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Um dia no centro histórico de Porto, Portugal

Um dia no centro histórico de Porto, Portugal

Banhada tanto pelo Rio Douro quanto pelo Oceano Atlântico, Porto é a principal cidade do norte de Portugal e o segundo maior destino turístico do país. O primeiro é a capital Lisboa e as comparações entre as duas partem não só de viajantes, como existe uma certa rixa entre lisboetas e portuenses. No entanto, ninguém precisa criar rankings no coração e é possível amar intensamente as duas, entendendo que cada uma apresenta peculiaridades que fazem delas diferentes, mas complementares.

O melhor de tudo? É possível visitar Porto em uma viagem de final de semana a partir de Lisboa, já que, de trem, o trajeto leva menos de 3h. Por isso, quando em Portugal, visitar Porto é obrigatório e este roteiro pelo centro histórico mostra o porquê. Não se assuste com o tamanho do texto! O roteiro foi pensado (e testado) com consciência de que, muitas dessas atrações, são de passagem ou não levam muito tempo para conhecer. Também está cheio de descrições e contextos históricos, perfeito para o viajante curioso que vê no turismo uma oportunidade de expandir a mente. 

Manhã Uma das melhores formas de iniciar o contato com uma cidade é vendo-a de cima. De um mirante ou prédio alto, é possível não só ter uma ideia geral da configuração urbana, mas também descobrir pontos de interesse a visitar. Porto possui um local perfeito para isso: a Torre dos Clérigos oferece ampla vista do centro e está no topo de uma ladeira, então o resto deste roteiro, todo a pé, é quase sempre em descidas (em várias cidades portuguesas, pensar na inclinação da rota é sempre muito importante!).

A Torre dos Clérigos é o local perfeito para iniciar um dia em Porto.

A belíssima construção, inaugurada em 1763 pela Irmandade dos Clérigos, tornou-se na época a mais alta torre sineira (que abriga sinos) do país e serviu, ao longo dos séculos e entre muitas outras funções, para orientação dos marinheiros que chegavam pelo Douro. Então encare as escadas, pois a vista faz valer cada um dos 240 altos degraus.

De volta às charmosas ruas de Porto, dirija-se para a Igreja dos Carmelitas e, no caminho, dê uma paradinha na Livraria Lello, famosa pelas gigantescas estantes, escadarias ondulares e detalhes em dourado. É preciso pagar 3 euros para entrar, o que faz a livraria faturar mais de 10 mil euros por dia e vender mais livros do que quando não cobrava a entrada, já que o valor de entrada é abatido de qualquer compra na loja. Chegando à igreja, você vai perceber que, na verdade, são duas igrejas! À direita está a do Carmo e, à esquerda, a dos Carmelitas (mas o local como um todo é mais conhecido pelo segundo nome). Observe com atenção os azulejos da lateral da Igreja do Carmo, um exemplo importante e de alta qualidade dessa arte portuguesa. O arabescos e anjos, pintados de azul na cerâmica, combinam perfeitamente com a fachada Rococó da construção.

 

Já a dos Carmelitas é de estilo Barroco, porém mais suave do que muitas construções do gênero e com um certo ar islâmico na torre. E, se os azulejos da do Carmo são o destaque do exterior, o interior da dos Carmelitas distingue-se pela harmonia, já que, mesmo rica em detalhes, não é exagerada. Caminhando pelo relaxante Jardim da Cordoaria, chegaremos à principal rua da região, a Campo dos Mártires da Pátria, onde está o Centro Português de Fotografia, instalado na antiga Cadeia da Relação, um enorme prédio de pedra e cimento, hoje pintado de amarelo. O museu é gratuito e pouco disputado, com um acervo fotográfico apaixonante para qualquer admirador da arte.

 

Nosso próximo destino é a Rua São Bento da Vitória, atrás do museu e onde é possível entender como Porto mescla perfeitamente os atributos de uma metrópole com a simplicidade de uma cidade pequena. As diversas casinhas, de cores intensas ou azulejos detalhados, os carros estacionados por cima das calçadas, as roupas penduradas nas janelas e, principalmente, a calmaria fazem da travessa um caminho delicioso. No final da rua, a igreja homônima prova (para quem ainda não percebeu) que é quase impossível andar algumas quadras em Portugal e não encontrar, pelo menos, uma igreja. Toda essa simplicidade desemboca em um local nada interiorano de Porto, o não muito conhecido Miradouro da Vitória. Além da vista incrível, que mostra a grandiosidade da cidade, é cercado por prédios abandonados e deteriorados, apresenta algumas pichações e guarda duas árvores, uma inteira e outra que sobrou apenas o toco. Esse último se transformou em um “banco natural” - perfeito para relaxar enquanto aprecia o clima excêntrico do miradouro.

