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Um dia em Le Panier, Marseille

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Um dia em Le Panier, Marseille

Marseille é a segunda maior cidade da França e é um lugar incrível e super diverso, com vários bairros que tem uma identidade e estilo muito próprios. É sobre um desses bairros que vamos falar aqui: o Le Panier. O bairro mais antigo de toda a cidade tem uma presença artística muito forte e uma comunidade super unida e acolhedora.

O lugar pra começar bem o dia é o Cup of Tea, um salão de chá/livraria/café escondidinho na esquina da Rue Casserie com a Rue de la Prision. Apesar do nome em inglês e da seleção incrível de chás de lugares super variados (o que eu mais gosto é o chá preto produzido nas montanhas de Ruanda), a atmosfera e o charme do lugar são inegavelmente franceses. O Cup of Tea tem uma vasta seleção de literatura (dividida por continentes - de Roberto Bolaño a Chinua Achebe) pra te manter interessado enquanto tu termina o bule de chá. É também um dos lugares que desmentem esse estereótipo de garçons franceses mal-educados, o que torna o lugar ainda mais aconchegante. Na saída, aproveita para dar uma olhada nos panfletos e pôsteres que eles deixam expostos perto das mesinhas na calçada - lá é um bom lugar pra se informar dos próximos eventos que vão rolar no bairro.

Seguimos caminho passando pela Place de la Lenche, uma das praças principais do bairro, que tem uma vista super bacana do Vieux Port, o porto de Marseille, com o morro mais alto da cidade e a igreja Notre Dame de la Gare ao fundo. É uma praça bem simpática, cheia de barzinhos e ocasionais praticantes de le parkour saltando por todo o canto. Ela abriga o Mini-théâtre du Panier, uma salinha de teatro que alterna entre produções locais, de artistas do bairro, e algumas montagens internacionais. Vale a pena dar uma passada lá pra ver qual é a programação da semana!

Outra praça nas redondezas que vale a visita é a Place des Repenties. É uma praça bem ampla com uma pequena arquibancada e lá sempre tá rolando alguma apresentação de dança ou de teatro de rua. No caminho até lá, caso você seja um aficionado jogador de bocha ou um jovem francês moderninho, pode fazer uma parada na Maison de la Boule. Isso aí: o jogo de bocha existe aqui na França e, apesar de ser super tradicional e da maioria dos jogadores serem homens de meia-idade, nos últimos tempos o jogo vem se popularizando e várias equipes de jovens da cena alternativa começaram a aparecer. E por que não experimentar?

Ali do lado, na Rue du Petit Puits, fica um dos melhores restaurantes do bairro, o TaKo SaN. O lugar é bem pequeninho e super acolhedor, com uma cozinha toda aberta que deixa a gente acompanhar a preparação de todos os pratos! O lugar tem a reputação de servir uma culinária japonesa muito autêntica e lá se vendem também alguns produtos de artesanato tradicionais do Japão.

Pra quem não gosta de comida japonesa ou quer uma opção um pouco mais barata, uma boa pedida é o My Garden, saladeria inaugurada esse mês que trabalha exclusivamente com produtos orgânicos produzidos em Marseille, incentivando o trabalho de pequenos agricultores no 14ème arrondissement. Tudo é sempre super fresquinho e as combinações das saladas e sanduíches são bem inovadoras e uma delícia! O lugar também funciona como galeria de arte e tem a sua fachada coberta pela arte do Nhobi, um grafiteiro brasileiro que mora em Marseille.

Pra a sobremesa, há uma loja no Le Panier que é a criadora de um doce super típico de Marseille: o espérantine, que consiste basicamente em chocolate recheado com amêndoas e coberto por azeite de oliva (!). Soa estranho, mas o gosto é super bom e o dito doce já recebeu vários prêmios aqui na França. Vale a pena provar!

Agora é o momento de fazer a coisa mais legal que se pode fazer no Le Panier: passear sem rumo pelas suas ruazinhas e apreciar as coisas inesperadas que encontramos pelo caminho. O Panier é um bairro muito vivo, com uma comunidade artística pulsante e com um estilo de vida que é baseado na convivência ao ar-livre. Por isso, as coisas (intervenções artísticas, jardins urbanos, ateliês) surgem e desaparecem com uma rapidez e espontaneidade enorme, o que torna cada passeio diferente do anterior. Duas ruas que precisam ser exploradas são a Rue du Panier e a Rue du Petit Puits. São dois dos caminhos principais do bairro, mas não deixe de entrar também nas ruelinhas e vias que atravessam eles. No fim da Rue du Panier, tem umas duas quadras cheias de esculturas enormes de papel machê, além de uma pequena estante que abriga uma “biblioteca solidária”, silenciosamente oferecendo livros para troca ou venda sem preço fixo. A biblioteca iniciou faz alguns meses por iniciativa de uma artista do bairro, que é uma das 15 criadoras que compõem o “ateliê associativo” 1 par 1, que vende coisas super inesperadas feitas de materiais reciclados ou reutilizados.

