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Jardinagem também é uma forma de ativismo

Jardinagem também é uma forma de ativismo
1-IvynApNLiV4oEE8rM6JDCA Crédito: André Biazoti
"Cultivar a sua própria comida é como imprimir seu próprio dinheiro". A fala de Ron Finley em seu discurso no TED resume o esforço de ativistas e educadores para construir comunidades mais sustentáveis e justas, por meio do cultivo de alimentos, jardins e florestas. A transformação de ilhas de cimento e terrenos abandonados em hortas comunitárias demanda uma visão de cuidado integral: com o espaço, com a vida, com as águas e com o solo. A ocupação verde converte o que é árido e morto em beleza natural. Finley é um artista plástico que atua como "jardineiro gangster". Ele demonstra sua vontade de fazer guerrilha ao plantar comida nos desertos nutricionais (áreas onde é difícil e até mais caro conseguir comida nutricionalmente adequada) de Los Angeles, repletos de "drive-thrus". O cuidado com o alimento é uma forte ferramenta de mudança para comunidades, requer comprometimento com os vizinhos e gera empoderamento pessoal. A autonomia não é resultado apenas da possibilidade de transformar sementes em comida, mas também de produzir alimentos independentemente de grandes corporações que detêm sementes transgênicas e o controle de agrotóxicos. É a demonstração da força da natureza e das pessoas.   OLHAR INTEGRAL A preocupação com a saúde ou com o meio ambiente faz com que essas pequenas plantações comunitárias sejam orgânicas, ou seja, cuidadas sem nenhum tipo de agrotóxico ou fertilizante sintético. Mas a visão de que tudo está integrado pode ir além. As agroflorestas, ou florestas de alimentos, são sistemas sustentáveis de produção, inspirados nos mecanismos da natureza. Sua intenção é a de recuperar o solo e a biodiversidade. Uma área heterogênea, que mistura no mesmo espaço a floresta, a atividade agrícola e pecuária, garante uma ocupação inteligente. Esse trabalho é capaz de  recuperar o solo, tornando-o rico, fofo e interessante para as sementes se desenvolverem.
Sistema-Agroflorestal-da-Cooperafloresta-SAFs Crédito: site Rumo Sustentável
No espaço urbano, quando as plantas ganham mais espaço em jardins caseiros ou hortas comunitárias os lares para polinizadores e pássaros aumentam. Uma outra opção de preservação ambiental para áreas urbanas é a chamada floresta de bolso, onde a grama e as espécies exóticas dão lugar a árvores nativas. A proposta, desenvolvida pelo botânico Ricardo Cardim, tem o objetivo de recuperar áreas degradadas e evitar, por exemplo, as ilhas de calor que se formam nas cidades. A lista de benefícios é grande. As árvores ajudam a diminuir a temperatura, aumentam a umidade do ar, filtram a água da chuva e gases tóxicos e retêm a poeira suspensa no ar. As hortas também podem ajudar no controle do lixo, uma questão fundamental da vida urbana. Uma vez que parte dos resíduos domésticos é lixo orgânico (restos de frutas, verduras e outros alimentos), utilizar o espaço das hortas para fazer compostagem gera uma relação onde todos ganham. O processo natural em que micro-organismos fazem a decomposição da matéria orgânica pode ser reproduzido também em pequenas áreas. Como resultado, menos volume de lixo acaba nos aterros sanitários e consegue-se adubo gratuito para a horta. O projeto pioneiro do Shopping Eldorado, em São Paulo, utiliza o que seria descartado da praça de alimentação para produzir o adubo da horta comunitária, que fica na laje do prédio.
13149728 Crédito: divulgação
  RELAÇÕES ENTRE PESSOAS E ALIMENTOS Para os moradores de grandes centros urbanos o caminho entre o campo e a mesa é demasiado longo. Perde-se não só sabor mas também a percepção do que acontece entre uma ponta e outra. Ao ver um legume na bandeja de isopor, nada remete à figura do agricultor ou ao trabalho dedicado para a semente germinar, crescer e amadurecer. Olhando a embalagem não dá pra ver o estrago feito pelos agrotóxicos ou pela monocultura. É por isso que plantar também humaniza, aproxima as pessoas da rede de produtores locais, aprende-se a dar outro valor ao que se come. Os hortelões urbanos reivindicam o contato com o alimento e a reconexão com a terra. É muito perigoso que as crianças dessa geração não saibam diferenciar batatas e cebolas. No supermercado, tudo vem cortado e embalado (e provavelmente, frito ou envolvido em muita gordura trans). Mas a experiência diz que quem cultiva tem desejo de provar e acaba gostando, funciona como um convite para descobrir novos sabores. Alguns governos enxergam essa prática como instrumento na busca por saúde e no combate a obesidade. É o caso de Michelle Obama, primeira dama dos Estados Unidos. No Brasil, até quem come de tudo se espanta com a infinidade de descobertas que uma horta proporciona. Algumas plantas erroneamente classificadas como "daninhas" ou "invasoras" tem grande valor alimentício. É o caso das plantas alimentícias não convencionais (PANC). Elas quase não tem valor mercadológico e apesar de fáceis de encontrar na terra, não são encontradas nos mercados. Para manter essa variedade viva, os agricultores persistentes promovem encontros de trocas de sementes e trocam informações em grupos no Facebook.
orelha de padre - feijões folhas Crédito: Neide Rigo
Para além dos benefícios terapêuticos de revirar o solo, o paisagismo alimentar é uma forma de resistir, e existir, nas cidades. Os alunos de Stephen Ritz ganharam voz no distrito de Bronx, onde vivem, por meio do cultivo. Mesmo em situação marginal, o professor encontrou no esforço coletivo uma forma de valorizar e integrar esses jovens à sociedade. O impacto desse trabalho já foi celebrado e documentado pela imprensa local, nacional e internacional. O ponto em comum entre todos esses movimentos é a certeza de estarem começando uma revolução silenciosa, que não exige dinheiro, incentivo político ou que sejam dribladas barreiras burocráticas para acontecer. Ela pode ser uma revolução de todos. "Se você come: você está dentro", diz Pam Warhurst, da comunidade Incredible Edible, que planta alimentos por toda a cidade de Todmorden na Inglaterra.   BONS COMEÇOS Quem deseja começar sua própria empreitada alimentar pode tentar descobrir se já não existe uma horta comunitária precisando de voluntários na região em que mora ou trabalha. Em São Paulo, por exemplo, a Horta das Corujas e a Horta do CCSP sempre estão realizando mutirões para dar conta de todo o trabalho. No Rio de Janeiro, a Horta do Cosme Velho, que passou pela queda de uma árvore recentemente, vai precisar de ajuda para arrumar os estragos.
12622479_1699538523625137_1449429377295632820_o Crédito: Michal Krawczyk
As hortas comunitárias podem ser feitas em qualquer lugar, um pedaço de terra em um canteiro abandonado serve. Seja na escola, no condomínio, no clube ou no parque, é preciso conversar sobre isso com as pessoas que dividem esse espaço. Dialogar sobre a vontade de transformação e também os benefícios, a comunidade precisa se sentir inspirada a colaborar. E para quem ficou inspirado em espalhar essas sementes, pode ser que goste desse conto entitulado "O perigo da semente". Continue lendo
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