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#PergunteAUmaMulher

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Sem clichê, por favor. Estamos em 2018. Vamos falar sobre o que é ser mulher hoje? E antes de mais nada, vamos lembrar que pra entender o que pensa e o que sente uma mulher só tem um jeito: perguntando e deixando ela falar. Quando o assunto é ser mulher hoje no mercado de trabalho, foram muitos avanços sim, mas ainda é claro que tem grandes barreiras pra quebrar: as mulheres representam 43,8% dos trabalhadores brasileiros e recebem, em média, 76% do salário dos colegas homens.

As mulheres ocupam só 37% dos cargos de direção e gerência no Brasil, e nesses cargos, recebem salários que correspondem a 68% dos homens na mesma função. No mundo, 34% das empresas não possuem mulheres em cargos de liderança. Na América Latina 48% das empresas não têm mulheres em cargos de liderança sênior.

E só as mulheres sabem como é fazer parte dessa realidade. A Insecta é uma empresa criada, dirigida e composta na esmagadora maioria por mulheres. Cada uma com suas referências, vivências e área de atuação. Perguntamos umas pras outras e dividimos ao longo dessa semana nas redes sociais. Aqui está o conteúdo completinho pra você saber tudo que a gente pensa (e nos conhecer melhor).

Barbara Mattivy

Idade: 32

O que faz: Fundadora da Insecta, responsável pelas áreas de branding, marketing e administrativo/financeiro. Vou desde os stories até os boletos kkk

Por que fomentar o empreendedorismo feminino? Sem conseguir fugir do clichê, acho que o futuro é feminino e o mundo precisa de mais liderança feminina. Além de dados que dizem que empresas dirigidas por mulheres têm uma sobrevivência mais longa e pensam melhor a questão da sustentabilidade, a mulher no papel de líder consegue trazer uma gestão mais empática, humana e responsável. Fica nas mãos dela reduzir a desigualdade de gênero, contratar e empoderar mais mulheres, trazer mais diversidade para a equipe e dirigir uma empresa do bem, sem que o lucro venha a qualquer custo.  

Aline Dalbem

Idade: 24

O que faz: Como assistente administrativo, atuo nas funções financeiras e administrativas da Insecta, entre as atividades diárias estão pagamento de fornecedores, conciliações bancárias, controle dos caixas das lojas, gerenciamento de benefícios para o time e muitas outras.

Como é ser mulher em uma função majoritariamente exercida por homens? Desde o início da faculdade de Engenharia sempre me deparei com desafios por ser mulher e ter meu trabalho reconhecido com igualdade. Foi na Insecta em que eu me encontrei como mulher e futura engenheira atuando em algo que faz a diferença.    

Beatriz Griep

Idade: 33

O que faz: Sou responsável pelos desenvolvimentos, pesquisas constantes para atualizações e novos modelos da marca,  busca na melhoria de processos, componentes, matéria prima entre outros. Definição de cartela de cores, estamparia, contato com fornecedor  e equilíbrio da coleção também fazem parte do meu escopo de trabalho

Qual é o principal desafio de ser mãe e estar no mercado de trabalho? Com certeza é conseguir conciliar vida pessoal e trabalho, não é qualquer empresa que entende isso (na verdade quase nenhuma). Normalmente tu tens que estar a disposição da empresas 24h por dia (tem muitos profissionais que se sujeitam a isso) para ser considerada uma boa profissional, o que ao meu ver não é uma verdade. O equilíbrio para mim é o maior motivador que existe, dá tempo sim para trabalhar e ter filho, desde que se trabalhe focada e que você seja respeitada enquanto estiver em casa.  

Giuliana Almada

Idade: 27

O que faz: Sou analista de produto, cuido de toda a parte de contato com fornecedores e acompanhamento de produção. Faço a compra dos materiais e planejo os nossos pedidos de coleção. Analiso a demanda dos nossos clientes, o que dá certo e o que não dá, e planejo qual será a nossa oferta de opções, volume e numeração. Além disso, faço a ponte com lojas que revendem nossos sapatos lá fora e cuido de todo o procedimento de exportação.