Há uma parte considerável do comércio que é sazonal, e muitos lugares que são simplesmente casas que os moradores decidem abrir ao público para temporariamente expor ou vender a sua arte. Por isso, muitos ateliês e galerias sequer tem nome e muitos lugares não tem horário de abertura ou fechamento, ficando a cargo do humor do proprietário.

Dois ateliês que eu gosto muito são o das artistas Laetitia Follot e Kali Dennis e o do artista Benjamin Carbonne. Nenhum dos dois tem nome, mas seguindo o endereço é bem fácil de achar.

Outros lugares bacanas de visitar são o Chez Lucas e o La Recup, ambos uma mistura de brechó com loja de antiguidades e artesanato. Agora no dia 16 de outubro vai rolar a inauguração oficial da La Major Baby, um lugarzinho na Rue de l’Évêché que se propõe a ser uma galeria experimental, social club e art & meeting factory. Fica aberto até tarde com a galera sentada nos sofás conversando e tomando uma cervejinha - pode colar porque tá sempre cheio de gente querida por lá!

Ao passear pelas ruas e observar os lambes, os grafites e os adesivos colados por aí, fica bem clara a coesão no posicionamento político da comunidade do Le Panier, que é historicamente formada por imigrantes. Lá, não se encontra nenhum cartaz apoiando a Frente Nacional (partido de extrema direita francês) e nenhum dos posteres agressivos pedindo o fim da “imigração em massa” que estão espalhados pelo restante da cidade.

Na foto, cartazes protestando contra a Frente Nacional e relembrando o assassinato do jovem Ibrahim Ali, vitimado pelo racismo e xenofobia. Ao lado, uma das onipresentes figuras femininas desenhadas pela artista Manyoly. Ela é uma das minhas artistas favoritas do Le Panier e, pra quem também curtir e quiser apoiar o trabalho dela, tem merch dela a venda na loja UndARTground, que também apoia e expõe a arte de vários outros moradores do bairro.

Além de manifestações de cunho político, as ruas do bairro são cobertas por anúncios dos eventos e festas de rua que sempre rolam por lá. Agora em outubro acontece a Fête d’Automne, com uma programação super legal de performances, lanches coletivos, museus itinerantes e vários outros eventos gratuitos. Nesse mês tá rolando também o Festival Arboricole d’Arts Vivants, que apresenta espetáculos circenses, apresentações musicais e instalações plásticas, tudo em cima das árvores! Durante o verão, rola o principal evento tradicional do bairro, a Fête du Panier.

Para o jantar, a recomendação infalível é o Bar Manolo. Unanimidade entre os moradores do bairro, o Manolo é um bar de tapas e o melhor lugar do bairro para ir comer algo e tomar uns traguitos. A sangria da casa é uma delícia e tudo tem um preço super honesto (a cerveja de lá é a mais barata do quartier inteiro). A iluminação e a música são super gostosinhas e tudo é um aconchego só! O único porém é que o bar não fica aberto até muito tarde (não podem servir bebida alcóolica depois das 22h45), então o jeito é ir pro Barjac, outro lugar super popular com os locais. Outra opção de bar é o Bar de 13 Coins, que tem uma decoração linda e parece saído de um filme. É super agradável, mas um pouco mais upscale que o Barjac e não fica aberto até tão tarde. O Barjac, por outro lado, não é um bar hiper bonitinho - talvez seja o equivalente francês mais próximo de um boteco - mas é diversão garantida com gente simpática e bebida barata. É possivelmente o último lugar a fechar na madrugada do Le Panier!

 

Extra-Panier: há um lugar em Marseille que fica fora dos limites do bairro, mas que é imperdível pra quem está de passada pela cidade. É o La Friche Belle de Mai, que fica perto da estação principal da cidade, a Gare St. Charles. O lugar é uma antiga fábrica de tabaco que foi transformado em um centro cultural enorme. É a galeria de arte moderna mais interessante da cidade e, no verão, as melhores festas da cidade rolam no terraço imenso do La Friche!

 

 

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