Calce Uma Causa

Permita seu corpo primaverar

Permita seu corpo primaverar

Empoderada. EM-PO-DE-RA-DA. Leia essa palavra novamente, pausadamente. Um termo gasto e absorvido pela mídia, que nos dá a falsa impressão de liberdade. Somos empoderadas mesmo? Temos poder sobre nós mesmas? A primavera vem aí, falta pouquinho pra estação mais florida do ano, e por não falar no nosso processo de florescimento, também? A esta altura todos nós já sabemos o básico: pessoas adultas têm pelos.

Então por que, em pleno 2017, uma foto que mostre uma mulher com pelos pode causar um reboliço tão grande, e até mesmo demonstrações de violência? Nojento, anti-higiênico, desleixo...quantos adjetivos nos dão, não é mesmo? Você se depila hoje e daqui quinze dias já está aflita, porque os pelos estão longos o suficiente para serem vistos, mas ainda muito curtos para serem novamente arrancados. E dá-lhe calça jeans e manga que esconda as axilas, mesmo debaixo de um sol de quarenta graus.

Tudo isso porque as pessoas ao redor não podem nem imaginar que temos os tão naturais pelos. “Uma mulher adulta com pelos, poros, cravinhos? CREDO!” E dá-lhe gilete, cera, sabonete íntimo, desodorante íntimo, qualquer coisa para detonar a flora vaginal para agradar o outro. A gente pode até tentar se enganar dizendo que faz só pra se sentir bem, mas no fundo sabemos que tem mais coisa por trás de uma rotina quase obsessiva em busca da pele perfeitamente lisa, da vagina com cheiro de fruta e da axila perfeita como seda. E mudar tudo isso não é fácil.

É um exercício diário que já fazemos diante do espelho, mas a contrapartida precisa existir. Ou seja, as pessoas ao redor precisam entender que pouco importa a opinião pessoal delas, o respeito é uma obrigação. Agredir verbalmente alguém que escolheu não seguir as convenções sociais faz com que a denominação  “animal racional” pareça incondizente com nossa espécie. Enquanto parte de nós busca olhar pra si mesma com olhos desnudos de pré-definições, toda a sociedade se esforça para que sigamos escravas de padrões.

Em tempo: percebam que em momento algum eu condeno o ato de depilação em si, mas a forma como esse hábito é imposto, e deixa de ser mera escolha para se tornar obrigação. Não há nada de nojento em pelos. Afinal, homens estão ai ostentando sua natureza sem maiores problemas. Sabemos que a questão não é falta de higiene e que os pelos femininos só soam nojentos porque fomos ensinados assim. Tudo aquilo que não se assemelhar a uma capa de revista será condenado: gordura, fluidos vaginais, menstruação e... pelos. Eles, que formam parte de um importante mecanismo de defesa e proteção à nossa pele e órgão genitais.

Cuidados com higiene pessoal são diferentes de sacrifícios para buscar adequação social e aceitação. O primeiro caso, todos os seres humanos, independente de seu gênero, precisam fazer. É mandatório manter bons hábitos para a manutenção da boa saúde (Sra. Óbvia ataca novamente). Mas o extremo da vaidade, aquele que prende e mutila mulheres para que continuemos submissas a um sistema, não tem a ver com limpeza corporal, mas com poder e controle. O florescimento de nossos corpos, o auto-amor, o auto-cuidado e o entendimento do funcionamento do nosso organismo são essenciais para que nos mantenhamos fortes. E para aqueles que acham errado a ideia de ter pelos, ok, tire os seus, estamos bem assim. Repito que não existe um problema em escolher o que fazer com seu corpo. Desde que seja, de fato, uma escolha.

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Tem uma Charlottesville no Brasil todos os dias. Você é que não vê.

Tem uma Charlottesville no Brasil todos os dias. Você é que não vê.

Com o título “Racismo no Brasil é real, mas não se manifesta como ódio racial”, o autor Joel Pinheiro da Fonseca abre seu artigo semanal no site do jornal Folha de São Paulo para falar do ocorrido em Charlottesville, quando manifestantes pró-supremacia branca reviveram um antigo pesadelo norte-americana. Sob a alegação de que existe racismo no nosso país, mas de uma forma não tão explícita:

“O combate ao racismo, que no longo prazo tem sido vitorioso, não ocorre nos tribunais e nem com prisões. Permite-se que as opiniões –mesmo as que consideramos mais detestáveis– sejam expressas publicamente. Isso obriga que mesmo as opiniões corretas tenham que se munir de argumentos para se sustentar. E essa necessidade está dando um choque bem-vindo ao mainstream, que agora se dá conta de que a intimidação é incapaz de vencer uma proposta equivocada ou mesmo odiosa. Por aqui, a liberdade de expressão é mais precária. O primeiro impulso de muita gente diante de opiniões que julgam ofensivas é proibir, multar ou prender. A cultura é mais de processos do que de argumentos. Ficamos complacentes na certeza de que o Estado está aí para impedir ideias más de se alastrarem. A opinião criminalizada se transforma em mártir e enfraquece nossas melhores defesas.”