Quais são os desafios de negociar com fornecedores homens? O maior desafio é me fazer respeitar, não apenas por ser mulher, mas também pelo combo gênero/idade/experiência. Por sorte temos fornecedores muito parceiros, com quem já criei uma relação bacana, e daí é muito mais fácil ser natural. Mas em algumas ocasiões fica claro que não está havendo uma "confiança" que eu sei o que estou falando. Nessas situações, preciso agir de forma bem assertiva e direta, me munir de informações para rebater questionamentos (que sempre ocorrem), justamente para afirmar minha competência e impor respeito.  

Lucy Horn

Idade: 28

O que faz: Sou assistente de ecommerce :) Faço contato com nossos sistemas entrega (transportadora/bike) e NF, cadastro o produto, confirmo o seu pedido e faço o besouro chegar lindinho na sua casa <3

O que é indispensável no relacionamento à distância com a consumidora? É indispensável quando se está a distância ter uma comunicação clara e objetiva. Fazer a consumidora se sentir tranquila na hora da compra online. Nós mulheres sempre temos mais segurança em compras online, pois sabemos exatamente o que e como queremos. Então, mantendo essa comunicação redondinha, não tem erro. :)    

   

Jéssica Albuquerque

Idade: 31

O que faz: Designer, faço a direção criativa (pensando os conceitos das fotos, dos vídeos, campanhas em geral) e direção de arte (criando os materiais visuais da marca).

Qual é a importância de representar diferentes tipos de mulheres em campanhas? Retratar a nossa pluralidade, na busca de gerar visibilidade e identificação.   

 

Luísa Saldanha

Idade: 32

O que faz: Sou redatora da Insecta. Cuido de praticamente tudo que aparece escrito em nome da marca. Também ajudo a equipe de marketing a pensar campanhas e planejar estratégias. Alguns dos textões lá do blog são meus também: tenho a sorte de poder pesquisar bastante sobre assuntos que me interessam como veganismo, meio ambiente e consumo consciente.

Como ser mulher influencia na criação dos seus textos? Ainda tem muita coisa por aí sendo escrita pra mulheres, mas não por mulheres. Quando escrevo, acredito que alcanço de forma mais empática mulheres que me leem. Ser uma mulher que escreve também é procurar mulheres como fonte e referência e, consequentemente, poder ser uma referência para as outras. <3 

 

Luiza Lambert

Idade: 22

O que faz: Sou assistente de marketing. Respondo os clientes da Insecta em todos os pontos de contato, como e-mail, Facebook e Instagram. Faço planejamento de conteúdo para as redes sociais e auxilio na produção das fotos mensais da Insecta.

Qual é a importância de ouvir outras mulheres? Ouvir uma mulher é ter empatia. É ter a consciência que, mesmo que a gente se identifique com a outra em diversos aspectos, nós somos super diferentes uma da outra. É mais do que compreender e respeitar, é sentir com ela.     

Raisa Machado

Idade: 27

O que faz: Sou assessora de imprensa com um pé na criação de campanhas, vídeos e projetos. Escrevo releases sobre a marca, atendo veículos de comunicação, agendo entrevistas, estreito o relacionamento entre a marca e influenciadoras inseridas no nosso universo e chamo mulheres incríveis pra tomar cerveja com a gente em dia de evento. Sou olheira de Instagram, estou sempre online no Whats App e atenta em referências visuais e comportamentais.

Por que se conectar com outras mulheres? Me conectar com outras mulheres é criar uma rede de união e sororidade, é juntar forças, dar suporte e também ser apoiada. É entrar em contato com diferentes universos e redescobrir o meu, compreender que todas carregamos diferentes histórias e que esse é o tempero que nos torna tão especiais. Me conectar com outras mulheres é um eterno aprendizado. É ter um super orgulho pelo quanto somos incríveis, ter respeito e admiração pela trajetória individual de cada mulher que conheço e ainda vou conhecer e ter a certeza de que juntas ninguém nos segura.  

Lívia Belfort

Idade: 32

O que faz: Atendo nossos clientes no casulo paulista e cuido das rotinas de funcionamento da loja.

