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Você sabe para onde vão as roupas que você doa?

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Você sabe para onde vão as roupas que você doa?

Quando você doa ou descarta uma roupa, imagina onde ela vai parar? Muita gente doa para instituições, enquanto outras pessoas acabam mesmo jogando no lixo comum. A verdade desanimadora é que, em alguns casos, acaba tudo indo para o mesmo lugar. 

A essa altura você já deve ter visto ou pelo menos ouvido falar no lixão têxtil que existe no deserto do Atacama, no Chile. São verdadeiras dunas formadas por peças de roupas descartadas - a maioria delas com origem de mercados como o europeu, asiático ou estadunidense, enviadas ao país para serem revendidas na América Latina. 

As montanhas de roupa vêm da zona franca de Iquique, um porto que fica a 1.800 quilômetros da capital Santiago. Isso não é novidade. O Chile é o maior importador de roupas usadas da América Latina. Existe um comércio bem estabelecido há quase 40 anos que envolve lojas de todo o país, abastecidas com lotes comprados pela zona franca do norte dos Estados Unidos, Canadá, Europa e Ásia.

Quase 60 mil toneladas de roupas de segunda mão chegam ao porto chileno anualmente, só que em torno de 39 mil toneladas vão parar nessa região do Atacama conhecida como Alto Hospicio. Tudo que não é comercializado em Santiago ou em outros países termina no deserto. 

Isso gera um movimento comum de pessoas que vão até o deserto coletar peças para revender em suas comunidades ou para levar roupas para as suas famílias. As peças de frio, tão comuns nos países do hemisfério norte, são especialmente desejadas por pessoas em situações vulneráveis.


Essa não é uma realidade apenas da América Latina. Os portos de Gana recebem milhões e milhões de peças (aproximadamente 15 milhões por semana) que são descartadas por empresas de moda e doadas para ONGs na Europa, China e Estados Unidos. Lá, são negociadas com comerciantes que as revendem. 

Só que essas roupas, que são compradas por peso, têm chegado ao país em estado cada vez pior, um reflexo direto da indústria do fast fashion, marcado por peças baratas e pouco duráveis. Os comerciantes nem os consumidores têm interesse em comprá-las e o destino é o aterro. 

Estima-se que mais ou menos 40% das roupas enviadas para Gana terminam em lixões. Alguns desses lixões estão localizados perto do mar, o que resulta em peças indo parar no oceano. 

No Brasil, a realidade é bem mais nebulosa. Não há rastreabilidade do que é doado, revendido ou descartado. Mas o que sabemos é que por aqui, tudo que não é reciclado vai para o aterro, e a reciclagem têxtil brasileira é muito mais focada em cortes, aparas e retalhos da produção de roupas, e não as roupas usadas em si. 

 

Por que isso acontece?

Talvez você se surpreenda, mas “terceirizar o lixo” é uma prática comum e institucionalizada em nosso planeta. Nos países mais desenvolvidos do hemisfério norte, roupas descartadas ou doadas são encaminhadas para centros de triagem que fazem uma seleção: algumas são revendidas, outras são doadas e o resto é exportado para países em desenvolvimento.

O que parece uma “caridade” dos países do norte global é uma grande sacanagem - a quantidade assustadora de roupas de segunda mão que chega nos países mais pobres afeta o crescimento econômico da indústria têxtil interna. Por exemplo: mesmo em países africanos produtores de algodão e com produção têxtil local, a roupa usada importada é mais barata que a feita em casa.

Mas a terceirização do lixo não fica só na roupa. Nessa prática, nações mais ricas se livram da responsabilidade de manejar os seus próprios resíduos. Reciclar e dar um destino adequado ao lixo é, para eles, mais caro do que simplesmente despachar para outros países. 

Até pouco tempo atrás, cerca de metade de todo o plástico descartado no mundo era enviado para ser reciclado ou processado na China. Só que o país deu um basta em 2018, porque não conseguia mais dar conta de todo o volume. A partir deste ano, a China baniu a importação de plásticos recicláveis que não têm origem industrial e o recebimento de lixo de países como os Estados Unidos. O reflexo disso foi uma sobrecarga em outros países asiáticos como Malásia, Índia, Indonésia, Bangladesh e Vietnã. 

O grande problema é que muitas vezes esse envio ocorre de forma ilegal, sem o menor controle (e respeito) e os países ricos descartam recicláveis e não recicliáveis misturados, apenas para eliminá-los de seu território. Em uma escala muito menor, é mais ou menos o que acontece quando alguém joga tudo misturado no saco de lixo para que a coleta da cidade se virar, sabe? 