Será que é verdade que o racismo brasileiro não é tão agressivo e que nós somos um país que cala a boca de opiniões distintas apenas por diversão? Vamos analisar os seguintes dados: Os números de morte no Brasil são pareáveis com países em guerra. O Mapa da Violência, documento que analisa o número de mortes por arma de fogo no Brasil. Em 2014 foram mais de 44 mil vítimas, o dobro do ocorrido no ano de 1993. Ou seja, em 20 anos a incidência de óbitos por arma de foto aumentou 100%. De acordo com a análise da jornalista Paula Nunes:  
A maioria das vítimas de homicídios por arma de fogo continua sendo formada por homens jovens e negros. Parece clichê, mas a pesquisa demonstrou que a premissa é verdadeira. Nacionalmente, 94,4% das vítimas, em 2014, foram homens. Esse número, se analisado especificamente, variou entre 91% e 96% em cada estado. Ainda, o crescimento do número de mortes na juventude, faixa etária de 15 a 29 anos, foi bem mais violento do que no restante da população. Enquanto no conjunto da sociedade, o crescimento de homicídios por arma de fogo cresceu 592,8% no período compreendido entre 1980 e 2014, dentre os jovens o número subiu para 699,5%.”
Para coletivos e estudiosos negros, já virou parte da rotina falar de genocídio negro. Para pessoas brancas, isso muitas vezes é novidade. Não é verdade que o racismo no Brasil é menos agressivo. O fato de não haver manifestações de pessoas nas ruas com cartazes vexatórios de “Vidas Brancas Importam”, na verdade é um sintoma da perfeição do crime de racismo em nosso país. A farsa da democracia racial e a falsa apreciação à cultura negra – renegada, muitas vezes, a estereótipos de mídia -, fazem parecer que há paz onde não há. Ora, um câncer ou uma depressão não menos perigosos apenas porque não podemos enxergá-los com nossos olhos. Assim como algumas moléstias do corpo e da mente precisam de aparelhos e técnicas específicas para serem detectados, o racismo é um mal social que precisa de estudo para ser compreendido. A historiadora Suzane Jardim comentou em seu blog sobre a raiz do racismo no Brasil, e como muitas vezes o atribuímos, erroneamente, apenas à escravidão – possivelmente um dos maiores e mais mal resolvidos crimes ocorridos em nosso território -, quando existem outros fatores ligados ao pós-abolição que mantiveram as estruturas racistas cada vez mais fortes: “A dinâmica racial brasileira e a marginalização do negro em nossa sociedade é fruto de uma abolição sem conclusão, uma abolição de mentirinha que só serviu para colocar o negro em uma posição à parte da sociedade. Quando a escravidão foi abolida, a grande maioria da população negra do país já era liberta ou havia nascido livre. Estavam todos buscando um modo de serem inseridos na nova sociedade sem escravidão, aquela nova e moderna sociedade aos moldes europeus que o fim da dominação portuguesa e o espírito republicano anunciava. Mas na prática o que aconteceu foi:
  • aplicação de leis de incentivo à imigração com cotas (sim! olha elas aí!) para imigrantes europeus colarem pra ocupar os postos de trabalho
  • politicas de embranquecimento
  • disseminação das teorias cientificas racistas no meio popular e acadêmico (aqui sim, a gente pode tranquilamente falar de racismo sem dó alguma), aquelas onde o negro era inferior ao branco, sua inteligencia era menor, pessoas de traços negros tinham mais propensão ao crime ou que o sangue negro “””estragava””” a raça branca e seria a decadência da sociedade brasileira nessa nova era republicana que surgia
  • criminalização de práticas culturais e da socialização entre negros diversas das praticadas anteriormente*
sobre esse último ponto, dou como exemplos o “Projeto de Repressão da Ociosidade”, o precursor da “Lei da Vadiagem” que foi promulgado em 1888, mesmo ano da abolição (ó a “coincidência”) e que visava reprimir principalmente a ociosidade dos negros libertos (SIM, aqueles mesmos que estavam sem emprego porque as vagas eram ocupadas por imigrantes, sabem?) porque acreditavam que a vagabundagem era a maior causa da criminalidade (o trabalho enobrece o homem e mimimi), então eles encarceravam negros que andavam pela rua porque… porque sim, eles podiam, só por isso… Ou então posso apontar o fato de que de 1889 a 1937, a capoeira era crime previsto pelo Código Penal. Qualquer rodinha de capoeira de leve dava seis meses de cadeia. E exemplos como esse existem tantos…” É confortável achar que o Brasil é um país menos agressivo aos negros apenas por não haver um manifestante da KKK na rua, ou por termos leis que, em tese, coíbem atos preconceituosos. A prática mostra, à despeito da teimosia de colunistas liberais, que a vida de negros brasileiros tá longe de ser a calmaria que se pinta em comerciais brasileiros no exterior.   racismo_mack Legenda: Escrita racista é encontrada em banheiro do Mackenzie em SP (Foto: Reprodução de Redes Sociais)  
Uma excelente maneira de conhecer a realidade do negro e do pobre no Brasil, e entender que esse cenário é tão cruel e pernicioso quando a terrível cena de Charlottesville, é conhecer o trabalho do rapper Eduardo Taddeo, ex-vocalista do Facção Central. Em seu álbum “A Fantástica Fábrica de Cadáveres”, um dos discos mais bem escritos da contemporaneidade, na humilde opinião desta que vos fala, ele traduz em melodia e letras totalmente viscerais o que acontece nos locais onde os olhos da população branca dificilmente chegam. Quer um exemplo? “A Síria se assustaria com 8 carros funerários, saindo do mesmo bairro, no mesmo horário. Em uma semana os protetores dos lords brancos, matam mais que a ditadura em 20 anos. No Hits estamos no challenger magnífico, na real enchemos macas, baús frigoríficos. Com sorte quando a 12 do paiol da PM engasga, formamos a fila do SUS por enxerto e plástica. Minha rima se junta ao clamor de justiça na cartolina, pra ser outro ato de repúdio contra a Era Das Chacinas. O pedido do secretário de segurança é especifico, soldados atenção sem testemunha e feridos. Abatam pelo cabelo, pela roupa, pela cor, só cuidado com a laje com cinegrafista amador. Dá um vazio vê que ainda não fiz o escrito, com poder de evitar os enterros coletivos. Impedir que os antigos vizinhos de rua, depois dos BUM se tornem vizinhos de sepultura.”
O choque que tivemos essa semana pode ser visto como um sintoma de uma sociedade que enxerga os males sociais como espetáculo: acontece aqui, não vejo. Acontece lá, me escandalizo. Mas, mesmo assim, por alguns minutos. Charlottesville foi pauta de oportunidade para muitos jornalistas que citaram o fato como abominável, ignorando as já cotidianas chacinas em favelas e periferias brasileiras. Isto talvez mostre que precisamos aprender mais sobre nosso país do que imagina nossa vã arrogância de (falsa) democracia racial.  
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“Hoje dormi chorando”- a violência de gênero que não é vista a olho nu