Por que é importante criar uma relação de confiança entre mulheres? Crescemos sendo estimuladas a competir entre nós, e basta uma quebrar essa lógica para inspirar todas ao seu redor. Quando criamos esse tipo de confiança, de exaltar outra mulher sem pensar que somos menos por isso, nós incentivamos outras mulheres e assim por diante! A gente se transforma e procura evoluir todos os dias porque criamos elos de troca muito especiais, fora a força que dá sentir que temos aliadas na vida, né? Ficamos mais corajosas pra agir, sentir, ser.

Klarissa Santos Alves

Idade: 27

O que faz: Sou vendedora do casulo de Porto Alegre. Fazer conferências, cuidar do caixa e atender o público são os principais quesitos, além da organização que preso no ambiente de trabalho. Recebo produtos, faço envio de pedidos, remessas e transferências em caixas grandes (os famosos corrugados), separo pares para os ensaios de fotos e além das parcerias que a empresa tem e disponibiliza os calçados em um curto período de tempo.

Qual o papel da mulher negra como porta-voz de uma marca? Eu como mulher negra acho gratificante poder mostrar que a Insecta Shoes é para todas nós, que há opções para todos os gostos e inspirações. Contar a proposta e a história por de trás da marca acaba tendo retorno até pra pessoas que nunca ouviram falar, e isso nos aproxima, como exemplo as mulheres da minha família: "Nos sentimos representadas quando vemos duas modelos no vídeo e outra nas fotos de ensaio, dá vontade de usar mesmo."  

Yara Rufina

Idade: 17

O que faz: Atendo os clientes no casulo paulista e ajudo a cuidar do nosso estoque.

Qual é a importância de ter mulheres negras inseridas em uma marca? A representatividade negra (principalmente da mulher) em marcas de moda e beleza possui o poder de injetar uma intensa carga de autoestima em um público que está acostumado ao protagonismo das características caucasianas em todos os meios. Estamos em 2018 e percebe-se que quebrar com os estereótipos da mulher negra na sociedade tem sido um processo demorado e é para isso que a representatividade também serve. E tem vindo em um momento bastante especial, visto que a maior parte da juventude preta possui hoje bagagem suficiente para compreender as razões pelas quais não éramos representados antes e força suficiente para lutar contra isso.  

Laura Madalosso

Idade: 32

O que faz: Sou uma das sócias da empresa e, como tal, resumidamente, me envolvo com todas as frentes de trabalho. Ainda assim, minha principal área de atuação é o produto, na gestão holística da área: do planejamento das coleções e acompanhamento do desempenho de cada linha, ao estilo e desenvolvimento de cada produto, à pesquisa de fornecedores e novas matérias primas, o garimpo, o acompanhamento da qualidade e durabilidade dos modelos, até a produção e o fechamento do ciclo. E estando na matriz, em Porto Alegre, também respondo pela importantíssima gestão do departamento canino do besouro, que tem lady Biga e Badok, o terrível, como crew <3

Por que contratar mulheres? Aqui na Insecta temos um ambiente de trabalho 100% seguro para mulheres serem exatamente quem elas querem ser. Contratamos mulheres porque elas são profissionais maravilhosas, com skills naturalmente alinhadas com a nossa visão de presente e futuro. Estamos cansadas de vê-las não explorando seu total potencial ou tampouco sendo remuneradas de acordo quando o fazem.  

Marília Glauche

Idade: 22

O que faz: Estagiária de Design de Produto. Cuido da parte dos pedidos para o atelier, catalogação das peças vintages e retalhos de produção. Participo também do desenvolvimento dos produtos e estampas.

O que você aprende trabalhando com mulheres? Aprendo a ser persistente e buscar meu espaço. Ser mulher no mercado de trabalho exige ter muita resiliência e força. Por isso, ter mulheres como exemplo profissional e em cargos de liderança, satisfaz e inspira por saber todas as dificuldades e lutas para se estar nessa posição.    

* Agora vamos levar essa conversa adiante? Estamos usando a hashtag #pergunteaumamulher pra levar o assunto pra todos os canais e você pode acompanhar e participar também. Tem alguma pergunta pra fazer pra gente? Quer saber mais sobre a Insecta, sobre o que (e como) fazemos por aqui? Vamos te responder. Pode ser aqui, por email (no hello@insectashoes.com) ou nos dando um alô nas nossas redes sociais.  

