natural. É o caso do algodão, que por ser uma planta acaba se safando, muitas vezes, do fato de ser um cultivo altamente dependente de água e defensivos agrícolas. 


Outro caso que topamos muito por aí: o reciclado. Claro que reciclar é ótimo, mas dependendo do material e dependendo da tecnologia utilizada, essa reciclagem envolve emissões de gases de efeito estufa e altos gastos de energia.


Bom, acho que deu pra entender onde queremos chegar, né?


Quando lançamos a linha Linna fomos bem transparentes com vocês, explicando que gostaríamos de criar uma alternativa ao couro natural que fosse 100% sustentável, além de super confortável, durável e com um visual lindão. Mas, infelizmente, ainda não é tão simples aliar todos esses requisitos. 


Sabemos que todo material tem prós e contras, e que a produção de matérias-primas envolve uma cadeia complexa, que engloba os sistemas naturais e artificiais de produção e de descarte. Trabalhar com a matéria-prima de menor impacto é desafiador porque não existem informações centralizadas, e, por isso, não comparáveis e confiáveis. É quase impossível avaliar, no detalhe, qual gera menor impacto negativo. 


Então resolvemos fazer o que a gente mais gosta por aqui: pesquisar, inovar e buscar soluções para perguntas e problemas que estão nos incomodando. 


Concluímos que era preciso encontrar uma forma de visualizar os materiais e seus impactos para que pudéssemos fazer escolhas conscientes. Criamos uma pontuação de matérias-primas, que é  um sistema que dá notas para os materiais de acordo com os seus impactos nos processos de extração e fabricação.


Como criamos nosso próprio score de matérias primas?


Não é uma tarefa simples, mas bancamos e chegamos a um resultado super satisfatório. Desenvolvemos uma metodologia própria para analisar o impacto das matérias-primas que utilizamos, e isso nos  permite fazer comparativos na hora de desenvolver nossos produtos, fazendo escolhas cada vez melhores. 


E isso impacta você também, já que todos esses dados são públicos e possibilitam o nosso consumidor fazer suas compras sabendo o que está levando pra casa.  


Nossa metodologia foi desenvolvida com muito esforço, cálculos e exigiu muito estudo e dedicação. Nela, nós avaliamos 3 aspectos:


  • Remover o desperdício e a poluição nas etapas de design, produção e descarte;
  • Manter os produtos materiais em uso;
  • Regenerar os ciclos naturais.

Se você já deu uma olhada no nosso guia sobre Economia Circular, deve ter reconhecido algumas coisinhas aí. E a ideia é justamente essa: focar nossa produção em materiais cada vez mais circulares, reduzindo cada vez mais os impactos e os resíduos, além de valorizar cada vez mais o que já temos.


Para conseguir pontuar de forma padronizada nossos materiais e dessa forma poder comparar, criamos uma série de parâmetros que dão uma nota final a cada material:


No quesito remover o desperdício e a poluição nas etapas de design, produção e descarte:


  • Emissão de gases de efeito estufa
  • Uso de água na produção
  • Poluição do solo
  • Extração de petróleo
  • Uso de energia na produção
  • Uso de químicos nos processos produtivos
  • Se aceita estamparia apenas sublimática ou também digital
  • Se é ou não feito no Brasil

No quesito manter os produtos materiais em uso:


  • Se ou não reciclado
  • Se é ou não reciclável
  • Se é ou não refabricado

No quesito regenerar os ciclos naturais:


  • Se é ou não de origem renovável
  • Se é ou não de rápida biodegradabilidade
  • Se é ou não monocultura
  • Se é ou não produção orgânica
  • Se é ou não de produção agroflorestal

Depois de pontuar cada material em relação a cada um desses critérios, chegamos ao score do produto. E é sobre esse score que fazemos nossa análise do que está dando certo e o que pode melhorar. 


Parece simples agora que está pronto, mas é um processo trabalhoso, que envolve muita pesquisa, testes e dedicação. 


Esse é um processo necessário?


Essa resposta é muito simples: sim! 


No relatório Fios da Moda, a questão da cadeia produtiva da moda no Brasil é esmiuçada e a conclusão é bem clara: estamos longe de sermos transparentes e é muito difícil rastrear o caminho que os materiais que consumimos percorrem antes de chegar até nós.


Se queremos que a moda seja transparente, temos que dar o primeiro passo nessa direção. E enquanto não podemos ter certeza e rastreabilidade de tudo que usamos, fazemos o possível criando nossas próprias ferramentas.


Pra você ter uma ideia, estamos correndo ao lado de gigantes como o Google, que está desenvolvendo, em parceria com a estilista-ativista Stella McCartney e o WWF, a sua metodologia de score de materiais: o Global Fibre Impact Explorer. 


Essa é uma ferramenta que promete revolucionar a cadeia da moda. O Global Fibre Impact Explorer é uma combinação da tecnologia do Google Cloud, a expertise do WWF em sustentabilidade e o olhar da Stellinha para o mundo da moda, especificamente voltado para a cadeia de suprimentos. 


O principal objetivo da ferramenta é identificar fibras de alto risco no portfólio das marcas e dar recomendações sobre como apoiar iniciativas locais para melhorar seu impacto ambiental. Assim como o nosso, o método do Global Fiber Impact Explorer tem seus critérios de avaliação divididos por categorias: poluição do ar, floresta, biodiversidade, clima e uso e qualidade da água.


Saber que enquanto estamos aqui dando nossos passos de formiguinha, tem gigantes correndo para fazer o mesmo dá um orgulho (e uma pontinha de esperança!) que só. 


Paramos por aqui? Claro que não!


Estamos felizes com o resultado da nossa análise, mas sabemos que não é suficiente. Sabemos que nossa metodologia pode (e vai!) evoluir e melhorar muito com o tempo e entendemos que ainda temos algumas limitações.


Queremos aplicar parâmetros na produção dos materiais, na avaliação de produção dos produtos, no uso e pós-uso. Para isso, precisamos desenvolver formas de rastrear o uso de energia, água e emissão de CO2 dos nossos parceiros da rede produtiva e, além disso, ajudá-los a melhorar. 


Nossa meta é chegar lá, todo mundo junto. 


Esse foi um esforço inicial individual nosso, mas queremos que essa pontuação seja viva e aprimorada conforme conseguirmos mais informações. Gostaríamos que ela continuasse evoluindo de forma coletiva e convidamos todos os envolvidos na cadeia produtiva de matérias-primas a priorizar a transparência nos seus dados. Vamos?

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