“Hoje dormi chorando”- a violência de gênero que não é vista a olho nu
Você já parou para pensar que aquela dorzinha de cabeça que não passa com nada, o coração constantemente acelerado e a sensação de medo sem motivo aparente podem ter um motivo que merece atenção especial? No mês passado eu falei sobre relacionamentos abusivos, e hoje proponho que a gente evolua esse debate para algo mais profundo, mas ainda pouco discutido: a saúde mental da mulher vítima de violência – seja ela física ou psicológica.   Transtorno pós-traumático, ansiedade, depressão, fadiga, dores, falta ou excesso de apetite, bulimia, anorexia, insônia. Eu poderia ficar aqui falando uma lista de possíveis transtornos mentais causados ou potencializados pela violência, mas como eu não sou psiquiatra ou psicóloga, não compete a mim dar diagnósticos. Como feminista, meu esforço é para que as mulheres vejam que não estão sozinhas e saibam a quem recorrer quando as coisas não vão bem. E para que saibam que aquela melancolia crescente e contínua, pode não ser só “uma bad” e merece uma atenção especial.   E ai você pode me falar: “Ok, Gabi, já sei de tudo isso, vejo posts no Facebook todos os dias, já aprendi que depressão não é frescura”. Mas será que nós aprendemos, mesmo? A saúde mental é um tabu. E o que é um tabu, senão um tema ao qual nos fechamos, pautamos valores morais e impomos sentimento de vergonha? Neste cenário, o tema se torna algo que não devemos falar em voz alta. Ter conhecimento sobre a importância deste tema é parte da nossa educação sobre meios de combate à violência contra a mulher. Precisamos ter em mente os impactos da violência em diferentes setores da sociedade, como a saúde pública e a economia.   Porém, mais do que isso, precisamos aprender a cuidar de nós mesmas, para detectar e tratar transtornos da maneira correta e com profissionais aptos a tal. Agressões, sejam elas sutis ou explícitas, são promotores de sofrimento psíquico, e adoecem as mulheres silenciosamente.   Não sou eu que estou falando isso aleatoriamente, viu? A neuropsicóloga Adriana Mozzambani pesquisou sobre a saúde mental de mulheres expostas à violência de gênero, estudando vítimas que procuravam a delegacia da mulher, partindo do princípio que o medo diante de um parceiro violento é um dos empecilhos que mulheres sofrem para quebrar o ciclo da violência. A tensão constante tem efeitos nocivos na psique humana. No caso da violência de gênero, isto pode fazer com que mulheres tenham sua autoestima afetada de modo permanente.   Eu sempre faço um apelo para que as pessoas sejam curiosas e procurem estudar mais sobre saúde mental, de modo que se livrem dos próprios preconceitos e se tornem multiplicadoras de conhecimento, ajudem a si mesmas e quem estiver precisando de apoio. Diferente de um corte ou uma gripe, transtornos mentais são machucados que não enxergamos. Não podemos subestimar ou ter medo de falar sobre tristeza, angústia e apatia. Estes sinais são importantes e jamais devem ser negligenciados. Na dúvida, SEMPRE consulte um especialista da área, faça um acompanhamento, e lembre-se sempre: você não é culpada por se sentir mal.
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365 dias para não normalizar a violência de gênero