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Dados
https://glo.bo/2m8lmM9 Business Report (IBR) – Women in Business, Grant Thornton
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Quem é Insecta neste dia da mulher?

Quem é Insecta neste dia da mulher?

Aqui no blog vocês acompanham, mensalmente, textos sobre diversos temas afins ao feminismo. No Dia Internacional da Mulher do ano passado eu expliquei por quê essa data existe, e por quê ela não tem nada a ver com o clichezão sobre feminilidade que a mídia difundiu. Falei também sobre mercado de trabalho, empoderamento e sororidade. E, justamente, foi a partir desses três pilares que a Insecta nasceu.  

Empoderamento

Achamos importante que, neste dia tão simbólico para a história das mulheres, vocês saibam que o cerne da marca é colocar em prática tudo isso que vocês leem em nosso blog. A Insecta é praticamente uma criança, né? Nasceu em 2014, é novinha, mas já tem muita história pra contar e muita energia criativa pra fazer acontecer. Acontece que nada disso é fácil e nem acontece de uma hora para outra. Tudo isso é construído, e essa história tem tudo a ver com o dia da mulher. O cuidado com quem faz a Insecta acontecer vai desde a fabricação até a venda. E isso não é uma propaganda, é uma fotografia da nossa realidade. Afinal, quando falamos de empoderamento, falamos, também, de um ambiente saudável para que mulheres possam exercer sua profissão e terem seus direitos respeitados. Ser inclusivo vai além da seleção de um casting diverso. Significa enxergar valor nas diferenças e nas experiências que cada pessoa traz consigo.  

Mercado de Trabalho

Trabalhar esse tal de “empoderamento” na prática nos coloca em cheque em muitos momentos. Criar uma marca que busca um propósito junto com seus consumidores esbarra em diversos poréns, especialmente quando são mulheres dando a cara a tapa em um mercado de trabalho machista e que sempre questiona nossa capacidade. A gente vive em um sistema econômico que trabalha crises cíclicas, ou seja, momentos de altos e baixos, pleno emprego alternado com recordes de desemprego. E as mulheres são especialmente afetadas. Isso quer dizer que temos que ignorar homens desempregados e agir como se apenas mulheres representassem a força laboral do país? Não! – infelizmente muitas pessoas usam esse argumento falho quando querem diminuir a importância dos debates de gênero.

O que esse fato nos traz é que se nós quisermos diminuir a vulnerabilidade econômica da população precisamos olhar, sobretudo, aos que mais sofrem com essa situação. E quando falamos de mulheres no mercado de trabalho, temos que relembrar à exaustão os seguintes fatores: preconceito contra mulheres com filhos, múltiplas jornadas de trabalho, dependência financeira, violência doméstica (que muitas vezes derivam do item anterior, pois acabam não tendo condições de sair de uma relação abusiva). Por isso o trabalho da Insecta é focado em uma forma de organização que se preocupa com as pessoas envolvidas na cadeia de produção dos produtos.

Sororidade

Eu acho bem triste ter percebido uma descrença na sororidade nos últimos tempos. Percebo em meu círculo de convivência que existem muitas mulheres decepcionadas com o feminismo por conta de desentendimentos e desavenças. Acredito que talvez a gente tenha se perdido nesse conceito de sororidade em algum momento. Somos seres humanos, com qualidades, defeitos, limitações, sonhos, ego. Temos formações, experiências e expectativas diversas. As diferenças vão existir. Os conflitos surgirão. Neste dia da mulher nós queremos frisar a importância da sororidade não como um cenário edílico onde todas as mulheres concordarão umas com as outras sempre, mas como uma maneira de construir relacionamentos e cumplicidade para que nossos sonhos possam sair do papel. Trabalhar de forma a apoiar outras mulheres. Ajudar no desenvolvimento profissional de outras trabalhadoras. Apoiar os estudos das meninas. Nós por nós. Vamos nessa?

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As pessoas realmente entenderam o que é assédio?

