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PEC 181: pró-vida, pero no mucho

PEC 181: pró-vida, pero no mucho

O ano é novo, mas a luta começa cedo. Em 2018 teremos eleições presidenciais, o que certamente indica que teremos pela frente muitos debates, não apenas sobre os nomes presidenciáveis, mas sobre as pautas que deverão ser cobradas do próximo nome a exercer o cargo mais alto do país. E é aí que entra um papo que ficou levemente esquecido nos últimos dias de 2017: a PEC 181. Que eu, particularmente, chamaria de PEC da carnificina.

A notícia já corre há quase dois meses: a Proposta de Emenda Constitucional 181 torna ilegal a interrupção da gravidez em quaisquer situações, incluindo as que hoje são permitidas por lei, como casos em que a mulher engravidou com consequência de um estupro. Não apenas um óbvio retrocesso, esta PEC escancara algo muito mais intrínseco: a misoginia do nosso país.

Quando falamos do machismo no Brasil nos canais do Não Me Kahlo, coletivo feminista que eu coordeno com outras mulheres, as respostas machistas costumam chegar com frases como: “Vão brigar contra o machismo lá no Oriente Médio, onde as mulheres são obrigadas a serem submissas”; “Vocês já podem votar, já saem pra trabalhar, quer mais o que?”.

O argumento de que o machismo “de verdade” é aquele que acontece do outro lado do mundo e a ideia de que sair pra trabalhar e votar por si só representam toda a luta feminista são, infelizmente, um retrato de uma sociedade que é um caldeirão preocupante. Unem-se ignorância sobre a história do feminismo no Brasil ao total desinteresse sobre quais são as pautas pelas quais as mulheres lutam, com doses cavalares de um esforço para manter o patriarcado firme e forte. Não apenas isso, além de a PEC 181 proteger ideias machistas, elas também encoraja a violência contra a mulher. Explico.

Em nenhum momento da história feminista e em nenhum escrito médico está a informação de que um aborto é algo prazeroso de ser feito. Fato é que ele é feito, ponto. A sua proibição não diminui o número de procedimentos de interrupção da gravidez, mas tira das mulheres a oportunidade de contarem com o aporte necessário para sua saúde física e mental. Ou seja, aborto seguro e com apoio psicológico.

Já se sabe, e não é de hoje, que proibição não resolve, então porque a insistência em uma política que mantém mulheres morrendo? A resposta é a própria misoginia. A negação ao direito de comandar o próprio corpo é um aviso do patriarcado que seremos castigadas por vivermos nossa sexualidade. E agora, com uma PEC que proíbe o aborto até em casos de estupro, ou seja, a relação sexual não consentida - o que inclui mesmo relações sexuais dentro do casamento, quando o marido obriga a esposa a transar mesmo que ela não queira-, é uma forma de dizer às mulheres que nossos corpos podem ser violados.

Quem se coloca a favor da PEC 181 denomina a si mesmo como “pró-vida”, alguém em defesa de crianças inocentes. A ironia é que essa luta não permanece quando a criança nasce, especialmente se for uma criança pobre. Aparentemente, um amontoado de células sem sistema nervoso formado tem mais direitos do que um bebê que efetivamente precisa do apoio do Estado.

Lá no começo desse texto eu citei que esse ano será de turbulência política, e é por isso que precisamos falar sobre a PEC à exaustão.E não apenas por ser ano de eleição, mas porque isso tudo demonstra que a participação popular, aclamada de dois em dois anos quando nos convidam para irmos às urnas, na verdade tem se mostrado muito mais uma farsa do que um exercício real de democracia. Esse tema está sendo gerenciado majoritariamente por homens que se esforçam para atender aos interesses da bancada evangélica. Lembremos que o aborto não é um assunto individual, mas uma pauta de saúde pública, um tema que afeta a todos direta ou indiretamente.

Recomendação útil: o documentário O aborto dos outros.

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Beabá dos termos: o que é machismo, sexismo, misoginia e feminismo?