365 dias para não normalizar a violência de gênero
Propus para a equipe Insecta que meu texto deste mês falasse de relacionamento abusivo. Propositalmente no mês de junho, da data mais romântica do ano, eu escolhi falar sobre um tema que ainda é negligenciado e tratado de maneira equivocada como “ciúmes” ou “inconformismo pelo fim de um relacionamento”. A data é fofa, mas o papo aqui vai ser sério. Talvez você já deva ter lido esse termo “relacionamento abusivo” por aí. Talvez você já tenha passado por isso ou presenciado alguém nesta situação. Em que momento a gente aprendeu que é normal o amor doer ou que ciúmes são prova de amor? Esse assunto não é dos mais legais, mas é necessário e urgente. A violência contra a mulher pode ter diferentes facetas. Nós temos mais facilidade de enxergar algumas do que outras. Por exemplo, quando lemos uma notícia de um ataque sexual, obviamente damos a isso o nome de VIOLÊNCIA. Mas o que acontece muitas vezes é que há uma tolerância social maior a determinados tipos de violência e a certos perfis de vítimas. Também é mais fácil detectar a violência quando a vítima é outra, e não nós mesmas. A negação é fruto de vergonha e, às vezes, de uma indignação que nos toma de assalto e nos faz perguntar: como eu cheguei até aqui e como eu faço pra sair? Primeiro, vamos compreender quais são as formas de agressão possíveis. // Verbal: quando um homem te xinga, te agride com palavras. É o caso de quando somos chamadas de vadias, por exemplo. // Psicológica: comum em relacionamentos – sejam amorosos, familiares ou de trabalho – é quando um homem te desmoraliza. Pode acontecer com palavra ou atitudes, como fazer comparações com outras mulheres, rondar você de maneira a tentar te intimidar ao impor a presença dele, fazer você sentir culpa ou se achar pouco suficiente para ele de alguma forma. // Patrimonial ou financeira: pode acontecer quando um homem controla o seu dinheiro de alguma forma, seja tendo acesso aos seus dados ou te chantageando de maneira que faça você usar o seu patrimônio em benefício dele. // Física: empurrar, dar tapas, socos, puxar. Este tipo de agressão, apesar de ser um dos mais conhecidos, nem sempre recebe a atenção que precisa. É comum que  a vítima tenha medo de denunciar ou seja desencorajada. // Sexual: forçar relações sexuais contra a vontade da mulher, tentar fazer sexo com a mulher inconsciente, sob o efeito de álcool ou outras substancias, e outras agressões que colocam a mulher como objeto do homem, a quem tem que obedecer sob ameaça física ou psicológica. Entender que estar em uma relação abusiva não é sua culpa e, portanto, não há motivo para vergonha, é o pontapé inicial para uma jornada de autoconhecimento e autocuidado. E acredite, nada disso é exagero. Os números são assustadores: em dez anos, o número de mulheres negras assassinadas subiu 54% devido à deficiência do Estado em garantir às mulheres, principalmente das periferias, onde a maioria da população é negra, o acesso a políticas de proteção contra violência de gênero. Não raramente, também precisamos lidar com nossos próprios preconceitos. Ao tomar conhecimento de casos de violência contra a mulher, é possível ler um sem-número de justificativas, que vão desde a roupa que a vítima usava, até o fato de a vítima não denunciar o agressor, fazendo com que as pessoas erroneamente atribuam isso a um suposto “gosto por apanhar”. Então comecem emanando o mantra: não existe mulher que gosta de apanha. Existe mulher humilhada e com medo demais para denunciar. Então, quando falamos de relacionamento abusivo e de ciclos de violência, precisamos nos munir de conhecimento sobre leis, empatia e muita boa vontade para dar de cara com a realidade. Além de força para buscar ajuda. Amor não é feito pra doer. Se te humilha, te faz sentir culpada, te cerca de todos os lados e te controla, não é amor, é posse.
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Maternidade(s) – pluralismos e diálogos sobre os papéis destinados às mulheres