As pessoas realmente entenderam o que é assédio?

Eu estava vendo este vídeo do Catraca Livre e fiquei preocupada. Me parece que o tema “assédio” ainda não é levado com a seriedade com que deveria. Os caras que aparecem na matéria, que procura saber se as pessoas estão ligadas nas diferenças entre paquera e assédio são os mesmos caras que convivem comigo e com você no trabalho, nos barzinhos, nas faculdades. São homens adultos, que viveram sob as mesmas regras sociais que as mulheres, que já devem ter sido bombardeados em seus perfis de redes sociais por campanhas e vídeos sobre assédio. Alguma noção eles deveriam ter.

Mas ao que tudo indica, ainda há um caminho longo a ser percorrido. Para o mês de fevereiro, naturalmente meu primeiro insight foi escrever um texto que explicasse o que é assédio e ajudasse as pessoas a identificarem essas situações. Entretanto, muitos veículos e personalidades já estão fazendo isso, como no vídeo em que a Jout Jout LITEREALMENTE desenha quando a gente pode entender que determinadas situações simplesmente não estão ok. “Ah, mas e se ela estiver fazendo charminho...?” NÃO. “Mas será que ela disse não querendo dizer sim?” NÃO. “Olha, mas tem aquelas que usam roupas REALMENTE curtas, aí fica difícil, né” NÃO.

Não só tem um significado: não. Visto que tem tanta gente falando sobre isso, por que ainda encontramos homens que tentam um certo malabarismo retórico para justificar assédio? Eu não acho a resposta fácil. Dizer que vivemos em uma cultura que naturaliza o assédio é chover no molhado, porque isso já sabemos. O que eu quero trazer hoje é uma reflexão que perdure pelo ano todo, e não apenas na época da folia. O carnaval é a festa mais popular do nosso país, ele une gente de todos os cantos, e é justamente por isso que ele acaba espelhando em uma semana o que acontece todos os outros dias do ano. Acaba sendo um bom espelho onde vemos nossa sociedade ser desenhada na base da violência.

O que me deixa mais feliz é ver que, mesmo com a insistência de homens que buscam todas as formas para deslegitimar as negativas das mulheres, é também no Carnaval que nós entendemos conceitos importantes como sororidade e empoderamento. Mulheres estão atentas e unidas contra o assédio, e esse felizmente é um caminho sem volta. Mas, o alerta dado aqui, precisa seguir ao longo do ano inteiro. Respeita as mina durante o carnaval e durante o ano todo.  

- *Na foto em destaque as minas do bloco Pagu, que tem a bateria formada só por mulheres e é um dos tantos blocos feministas que tem surgido nos últimos carnavais. Esse movimento de transformar a festa em um ambiente seguro para mulheres curtirem sem medo só cresce, ainda bem!

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20 de novembro: qual o papel da população branca?

20 de novembro: qual o papel da população branca?

No ano passado eu escrevi aqui para o blog da Insecta sobre as razões que fazem o Dia da Consciência Negra tão importante. Expliquei os caminhos históricos que fizeram nosso país ser considerado um dos mais racistas do mundo, fato esse ainda negado por uma parcela conservadora que acredita que racismo só se dá pela verbalização pública de termos pejorativos, ignorando que sua recusa em refletir é parte das ações racistas de nossa sociedade.

Apesar de alguns pequenos avanços, as notícias ainda são pessimistas para a população negra: o genocídio de jovens negros, o feminicídio de mulheres negras e a taxa de desemprego entre negros de todas as idades seguem aumentando, tornando a luta por equidade mais complexa e difícil, uma vez que as razões e consequências do racismo estrutural são várias. Mas é nesse dia, também, que pessoas brancas empáticas à causa negra escolhem expor seu apoio. Muitas vezes recebo mensagens dessas pessoas, me questionando qual seria a forma mais eficaz de ajudar a população negra.