Beabá dos termos: o que é machismo, sexismo, misoginia e feminismo?
Você já sentiu confusão ao ler ou até mesmo empregar os termos machismo, sexismo, misoginia e feminismo? Realmente eles podem ser confusos mesmo e é por isso que nós tiramos um tempinho para pesquisar sobre os conceitos por trás de cada um deles e trazer aqui para você. Quando falamos de conceitos, não estamos falando de definição do dicionário necessariamente, mas sim de uma definição das palavras e como, porquê e em quais situações essas palavras são empregadas. Da próxima vez que ficar com dúvidas, é só salvar o link para consultar sempre.   Machismo O termo, que deriva de macho, “é o conceito que baseia-se na supervalorização das características físicas e culturais masculinas associadas com o sexo masculino, em detrimento daquelas associadas ao sexo feminino, pela crença de que homens são superiores às mulheres”. <1>  Como o machismo é um tipo de violência que descrimina não só as mulheres, mas características consideradas femininas como um todo, os homens homossexuais, metrossexuais ou todo homem que tenha comportamentos ou se comporte de formas consideradas femininas, podem também serem vítimas do machismo. Para ilustrar: você já deve ter ouvido ou até mesmo falado “isso é coisa de mulher” em tom pejorativo e menosprezando alguma característica normalmente considerada feminina. Então. Mas as expressões de machismo vão muito além e ganham formas muito violentas como o femicídio. O machismo pode ser entendido também como a soma do sexismo e da misoginia.  No blog Escreva Lola Escreva tem uma discussão bastante interessante sobre as diferenças de machismo e sexismo para quem quiser se aprofundar mais. E se você já ouviu que mulher não pode ser machista, mas sim reproduzir machismo e não entendeu direito, esse ponto é levantado lá também.   Sexismo Diferente do machismo, que tem como raiz uma palavra latina, sexismo está ligado ao preconceito de sexo/gênero e deriva da palavra sex. “Sexismo  é o preconceito ou discriminação baseada no sexo ou gênero de uma pessoa. O sexismo pode afetar qualquer gênero, mas é particularmente documentado como afetando mulheres e meninas. Tem sido ligado a estereótipos e papéis de gênero e pode incluir a crença de que um sexo ou gênero é intrinsecamente superior a outro”. <3> Por exemplo, dizer que mulheres não são boas em matemática ou são péssimas no volante ou que não há mulheres na liderança de empresas porque elas não são boas nisso, pelo simples fato de serem mulheres, é sexista. No debate no Escreva Lola Escreva, uma pessoa atentamente ressaltou que “sexismo é diferenciar por gênero, colocar as pessoas em caixinhas e querer moldá-las de acordo com o gênero.”   Misoginia Misoginia (do grego μισέω, transl. miseó, "ódio"; e γυνὴ, gyné, "mulher") é ódio, desprezo e preconceito contra mulheres e meninas e se manifesta nas sociedades patriarcais por meio diferentes formas de violência contra as mulheres. "A é um aspecto central do preconceito sexista e ideológico, e, como tal, é uma base importante para a opressão de mulheres em sociedades dominadas pelo homem. A misoginia é manifestada em várias formas diferentes, de piadas, pornografia e violência ao autodesprezo que as mulheres são ensinadas a sentir pelos seus corpos." <4> Mas como explica a neurocientista e filósofa Berit Brogaard, é preciso enxergar para além da etimologia. Misoginia não é simplesmente odiar mulheres, mas sim odiar mulheres que não se comportam da maneira esperada pelo misógino. “Misoginia envolve o ódio em relação às mulheres ou um tipo de mulher por uma razão específica. A razão é que as mulheres para as quais o ódio é dirigido não agem de acordo com as crenças que o misógino tem sobre como as mulheres devem pensar e se comportar. Quais são essas crenças? São crenças relacionadas com a suposta inferioridade das mulheres em relação aos homens, por exemplo crenças de que as mulheres devem estar sexualmente disponíveis e que elas devem ser mães e esposas amorosas”.   Feminismo Feminismo é um movimento social, filosófico e político que tem como objetivo direitos iguais entre os sexos. O feminismo visa combater o machismo, o sexismo e a misoginia. É por isso que feminismo não é o oposto de machismo. Na verdade, feminismo não tem oposto.  Você pode ler mais sobre feminismo e por que precisamos dele por aqui. Continue lendo
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