Maternidade(s) – pluralismos e diálogos sobre os papéis destinados às mulheres
Toda menina cisgênero já ouviu que ser mãe é uma vocação, que gerar um filho te torna “mais mulher” e que a vida não está completa até se dar à luz uma criança. Quando ganhamos bonecas de presente, a intenção é que os cuidados com o brinquedo simulem os cuidados com um bebê, e seja assim um treinamento para a vida adulta e o inevitável destino da maternidade. Mais tarde, já adultas, somos apresentadas ao termo “relógio biológico”, que seria um tipo de dispositivo invisível do corpo das mulheres cisgênero que avisa quando está chegando o momento de ter um filho antes que seja “tarde demais”. O que acontece é que, em meio a tanta regra imposta socialmente, pouco se fala sobre a maternidade compulsória. Ou seja, a obrigatoriedade em abraçar a maternidade. Ao impor a todas as mulheres cisgênero um suposto instinto materno, o mundo real é deixado de lado. E por “mundo real”, podemos compreender alguns cenários, tais como a transgeneridade, a maternidade solo, as mães lésbicas e as mães negras. Repararam que no início do texto eu especifiquei o tempo todo que falava de mulheres cisgênero? Uma pessoa cisgênero é aquela que se identifica com o gênero que lhe foi designado ao nascer. Uma pessoa trans não se identifica com o gênero que lhe foi designado. E assim, a transgeneridade é deixada de lado nos debates sobre maternidade, ignorando que as mulheres trans que são mães possuem especificidades que precisam de atenção. A falta de representatividade dessas mulheres em todos os âmbitos da sociedade acaba por torna-las invisíveis. Outra questão é a maternidade solo. Ou seja, as mães que criam seus filhos sozinhas. Em 2015, o Instituto Data Popular apurou que existem mais de 29 milhões de mães solteiras no Brasil. E, de acordo com o Conselho Nacional de Justiça, em estudo realizado no ano de 2013, mais de 5 milhões de crianças não têm o nome do pai em seu registro. As mães que carregam sozinhas a responsabilidade da criação de um filho acabam sendo isoladas pela sociedade. A maternidade se torna um local solitário. Ainda que a guarda seja compartilhada e o pai passe algum tempo com a criança, ainda é a mãe a pessoa mais responsabilizada pela tarefa. E a maneira como a sociedade trata e exige das mães é um problema de todos nós. Neste aspecto, é importante evidenciar como o constante isolamento e a sensação de culpa podem colocar em risco o bem-estar emocional da mãe. Percebemos, então, um paradoxo: as meninas cisgênero são criadas desde cedo para desempenharem o papel materno. Na idade adulta, a mulher que priorizar sua carreira profissional antes de um casamento e de um planejamento familiar, é vista como negligente à sua própria natureza. No entanto, no momento em que ocorre a gravidez, especialmente se não há apoio do companheiro, esta mulher é deixada às margens, e ela precisa aprender, da noite para o dia, como conciliar todas as tarefas de uma jornada múltipla: cuidados com a criança, com a casa, trabalho e atenção aos demais membros da família. Tudo isso sem poder contar com uma rede de apoio. Mesmo em um relacionamento, uma mulher se vê sozinha em tarefas que são vistas como “obrigação da mulher”. São delimitações às quais chamamos “papéis de gênero”, ou seja, definições pré-estabelecidas sobre o que homens e mulheres devem fazer e como devem agir de acordo com seu gênero. Já repararam naquele discurso sobre pais que ajudam na criação dos filhos? - Fulano é ótimo, ajuda em tudo em casa. - Fulano é um paizão, vai buscar o Joãozinho na escola todos os dias. - Fulano é um ótimo pai, faz papinha e põe pra dormir. Breaking News: Fulano não faz mais que a obrigação. Afinal, um filho não é feito somente pela mãe, certo? A ideia de que um homem estaria oferecendo uma “ajuda” acaba fazendo com que estas ações soem extraordinárias. Quando, na verdade, é uma questão de responsabilidade compartilhada. Já as mães lésbicas enfrentam, todos os dias, a árdua tarefa de lidar com a lesbofobia nada velada em perguntas como “quem é o homem da relação?” e afirmações como “essa criança vai crescer confusa se não tiver um pai”, ou até mesmo agressões mais pesadas sobre relacionamentos homoafetivos. Mais uma vez, a apelação para o que seria “natural” ou não, segundo convenções sociais, é usada para o controle do corpo e da vida da mulher. E no caso das mães negras, que lidam com o racismo, o medo que seus filhos sofram violência policial e a hipersexualização de seus corpos, o problema alcança novos temas. Segundo o estudo Desigualdades sociais e satisfação das mulheres com o atendimento ao parto no Brasil: estudo nacional de base hospitalar, mais de 65% das mulheres que sofrem violência obstétrica no Brasil são negra. O preconceito racial influencia diretamente a maneira como essas mulheres são tratadas na hora do parto. É claro que estes são apenas alguns aspectos dentro do tema “maternidade”. O que demonstra, justamente, que mulher não é uma persona única. Logo, nem todas as mulheres seguirão o mesmo caminho em suas vidas. E a maternidade é um local que muitas vezes envolve complexidades que são jogadas para debaixo do tapete em nome de uma romantização e uma mitificação do que é ser mãe. E a esta altura, talvez vocês estejam pensando: “Pô, mas a Gabriela tá tirando todo o brilho do dia das mães”. Pensemos por este lado: além dos presentes fofos que todos gostamos de dar para nossas mães como demonstração de carinho, nós podemos oferecer, durante o ano todo, compreensão, empatia e apoio.
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Consequências da crise econômica na força de trabalho feminina