Outras alegam que não fazem nada por medo de “roubar o local de fala” dos negros. Por isso, meu artigo de hoje é voltado para nossos amigos brancos e como vocês podem (e, ao meu ver, devem) ajudar no combate ao racismo. Para introduzir esta argumentação, preciso relembrar uma história. Há exatamente um ano, no dia 20 de novembro, uma escritora feminista branca resolveu dar sua contribuição a tão importante data. Para isso, resolveu escrever um post em seu perfil em uma rede social, muito bem fundamentado, falando sobre o privilégio branco e assuntos que concernem a este tópico.

Não seria exatamente um problema se: 1) ela tivesse escolhido outro dia para expor suas ideias, em vez de usar uma data que precisa ser usada para dar visibilidade aos negros e 2) não tivesse escrito de uma forma que ficou parecendo que ela recortou um punhado de trechos de textos de autoras negras, modificou um pouco as palavras e assinou com seu nome.

No fim das contas, o imbróglio foi certo: algumas pessoas negras a questionaram por ela, em pleno dia da consciência negra, viralizar em world wide web com argumentações retiradas de escritoras negras sem dar a nenhuma delas créditos pelas referências.

Ao ser questionada pelo oportunismo, a escritora branca se ofendeu - ignorando que já havia ofendido cada mulher negra que viu seus escritos serem usados como base por uma escritora branca, sem receberem créditos. Sob o meu ponto de vista, a pior forma de querer mostrar apoio é tomar para si um assunto em vez de oferecer autores negros como referência. Nestes casos, eu sempre recomendo a obra da doutora em Psicologia Social, Lia Vainer Schucman, autora do livro Entre o encardido, o branco e o branquíssimo. Na obra, a autora propõe o estudo da branquitude: o que significa ser branco em termos práticos e simbólicos? Quais são os tais privilégios dos quais todos falam tanto? O que significa ser branco em um país que se popularizou sob a farsa da democracia racial?

Os estudos sobre a branquitude vão muito além de especulações sobre o que seriam tais privilégios. Brancos dificilmente se veem como raça. Eles se veem como pessoas. Por isso é tão difícil fazer a população compreender que raça não é um termo pejorativo. Os conceitos de normalidade, civilidade e educação foram moldados sob o ponto de vista branco, e tudo o que sai deste eixo é tido como exótico. No ano passado eu tive a oportunidade de participar de um debate sobre racismo na mídia na sede do jornal Le monde Diplomatique. Após o evento, propusemos ao veículo que cedesse espaço para escritores negros em uma série sobre racismo, e foi assim que tive um artigo meu publicado no jornal.

Existem muitos caminhos para estudarmos racismo, e no meu caso, para os meus escritos a minha base foram a Comunicação e Psicologia, mostrando um pouco da teoria do estrangeiro, que torna os preconceitos tão vivos em nossas relações sociais, e como as dinâmicas dos veículos de comunicação pulverizam senso comum em uma massa populacional, dificultando a quebra desses paradigmas. Por isso, quando uma pessoa branca me questiona sobre como pode ajudar a população negra, a resposta é sempre: estude branquitude. Saiba o que é ser branco e o que isso simboliza em nosso país. Em outra ocasião fiz um post no meu Facebook perguntando por que meus amigos brancos não compareciam a eventos negros - palestras, debates, conferências, etc. As respostas tornaram o post um show de horror. Pessoas brancas alegavam que tinham medo de se sentirem discriminadas e hostilizadas, ou diziam que achavam que os eventos negros não eram lugar pra elas. É preciso entender algumas coisas sobre isso:

  1. Existem alguns eventos negros que são exclusivos para pessoas negras. Geralmente são eventos de formação política, para ajudar àqueles que estão em processo de se reconhecer como negros, e também para estudos de leituras de intelectuais negros. Esses espaços precisam ser respeitados. É importante que tenhamos tempo e espaço para compreendermos nossa própria existência.
  2. Negros passam uma vida sendo rechaçados, assassinados e desumanizados apenas por serem negros. E brancos acham que sabem o que é hostilidade quando simplesmente não querem compreender como os grupos negros se organizam.
  3. A maioria dos eventos negros são abertos para todos, o que torna totalmente possível a participação de pessoas brancas para que possam aprender mais sobre as nossas pautas. Muitos desses eventos são gratuitos, inclusive.
Ao contrário do que propagam fanpages conservadoras, não existe mimimi algum nós negros. Pelo contrário, nós trabalhamos em múltiplas jornadas. Muitos de nós, além de um emprego em horário comercial, mantemos atividades em coletivos, ongs ou centros culturais, montando cursos, oficinas e outras atividades para disseminar conhecimento sobre nossa história e cultura. Nós somos uma população muito ativa, criativa e proativa. Neste 20 de novembro eu convido a população branca a nos conhecer e reconhecer. Continue lendo