 

Dali voltaremos para a rua principal e partiremos em direção à já visitada Torre dos Clérigos. Ao lado da torre está a rua que nos levará aos próximos pontos e que também oferece uma ótima opção para o almoço. O Hand’ Go é um mini restaurante estilo “take away” que oferece pizzas deliciosas e, o melhor de tudo, com diversas opções veganas montadas na hora! Há sabores com funghi e trufas, além de sucos naturais cheios de sabor, tudo com a possibilidade de comer na bancada esprimidinha ou levar para saborear em um banco pelas ruas.

 

Tarde Seguimos em direção à Praça da Liberdade, onde é possível sentir os ares de uma cidade grande e importante como Porto. Há muito movimento e energia passando pela praça e, ao fundo, ela é embelezada pela imponente Câmara Municipal do Porto.

Logo depois da praça, vemos um prédio intrigante com azulejos azuis e janelas amarelas que, se não fosse pela pequena cruz no topo, mal daria para perceber que se trata de um local religioso: é a Igreja de Santo António dos Congregados.

A Igreja de Santo António dos Congregados quase se passa por um prédio secular. Dali já é possível avistar a grandiosa Estação São Bento, nossa próxima parada. Lá dentro, pare entre as centenas de turistas e nativos que chegam e partem de Porto a partir desta clássica estação e admire os murais.

Os murais da Estação São Bento frequentemente a colocam entre as mais belas estações ferroviárias do mundo.

Mas admire com atenção, pois é possível, através deles, conhecer partes da história e costumes portugueses em representações de batalhas, da realeza e de civis na vida cotidiana. Detalhes dos murais revelam aspectos da vida portuguesa.

Partimos pela rua Av. Dom Afonso Henriques até chegar a Sé do Porto, catedral que começou a ser construída ainda no século XII, sendo, assim, um dos mais antigos monumentos do Porto. O prédio mescla os estilos Românico, Gótico e Barroco e seu claustro (pátio interior de uma igreja ou monastério para descanso dos religiosos) é imperdível pelos azulejos ricos em arabescos, figuras de animais e natureza e pinturas de colunas detalhadas.

 

Do Terreiro da Sé, amplo espaço em frente a catedral, é possível avistar o Douro e frequentemente encontrar estudantes de arte que ali sentam-se para observar e desenhar as linhas ecléticas da construção.

Em uma caminhada de 5min a partir da Sé, chegamos ao ponto mais alto (literal e metaforicamente) do nosso roteiro: a Ponte Luís I. Inaugurada em 1886, a obra de Théophile Seyrig, ex-sócio e similar estético de Gustave Eiffel, é referência mundial para pontes em formato de arco. Mesmo para quem não entende ou se interessa por arquitetura, é impossível não se surpreender pela estrutura e se apaixonar pela vista que caminhar pela parte superior proporciona.

 

É do topo da ponte que é possível entender por que Porto é considerada por muitos uma das mais belas cidades da Europa. O visual combina prédios históricos e religiosos, áreas verdes que tomaram conta de muros, as antigas muralhas da cidade, o Cais da Ribeira, alguns grafites, a moderna Ponte do Infante... tudo que faz de Porto fascinante e singular.

 

Caminhar na parte superior da Ponte Luís I é uma das atrações mais fantásticas de Porto.

Cruzando a ponte chega-se a Vila Nova de Gaia, município vizinho e a casa das famosas cavas de Vinho do Porto. Voltamos, porém, para o mesmo lado já que o nosso próximo destino é a parte de baixo do centro. Para descer, duas opções: uma escadaria e um funicular. Esse último, de nome estranho e que lembra certa música italiana, é uma espécie de elevador utilizado para subir ou descer grandes ladeiras. Da estação Batalha é possível pagar 2,50 euros para descer até a estação Ribeira. O valor é um pouco alto por um trajeto de cerca de 1min, porém o ângulo diferenciado da Ponte Luís I faz valer a pena.

 

Final da tarde e noite Seja pelas escadas ou pelo funicular, chegamos ao Cais da Ribeira, área mais baixa do centro e uma das regiões mais características de todo o Porto. Daqui é possível ver a coloração azul escuro e sentir o frescor do Douro, ao mesmo tempo em que se observa uma característica bem marcante da arquitetura lusitana: casinhas de cores fortes, justapostas e com micro varandas cercadas por metal esculpido.

Bares, restaurantes e esporádicas feiras fazem do local bastante movimentado e frequentado não apenas por turistas, mas também por muitos locais. Músicos dão um clima especial. Barcos possibilitam explorar o Douro mais a fundo. A vista surpreende para qualquer ângulo e em cada detalhe.

