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Um Bate-Papo Com Nossa Modelo Do Editorial Couche e Militante Trans – Parte 1

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Um Bate-Papo Com Nossa Modelo Do Editorial Couche e Militante Trans – Parte 1
Mesmo com uma aparência considerada cisnormativa (pessoa heterossexual que se identifica com o gênero determinado no nascimento*), Sophia Bueno de Camargo optou por não seguir pelo caminho do anonimato. Há quatro anos em processo de transição, Sophia é militante do movimento trans e feminista brasileiro. Ela faz parte da Rede Nacional De Pessoas Trans do Brasil e foi Delegada na V Conferência Municipal De Direitos Humanos De Porto Alegre. “Eu decidi seguir para a militância porque acho importante outras pessoas terem com quem se identificar. Eu não tive isso quando era jovem, não tinha com quem falar nem para quem olhar. A militância ajuda criar figuras de referência”. Hoje com 27 anos, Sophia não tinha contato com o universo trans de 10 anos atrás. Não porque essas pessoas não existiam, mas naquela época elas estavam completamente limitadas à margem da sociedade, na prostituição e em lugares os quais Sophia não circulava por fazer parte da classe média de Porto Alegre. “A primeira vez que eu tive contato com esse universo foi quando fui para o Canadá.  Lá pude conhecer pessoas trans que trabalhavam em diferentes áreas, estudavam. O movimento trans por lá já estava maduro”. Essa limitação de lugar na sociedade permanece até hoje, mas, aos poucos, com o debate de gênero aquecido, o movimento trans saiu da completa invisibilidade das ruas e vêm se organizando em busca de políticas públicas que as enxerguem. carinewallauer_02 Mas essa batalha está longe de ser ganha. O Brasil não conta com censos do IBGE ou estudos do IPEA capazes de mapear esse segmento pelo país. Sem eles, fica muito mais difícil fomentar políticas de Direitos Humanos no combate à violência e na criação de Políticas Públicas de Estado para atender as demandas do movimento trans. Apesar de entendermos a importância da militância, perguntamos para ela: “Mas Sophia, você não tem medo? Porque ser militante não é fácil, é muita exposição”. Ainda mais se considerarmos que os números de assassinatos de pessoas trans no Brasil são alarmantes. Somos considerados um dos países mais transfóbicos e  o que mais mata pessoas trans no mundo. O receio é inevitável, mas ela diz que é muito difícil ser identificada. Talvez em Porto Alegre por alguém que a viu na TV, mas não é tão comum. Além do mais, parece que a militância já morava em Sophia há muito tempo: “eu sempre fui questionadora”. Entretanto, admite que a introspecção sempre foi um inimigo. Não por menos, jamais conseguiríamos colocar em palavras as angústias, dores e sofrimentos que uma pessoa trans – completamente incompreendida socialmente e vulnerável a diversas violências e preconceitos – possa sentir. carinewallauer_17 (1) Mesmo com formação superior e fluente em 4 idiomas, Sophia tinha dificuldade para arrumar trabalho. Ela lembra que quando conseguiu uma vaga de recepcionista em uma empresa, os homens da administração passavam para “checar” se ela tinha mesmo “aparência de mulher”.  Hoje, com todos os documentos já retificados, ela fica entre a militância e o trabalho de freelance de modelo. Mas já está de olho em um pós-graduação que a permita atuar de forma mais estreita com o Estado para mudar a condição atual das questões trans no Brasil. Afinal, Sophia sabe que nem todo mundo pode pagar uma redesignação genital, muito menos arcar com longos processos para retificar documentos. De um lado, o SUS ainda não informa, não dá apoio psicológico para quem vai buscar entender melhor as possibilidades. “O SUS faz a operação, mas você tem que ir lá já com certeza absoluta de que é isso que você quer”. Do outro lado, quem é operado pelo SUS tem muito mais certeza que terá toda a documentação retificada, mas mesmo sendo lei e com jurisprudência, muitos juízes, principalmente em cidades do Nordeste, não retificam os documentos por preconceito pessoal, e a luta na justiça precisa ser prolongada e pode ser muito custosa. Ao mesmo tempo que lutam com o sistema, a mulher e o homem trans ainda enfrentam muitos desafios sociais que vão além da segurança física e posicionamento profissional – relacionamentos amorosos, família, amigos. Tudo isso costuma ser outro enorme desafio. carinewallauer_14 (1) Para Sophia, não tem jeito: o ativismo trans tem que chegar na grande mídia, gerar constrangimento para a imagem do país no exterior e assim conseguir pressionar a aprovação de leis e políticas públicas que deem mais segurança e direitos para essas pessoas. Ela também acredita que, se o debate sobre gênero continuar aquecido e amadurecer, temos chances de cenários melhores a médio e longo prazo. Em tempos que a pouca democracia conquistada está perigando retroceder, ao lado de Sophia, ansiamos e lutamos por um futuro muito mais inclusivo e democrático. Clique aqui para conferir o editorial completo!  Para entender mais sobre as diferenças entre sexualidade e identidade de gênero, leia o texto da Daniela Andrade sobre o assunto.

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