Permita seu corpo primaverar

Permita seu corpo primaverar

Empoderada. EM-PO-DE-RA-DA. Leia essa palavra novamente, pausadamente. Um termo gasto e absorvido pela mídia, que nos dá a falsa impressão de liberdade. Somos empoderadas mesmo? Temos poder sobre nós mesmas? A primavera vem aí, falta pouquinho pra estação mais florida do ano, e por não falar no nosso processo de florescimento, também? A esta altura todos nós já sabemos o básico: pessoas adultas têm pelos.

Então por que, em pleno 2017, uma foto que mostre uma mulher com pelos pode causar um reboliço tão grande, e até mesmo demonstrações de violência? Nojento, anti-higiênico, desleixo...quantos adjetivos nos dão, não é mesmo? Você se depila hoje e daqui quinze dias já está aflita, porque os pelos estão longos o suficiente para serem vistos, mas ainda muito curtos para serem novamente arrancados. E dá-lhe calça jeans e manga que esconda as axilas, mesmo debaixo de um sol de quarenta graus.

Tudo isso porque as pessoas ao redor não podem nem imaginar que temos os tão naturais pelos. “Uma mulher adulta com pelos, poros, cravinhos? CREDO!” E dá-lhe gilete, cera, sabonete íntimo, desodorante íntimo, qualquer coisa para detonar a flora vaginal para agradar o outro. A gente pode até tentar se enganar dizendo que faz só pra se sentir bem, mas no fundo sabemos que tem mais coisa por trás de uma rotina quase obsessiva em busca da pele perfeitamente lisa, da vagina com cheiro de fruta e da axila perfeita como seda. E mudar tudo isso não é fácil.

É um exercício diário que já fazemos diante do espelho, mas a contrapartida precisa existir. Ou seja, as pessoas ao redor precisam entender que pouco importa a opinião pessoal delas, o respeito é uma obrigação. Agredir verbalmente alguém que escolheu não seguir as convenções sociais faz com que a denominação  “animal racional” pareça incondizente com nossa espécie. Enquanto parte de nós busca olhar pra si mesma com olhos desnudos de pré-definições, toda a sociedade se esforça para que sigamos escravas de padrões.

Em tempo: percebam que em momento algum eu condeno o ato de depilação em si, mas a forma como esse hábito é imposto, e deixa de ser mera escolha para se tornar obrigação. Não há nada de nojento em pelos. Afinal, homens estão ai ostentando sua natureza sem maiores problemas. Sabemos que a questão não é falta de higiene e que os pelos femininos só soam nojentos porque fomos ensinados assim. Tudo aquilo que não se assemelhar a uma capa de revista será condenado: gordura, fluidos vaginais, menstruação e... pelos. Eles, que formam parte de um importante mecanismo de defesa e proteção à nossa pele e órgão genitais.

Cuidados com higiene pessoal são diferentes de sacrifícios para buscar adequação social e aceitação. O primeiro caso, todos os seres humanos, independente de seu gênero, precisam fazer. É mandatório manter bons hábitos para a manutenção da boa saúde (Sra. Óbvia ataca novamente). Mas o extremo da vaidade, aquele que prende e mutila mulheres para que continuemos submissas a um sistema, não tem a ver com limpeza corporal, mas com poder e controle. O florescimento de nossos corpos, o auto-amor, o auto-cuidado e o entendimento do funcionamento do nosso organismo são essenciais para que nos mantenhamos fortes. E para aqueles que acham errado a ideia de ter pelos, ok, tire os seus, estamos bem assim. Repito que não existe um problema em escolher o que fazer com seu corpo. Desde que seja, de fato, uma escolha.

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