Consequências da crise econômica na força de trabalho feminina
Pense nas capas de revistas femininas estampando as sempre notáveis manchetes sobre sexualidade, moda, beleza e trabalho. Um título em letras garrafais explicitando como nós somos donas de nós mesmas hoje. A mulher contemporânea, de acordo com boa parte dessas publicações, usa roupas de cortes masculinos para fugir de estereótipos de fragilidade, porém, sem perder a feminilidade, com seu rosto gracioso mantido a toneladas de procedimentos estéticos e o salto que mantém a postura ereta. Elegância e glamour como apenas detalhes da personalidade de uma forte trabalhadora. A persona “mulher executiva” é a figura utilizada para afirmar que vivemos novos tempos, onde ambientes majoritariamente masculinos abrem-se, ainda que aos poucos, a uma maior diversidade de gênero.  De fato, o número de mulheres CEOs aumentou nos últimos anos, embora representem apenas 23% deste índice no Brasil, segundo reportagem de 2013 do site Valor. Contudo, como abordado pela revista Exame os desafios impostos por uma hierarquia de gênero ainda são uma barreira de difícil transposição. A matéria relembra, por exemplo, a fala do presidente mundial da Microsoft, Sadya Nadella, sobre aumento salarial para mulheres. “Trata-se de ter fé que o sistema lhe dará isso quando chegar a hora”, disse. Deixando claro, assim, que não havia, naquele momento, uma preocupação com políticas de isonomia e equidade para a situação socioeconômica de executivos homens e executivas mulheres. A fala de Nadella gerou uma reação negativa imediata, o que o fez, na mesma tarde, se desculpar com todos os funcionários, e reunir-se com acionistas e diretores para iniciar discussões sobre o aumento da diversidade na empresa. Este e outros exemplos comumente debatidos entre profissionais considerados de alto escalão nos mostram que, embora possamos ver um aumento na participação de mulheres em cargos de decisão, apenas pequenas intervenções não bastam para que possamos, com segurança, afirmar que há igualdade entre estes trabalhadores. Além disso, falar de mulheres no mercado de trabalho vai muito além de observar a modelo com terninho na capa da revista anunciando uma nova era para as executivas.   Nem só de tailleur é feito o mercado de trabalho feminino Campesinas, empregadas domésticas, artesãs, trabalhadoras autônomas, operárias, dentre outras categorias profissionais, não figuram nas capas das grandes publicações impressas sobre trabalho e sucesso por quê? Esta pergunta pode ficar sem resposta enquanto estas categorias trabalhistas forem invisibilizadas nos debates de gênero no mercado de trabalho.
Trabalhadora rural na Bahia. Créditos: Jequié Repórter Trabalhadora rural na Bahia. Créditos: Jequié Repórter
As múltiplas jornadas de trabalho, incluindo cuidados com filhos, com a casa, estudos (quando dá), mobilidade urbana, entre outros pormenores, marginalizam esta população, que prioriza a sobrevivência, fato agravado pela atual recessão econômica. É o lado não glamouroso, algo que não vai vender exemplares de revista e discursos meritocráticos de superação. O trabalho também é um tabu social. Temos hoje um modelo de trajetória ideal, que começa a ser polida desde o início da carreira escolar. Entre todos os pilares sociais, o trabalho é aquele mais intrínseco à vida do indivíduo. Você pode não ter uma família, você pode até não ter “estudos”. Mas, se você não tiver um trabalho dentro de determinados modelos, isto o torna uma párea social. E o desemprego hoje atinge mais de 18% das mulheres. Estaríamos, de fato, emancipadas em um cenário onde a flexibilização do trabalho ganha força ancorada nas aflições geradas por uma crise tão profunda? Há, ainda, as barreiras invisíveis. Ou, em português claro, os preconceitos que tornam um perfil menos “elegível” a um cargo durante um processo seletivo. O historiador e doutor em economia Vitor Schincariol, disse à reportagem do R7: “Esse é um traço histórico. Mulher, jovem e negra é o perfil mais complicado do trabalhador na ativa, seja porque o jovem não tem experiência, seja porque, de uma forma geral, existe um perfil de preconceito contra a mulher, principalmente a negra”. A afirmação de Vitor é facilmente corroborada quando observamos os ambientes de trabalho. Das poucas mulheres em cargos de liderança, quantas são negras? A revista Você S/A traz, este mês, uma reportagem de capa com a única CEO negra do país. Cabe o questionamento, trazido em letras garrafais na publicação: por que ela ainda é exceção?
Anúncio da edição de abril da revista Você S/A com reportagem sobe a única CEO negra do Brasil. Anúncio da edição de abril da revista Você S/A com reportagem sobe a única CEO negra do Brasil.
Apelar para uma possível incapacidade intelectual/acadêmica é infundado. Além do racismo científico já ter ido por terra, levando consigo possíveis teorias sobre a superioridade mental de indivíduos brancos, as atuais políticas afirmativas de inclusão, que ainda precisam ser ampliadas, possibilitaram a inserção de mais negros nas universidades. Oferecendo, assim, profissionais negros tão capacitados quanto brancos.
365-Filmes-Cinema-Brasileiro-Domestica-Gabriel-Mascaro Cena do documentário Doméstica, de Gabriel Mascaro
Além da mulher negra, a mulher com filhos, a mulher pobre e a mulher com deficiência também são exemplos de perfis que sofrem com o preconceito. E são todas essas reflexões, duras, amargas, e cuja solução depende mais do que cinco minutos, que precisam ser feitas quando falamos de mulheres no mercado de trabalho. É preciso relembrar sempre que “mulher” não é um grupo homogêneo. É uma parcela da população. Plural, convivendo em condições desiguais de acesso à educação, saúde e demais direitos fundamentais. Logo, não teremos uma história única para ilustrar a posição das mulheres na economia hoje. Condições postas, é a partir daí que poderemos definir ações múltiplas para cenários múltiplos. Pois uma política única e unilateral horizontal – ou seja, definida de cima para baixo sem a participação popular – não é capaz de abranger todo o contingente de mulheres. A crise econômica pode ter efeitos ainda mais nefastos, como impactos na saúde física e mental e a impossibilidade de dar seguimento na própria carreira por conta da falta de dinheiro. Cada um de nós pode ajudar neste processo estudando qual é o perfil de trabalhador nas nossas profissões, buscando diálogos com conselhos e associações profissionais, e ajudando na criação e ampliação de comitês e grupos de trabalho com foco em gênero e raça nestes órgãos, nas empresas, instituições de ensino, cooperativas e associações comunitárias. A mudança não acontece da noite para o dia e o trabalho árduo pode render algumas frustrações pelo caminho. O principal alimento para nossa coragem de enfrentar tudo isto é a empatia.
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Em uma sociedade onde a opressão é regra, gostar de si mesma é um ato político