E é tudo isso que transforma o Cais da Ribeira num local que permite empregar o (brega e hiper utilizado) adjetivo “mágico”. Mais mágico ainda para quem se permitir sentar em um dos bancos de madeira e simplesmente contemplar, ficar em silencio, ler um livro, pensar na vida... ou seja, relaxar, algo muitas vezes esquecido em um roteiro turístico. Quem deseja desopilar ainda mais pode se dirigir a um dos bares de vinho nas casinhas coloridas, como o famoso Wine Quay Bar, que possuem balcões no exterior virados para o rio.

Subindo a bela Rua Alfândega, chegamos à Praça do Infante Dom Henrique. No centro do gramado, a estátua do infante (título dado a filhos legítimos do rei/rainha que não herdarão a coroa) aponta de forma simbólica para o horizonte, para o “além-mar”, já que o nobre foi uma das principais figuras da Era dos Descobrimentos.

Envolta da praça estão o Palácio da Bolsa e o Mercado Ferreira Borges. O primeiro, um majestoso prédio do século XVIII, pode ser conhecido em visitas obrigatoriamente guiadas e tem como grande destaque o Salão Árabe, onde, através de muito ouro, palavras desenhas e detalhes, é possível apreciar as influências islâmicas herdadas no país lusitano após séculos de guerras territoriais e trocas comerciais com os Mouros.

Já o mercado substituiu o já deteriorado Mercado da Ribeira que ali ficava, mas, após as reformas, não voltou a ser destinado para o comércio de alimentos. O belo edifício, de enormes janelas e estrutura em metal vermelho, hospeda hoje o centro cultural Hard Club e sua programação (majoritariamente shows) pode ser a forma perfeita de terminar o dia, entrando em contato com a intensa vida cultural da cidade.

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Um dia em Belém, Lisboa

Um dia em Belém, Lisboa
Tá, primeiro acho importante explicar o que é Belém: não, não é uma cidade ou município, também não é um bairro, é uma freguesia. Não ajudou né? Bom, freguesia é menos que um distrito mas mais que um bairro. É uma região que, de grande, por vezes possui uma administração independente. São Paulo, por exemplo, não tem as subprefeituras? Pois bem, freguesias são mais ou menos isso: regiões que abrigam bairros e possuem uma administração. Belém até já foi independente de Lisboa, mas isso não vem ao caso. O que é importante saber é que está localizado no extremo oeste da cidade. Sua relevância se deu por ter sido um grande ponto de saídas de embarcações durante a expansão colonialista portuguesa. De lá saíram as três caravelas responsáveis por colonizar o Brasil: Santa Maria, Pinta e Nina. Bom, essa história já conta um pouco a do bairro, a Torre de Belém e o vento forte que vem do Tejo eram grandes instrumentos para navegação, fazendo aquele ponto ser perfeito para lançar caravelas ao mar. Em geral o bairro reforça aspectos da própria Lisboa: grandes mosteiros e igrejas que abrigam a história cristã de Portugal. Lá está localizado o Mosteiro dos Jerónimos, belíssimo com sua arquitetura renascentista-manuelista, com peso gótico. Demorou cem anos para ficar pronto e hoje abriga o Túmulo de Camões, monumento que contém (há controvérsias) os restos mortais do grande poeta clássico. Nenhum outro lugar seria tão perfeito para homenagear o poeta, que tanto celebrou o Tejo e seus corajosos navegantes. O maior atrativo da região próxima ao rio são os belos jardins, como o Jardim de Belém, do Império e o Jardim Botânico Tropical, que ainda hoje concentra espécies trazidas de regiões tropicais colonizadas pelos portugueses (boa parte brasileiras). O lugar todo, assim, relembra a história expansionista imperialista portuguesa, seus poetas, desbravadores e a estrutura que proporcionou seu sucesso. Mas tem um aspecto importante da região que não poderia ser mais português: foi lá que nasceu o original e único pastel de Belém. Para o resto de Portugal, pastel de Belém é aquele que você come na padaria na frente da estação, em Belém! Qualquer outro lugar pode te oferecer, tão somente, um pastel de nata (que é a mesma coisa, em forma e sabor). É etapa obrigatória do seu dia em Belém, eles vêm quentinhos e são maravilhosos! Uma grande dica é ir para Belém em um dia ensolarado, já que a maioria dos passeios serão a céu aberto. O percurso é tranquilo, de trem, que te deixa perto da região dos jardins e do Mosteiro. Mas uma observação importante: a Torre de Belém não fica tão perto quanto parece, não importa o que te digam! Continue lendo
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