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A moda ainda precisa evoluir muito para ser não-binária

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A moda ainda precisa evoluir muito para ser não-binária

O termo “unissex” foi criado na década de 60 para se referir a qualquer coisa que pudesse ser usada por homens e mulheres, como roupas ou cortes de cabelo. Hoje esse termo parece incrivelmente fora de moda e está cada vez mais em desuso. O debate evoluiu e agora se fala na ideia de fluidez ou inexistência de gênero quando o assunto é moda, ou, mais especificamente, roupas. 


Palavras como agender, agênero, genderless e termos como moda não-binária defendem a ideia de que cada pessoa tem a liberdade de se vestir do jeito que quiser, com a roupa que quiser, desde que isso faça se sentir bem. E é assim mesmo que a gente acha que tem que ser.


Na Insecta trabalhamos desde sempre com sapatos sem gênero, porque achamos que pé é pé, e o que importa é a numeração servir e o sapato ser confortável. Quem decide o modelo, a cor, a estampa e qualquer outro detalhe é quem vai calçar. 


Falar sobre peças de roupa sem gênero é romper barreiras e oferecer total liberdade de expressão para quem se identificar com uma roupa ser feliz. E essa é a grande diferença entre sem gênero e unissex: na segunda, a percepção de gênero existe, e em geral são apenas dois. 


Infelizmente, a moda mainstream ainda segue um conjunto codificado de estações, desfiles e tendências, além de funcionar sob a suposição de que o gênero existe de forma binária. O sistema da moda está vinculado à segregação de masculino e feminino, desde desfiles separados até lojas de varejo, e-commerces e diretorias criativas de marcas.


A não-binaridade é espectro que engloba múltiplas identidades que não são atreladas a masculino e feminino. A identidade não-binária está fora da cisnormatividade, e justamente por isso, ainda está longe de se sentir representada na moda. 


Por que fazer uma moda não-binária?


Quem consome ou quer consumir uma moda não-binária enfrenta pequenas agressões toda vez que vai às compras. Primeiro, ter que optar por procurar peças na seção masculina ou feminina. Depois, não encontrar seu tamanho disponível ou ter que lutar com modelagens que não acompanham seu biotipo. E no fim, pior ainda: o provador, sempre dividido em uma lógica binária. 


A realidade é que não há uma maneira única de ser não-binário e a moda ainda não conseguiu entender essa necessidade. Seguir no piloto automático presumindo que separar tudo em masculino e feminino “é mais fácil” é algo que precisa acabar. 


A falsa pluralidade


Sabemos que grandes marcas, principalmente no segmento de luxo, já estão se modernizando. Mas enquanto isso, marcas mais acessíveis como os fast-fashions H&M e Zara, por exemplo, insistem em uma fórmula ultrapassada de lançar coleções “para todos os gêneros” que quase sempre são peças tradicionalmente masculinas produzidas em numerações mais abrangentes, apresentadas nas campanhas por um modelo homem e uma modelo mulher vestidos de forma igual. 


No fim das contas, as coleções “para todos” são uma série de roupas largas, como moletons, calças de abrigo, jeans e camisetas - que já são consideradas peças universais - em tons neutros como cinza e bege. E mesmo assim, quando você chega na loja (ou mesmo no e-commerce), essas roupas estão divididas em dois departamentos. 


A roupa é, para qualquer pessoa independente de gênero, uma forma de expressão e de se sentir confortável na sua própria pele. O que essas coleções acabam transmitindo é que se alguém não se identifica como masculino ou feminino a única coisa que resta é andar de abrigo, sem estampa, sem detalhe, sem caimento. 


O principal exercício aqui é entender que gênero neutro não significa “sem nenhum marcador tipicamente associado com um gênero binário”. Por que roupas “femininas” são exclusivamente para mulheres, mas roupas “masculinas” são para todos? Por que vestidos e saias também não podem ser neutros?


Desafios para sair do piloto automático 


Na prática, um dos grandes desafios em relação às roupas é a modelagem. Proporções de cintura, quadril, busto e ombro são algumas das mais variadas, e são justamente as barreiras para que silhuetas e biotipos variados sejam melhor representados. Quando a marca não se questiona, o caminho mais “fácil” é colocar todo mundo de camiseta larga mesmo. 


Nesse quesito, uma revolução em termos de modelagem e numerações se faz mais do que necessária. Algo nesse sentido já é feito por marcas de jeanswear, que especificam medidas de comprimento de perna, quadril, gancho, etc., para acomodar melhor vários biotipos nos modelos de calça disponíveis. 


É preciso também trabalhar com a ideia de que roupa não tem gênero e não precisa ser feita para algum público específico.


Um ótimo exemplo é a marca gringa Gender Free World, que tem seu próprio método que dispensa as numerações tradicionais. Eles trabalham com nomes que correspondem a diferentes biotipos. Por exemplo: a camisa Alex tem modelagem para quadris mais largos. A camisa Billie acomoda melhor um corpo com bastante busto, e a Drew tem modelagem com ombros largos e quadril estreito. 


Uma outra marca que vem sendo muito comentada, e é absurdo que ela ainda seja uma das únicas trabalhando nesse sentido é a Hirsuit, que trabalha com swimwear e roupas de banho não-binárias. Como a Adriana Azevedo comentou em seu Instagram, as marcas de swimwear já começaram a olhar de forma mais atenciosa para pessoas gordas, mas ainda estão presas a um binarismo muito marcado, sempre valorizando a feminilidade. Pessoas  não-binárias seguem passando perrengue na hora de ir à praia


E o mais doido de tudo é que, como Rachel Berks, criadora da Hirsuit diz, por volta dos anos 1920 e 1930, homens e mulheres vestiam peças de praia muito semelhantes, mas esse tipo de vestimenta deixou de existir, se dividindo radicalmente entre roupa de banho para eles ou para elas.


O primeiro passo para começar a resolver isso é óbvio: permitir que mais espaços sejam ocupados e ter mais pessoas não-binárias em marcas importantes de moda. Ouvir, aprender e consultar pessoas não-binárias para entender as suas dores e necessidades.


Então, queremos saber de você: a Insecta pode te ajudar, e de que maneiras? Conta pra gente? 

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