Em uma sociedade onde a opressão é regra, gostar de si mesma é um ato político
Hoje, 8 de março, Dia Internacional da Mulher, não vamos fazer textão. Mas queremos te convidar a fazer uma reflexão, que esperamos que perdure por todos os dias do ano. Queremos conversar sobre a importância do amor próprio e como aprender a se gostar é libertador e empoderador. Para ir mais a fundo nesse assunto, conversamos com mulheres incríveis e elas nos contaram como romper com os padrões estéticos impostos pela sociedade as fez mais seguras, realizadas e poderosas.
A Carol é do interior de São Paulo, formada em artes e apaixonada por esse lado mais artsy da vida. Gosta de tatuar, pois esse hobby permite conhecer pessoas e histórias. Outra paixão é a fotografia analógica, porque como ela nos disse, cada foto é uma surpresa e isso é apaixonante. A Carol é do interior de São Paulo, formada em artes e apaixonada por esse lado mais artsy da vida. Gosta de tatuar, pois esse hobby permite conhecer pessoas e histórias. Outra paixão é a fotografia analógica, porque como ela nos disse, cada foto é uma surpresa e isso é apaixonante.
Também falamos com a Camis, que veio do interior do RS e hoje vive em São Paulo, onde é baixista da banda Quarteta - uma banda só de mulheres que aborda com suas músicas temas feministas de forma bem direta, como "Bucetinha My Choice". Também falamos com a Camis, que veio do interior do RS e hoje vive em São Paulo, onde é baixista da banda Quarteta - uma banda só de mulheres que aborda com suas músicas temas feministas de forma bem direta, como "Bucetinha My Choice".
E por falar em feminismo, para a Heloísa, de 22 anos, esse foi um caminho natural na vida. Ela se considera feminista desde os 16, e muitas das suas referências vêm de dentro de casa: foi criada por cinco tias, além da mãe. Ela também nos contou que muito da sua força vem dos cabelos. Aceitá-los e falar sobre eles é uma forma de afirmar a sua identidade e construir a auto estima. E por falar em feminismo, para a Heloísa, de 22 anos, esse foi um caminho natural na vida. Ela se considera feminista desde os 16, e muitas das suas referências vêm de dentro de casa: foi criada por cinco tias, além da mãe. Ela também nos contou que muito da sua força vem dos cabelos. Aceitá-los e falar sobre eles é uma forma de afirmar a sua identidade e construir a auto estima.
Movida por cultura e criatividade, a Gabriela, formada em Estudos da Cultura e Idioma Árabe, nos disse que aprendeu muito com esse povo e tenta levar aspectos da sua pluralidade para o dia a dia. Na sua vida profissional, busca sempre ter empatia, olhar para o outro e compreensão. Movida por cultura e criatividade, a Gabriela, formada em Estudos da Cultura e Idioma Árabe, nos disse que aprendeu muito com esse povo e tenta levar aspectos da sua pluralidade para o dia a dia. Na sua vida profissional, busca sempre ter empatia, olhar para o outro e compreensão.
Outra mulher incrível com quem falamos é a Magô, mulher trans, taurina com ascendente em câncer e militante transfeminista. Ela reservou um tempo para falar conosco enquanto se dedica à sua dissertação de Mestrado em Cultura, Saúde e Educação pela USP e valeu cada minuto.  Outra mulher incrível com quem falamos é a Magô, mulher trans, taurina com ascendente em câncer e militante transfeminista. Ela reservou um tempo para falar conosco enquanto se dedica à sua dissertação de Mestrado em Cultura, Saúde e Educação pela USP e valeu cada minuto.
Foram depoimentos emocionantes e libertadores. O resultado da conversa com essas mulheres você pode conferir agora:

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O Dia Internacional da Mulher não é uma ode à feminilidade