Para tentar controlar essa bagunça, em 2019 mais de 180 países fecharam um acordo que entrou em vigor em 1º de Janeiro de 2021, restringindo o envio de lixo a nações mais pobres. A convenção ainda passa a considerar vários tipos de plástico como “perigosos” devido a seu potencial poluidor.

Esse acordo atualiza a Convenção da Basiléia, de 1989, que dispõe sobre o controle dos movimentos transnacionais de resíduos perigosos. Enquanto a ONU celebrou esse feito histórico, países como Estados Unidos e Brasil não aderiram. É retrocesso que chama. 

Agora, as nações que entraram no acordo têm a responsabilidade de identificar, empacotar de forma adequada, monitorar e rastrear o movimento dos dejetos plásticos para além de suas fronteiras. Não vale mais mandar qualquer coisa dentro de um contêiner para que os outros se virem. É preciso do aval dos governos locais para a entrada de qualquer carregamento, e mesmo quem não quis participar será afetado. 

Essa convenção é um reflexo de movimentos que já estavam acontecendo, e ganharam ainda mais força. Só em 2020 o Reino Unido recebeu 22 pedidos de repatriação de lixo plástico de sete países. A Malásia devolveu 42 contêineres de resíduos ilegais só no mês de janeiro. A ministra do Meio Ambiente Yeo Bee Yin disse que a Malásia não vai se transformar em um lixão dos países desenvolvidos, e ainda alfinetou: "O que os cidadãos do Reino Unido acreditam que enviam para reciclagem é, na verdade, despejado em nosso país". 

Entre os setores que mais produzem esse tipo de resíduo polêmico estão saúde, tecnologia, aeroespacial, alimentos e bebidas e… moda.

 

O problema é político, ambiental e social

Uma pesquisa publicada pelo CUTS International (Consumer Unity & Trust Society) revelou que o algodão produzido na Comunidade da África Oriental (EAC) vira roupa na Ásia e é vendido nos Estados Unidos e Europa Lá, os consumidores usam, em média, dois ou três anos. Quando a roupa é descartada, volta à EAC como peça de segunda mão, produto usado por até 70% da população africana. 

Parece absurdo pensar que o algodão produzido em casa faz essa viagem para se tornar um problema para a indústria têxtil local, né? A mesma EAC, para fomentar o crescimento da produção local, chegou a apresentar uma proposta de lei para banir a importação de roupas usadas a partir de 2019. 

As roupas descartadas levam em média 200 anos para se desintegrarem completamente, deixando um rastro de resíduos poluentes durante todo esse tempo. No Atacama, caminhões enterram roupas no subsolo para evitar incêndios causados pelos produtos químicos e tecidos sintéticos que a compõem.

Você já sabe que empilhar ou enterrar lixo não é o jeito certo de fechar o ciclo, né? Então você já deve estar imaginando que as pilhas e pilhas de roupas no deserto do Atacama e nos lixões ganeses liberam poluentes, gases tóxicos e contaminam o solo e os lençóis de água subterrâneos. 

Segundo um estudo do WWF, o volume de plástico que vaza para os oceanos todos os anos é de aproximadamente 10 milhões de toneladas. Nesse ritmo, até 2030, encontraremos o equivalente a 26 mil garrafas de plástico no mar a cada km2. Junto com isso ainda tem as peças de roupa dos lixões em Gana, feitas na maioria com sintéticos como o poliéster, que liberam microplásticos. 

De acordo com a estimativa da organização humanitária Tearfund, entre 400,000 e 1 milhão de pessoas morrem a cada ano em países em desenvolvimento por doenças causadas pela má administração de resíduos.

 

 

O problema é sistêmico

No relatório “A new textiles economy: redesigning fashion’s future” ( “A nova economia têxtil: recriando o futuro da moda”) da Fundação Ellen Macarthur mostrou que a reciclagem é uma oportunidade para a indústria da moda, que perde mais de US$ 100 bilhões em materiais perdidos a cada ano. 

Mas para isso seria necessária uma reformulação radical. As empresas teriam que começar a se responsabilizar, de fato, com tudo que colocam no mundo. As marcas de fast fashion, que produzem 50 coleções ao ano, teriam que pisar no freio e começar a produzir menos, com mais cuidado, e já pensando lá na frente, no descarte dessas roupas. 

Apesar de tudo, ainda vemos uma luz no fim do túnel, que pode ser o começo de novas práticas e o impulsionador de novas políticas em relação ao descarte. O fato dos países desenvolvidos serem “obrigados” a lidar com seu lixo, ao invés de enviá-lo para algum lugar distante, pode ser o empurrão que faltava para o surgimento de iniciativas que promovam a circularidade.

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