O Dia Internacional da Mulher não é uma ode à feminilidade
Você possivelmente acredita saber a origem do Dia Internacional da Mulher, certo? Mas, a data surgiu a partir de uma sequência histórica, não de um fato único, e estes detalhes nem sempre são expostos. No final do século XIX e começo do século XX, a indústria passou a utilizar mão-de-obra-feminina, contemporaneamente à Segunda Revolução Industrial e a Primeira Guerra Mundial. As condições de trabalho abusivas, com jornadas exaustivas e a falta de direitos civis para mulheres foram o estopim para uma tensão social marcada por manifestações e marchas femininas por mais direitos trabalhistas, direito a voto e pelo fim do trabalho infantil. Muitas dessas manifestações sofreram forte repressão policial, terminando na morte de muitos trabalhadores, em sua maioria mulheres. Em 25 de março de 1911, um grande incêndio, causado por instalações precárias, ocorrido em uma fábrica chamada Triangle Shirywaist, em Nova Iorque, matou 146 pessoas. A maior parte das vítimas era de costureiras. Este caso ficou conhecido erroneamente como a principal origem do Dia das Mulheres, pois a gravidade do fato se incorporou ao imaginário coletivo e passou a ser difundido como a história oficial do Dia Internacional da Mulher. Porém, é importante lembrar que o 8 de março ganhou forma  com movimentações diversas, nos Estados Unidos e na Europa, a partir da reunião de grupos de mulheres socialistas de diferentes partidos e organizações. Ao longo dos anos, o significado deste marco foi sendo apagado e ressignificado como uma data comemorativa que faz alusão à “sensibilidade” feminina. Muitos locais hoje tratam esse dia como uma ocasião para distribuição de flores e bombons, além de promoções de eletrodomésticos e utensílios para a casa, sem dar atenção aos verdadeiros motivos que tornam esse dia uma oportunidade para debatermos pautas sobre diferentes aspectos da situação das mulheres. E se hoje as mulheres já podem votar e já podem contar com os mesmos direitos trabalhistas que homens – em teoria –, seria o 8 de março inútil nos dias atuais? Para fundamentar este debate, é preciso entender que a situação atual das mulheres não é boa como pode parecer quando vemos reportagens na TV afirmando o aumento da participação feminina no mercado de trabalho, por exemplo. Isso porque vivemos em um mundo desigual em muitos níveis, e a equidade de direito entre os gêneros caminha a passos lentos. O documentário  Nascidos nos Bordéis, disponível na Netflix, é um precioso material para analisarmos alguns vieses da situação de vida de mulheres que não representam a imagem da mulher moderna, livre, independente e bem-sucedida profissionalmente, como capas de revistas estampam. O filme mostra o trabalho da fotógrafa e cineasta Zana Briski, que vai para a Índia acompanhar e documentar a vida das prostitutas de uma área muito humilde. Tudo já seria suficientemente pesado e triste, afinal, são mulheres absurdamente pobres, que nunca puderam estudar, e que se prostituem em locais imundos, sofrendo todo tipo de violência física e psicológica possível. Mas, um “pequeno detalhe” deixa tudo ainda mais chocante:  essas mulheres engravidam e as crianças nascem e crescem nos bordéis. A jornalista, que é americana, se torna muito próxima das crianças e encontra uma forma de deixá-las se comunicarem livremente: pela fotografia. Apesar de a iniciativa ser de Zana, o protagonismo do filme é todo das meninas e meninos. born into brothels Zana dá a cada uma das crianças uma câmera fotográfica analógica, ensina os cuidados necessários com o rolo de filme, dicas básicas de enquadramento, luz e dicas pra deixar a criatividade fluir. E é assim que as próprias crianças começam a contar suas histórias por meio da fotografia. O lance ainda se desenrola com a jornalista indo atrás de registros médicos pra matricular as crianças em uma escola e livrá-las do quase inevitável destino da prostituição, mas, obviamente, essa é uma tarefa que precisa de um esforço hercúleo, a começar pelo fato de que nem todos os pais permitem que seus filhos fiquem em escolas. É visível o talento latente que aquelas meninas e meninos têm, e que tudo seria uma questão de oportunidade: uma casa pra morar, comida pra comer, lugar limpo para crescer. Uma das crianças, inclusive, se diz resignada à dor emocional da vida que leva. Diz que é necessário aceitar o sofrimento. Claramente uma fala de uma criança que não faz a menor ideia do que é poder crescer com dignidade, com direito à saúde, direito ao brincar, direito à segurança sobre seu corpo e sua mente. Em Nascidos nos Bordéis nós podemos verificar muitos dos problemas enfrentados pelas mulheres. A exploração sexual, a objetificação de seus corpos, a questão da maternidade, falta de acesso à educação e, consequentemente, ao mercado de trabalho e a impossibilidade de falarem por si mesmas.  Questões enfrentadas em muitas sociedades, sejam elas consideradas menos ou mais “desenvolvidas”, mas reforçadas por problemas socioeconômicos. Entretanto, não precisamos ir tão longe para verificar o abismo social que acomete não apenas, mas, principalmente as mulheres.  Um dos exemplos brasileiros mais debatidos neste sentido é a obra de Carolina de Jesus, escritora negra, cuja obra mais famosa é seu livro Quarto de Despejo, que era seu diário. No ano passado eu falei sobre esse livro aqui no blog da Insecta. O retrato do cotidiano de uma mulher moradora de uma favela, ex-empregada doméstica, catadora de papel, e que chegou a receber comida podre como doação, fez Carolina ser considerada um dos principais nomes da literatura negra nacional. Os escritos são aclamados porque são uma demonstração visceral da pobreza e da situação de mulheres negras da periferia.  E sejamos honestos: certamente Carolinas do Brasil inteiro não são convidadas para posarem para a revista de moda que estampa uma manchete sobre o “poder feminino”. Os demarcadores sociais que afetam as mulheres são vários, e atualmente talvez o mais amargo deles seja o aumento de 230% no número de estupros no estado de São Paulo, além do fatídico número estimado de um estupro a cada 11 minutos.
Créditos: Coletivo Não Me Kahlo Créditos: Coletivo Não Me Kahlo
Será que realmente somos tão “empoderadas” quanto uma publicidade colorida faz parecer? Ou tanto glitter e glamour não está apenas mascarando o cerne do problema?

 

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Lugar de mulher é no palco: 10 iniciativas que colocam elas nos holofotes

Lugar de mulher é no palco: 10 iniciativas que colocam elas nos holofotes
Em Falo, uma das melhores músicas do ano passado, Salma Jô canta: “Não é um gosto pessoal/ Às vezes é o que pede o som/ Eu ainda posso ser a backing vocal/ E posso pagar pau”. Na faixa, a vocalista da Carne Doce ainda afirma: “Meu sexo sempre é um impasse/ É a razão pra me acusar”. É revoltante saber que em 2017, o que Salma Jô canta é a mais pura verdade. O meio musical ainda é um ambiente majoritariamente masculino e machista. A boa notícia é que tem muita mulher lutando por si e por outras pra ter lugar de fala e liberdade artística. Sinal disso é que nós sempre saudamos esses movimentos aqui no blog. Já fizemos post sobre mulheres incríveis da música brasileira, sobre as diretoras que andam contando a história da música nacional no cinema e ainda rolou uma conversa sobre iniciativas que dão visibilidade pras minas da música. Falar de mulher nunca é demais, ainda mais quando elas estão se movimentando pesadamente pra mudar essa realidade. Nesse mês das mulheres, nós vamos te presentear com 10 iniciativas que unem mulheres e música, e que vão fazer você sentir ainda mais orgulho por ser mina:   1_ ZONA LAMM

Se pararmos para pensar que o Brasil, de norte a sul, é diverso demais, imagina só ampliarmos este olhar para a América Latina. São dialetos, ritmos de vida e sistemas culturais diferentes. Ainda assim, sempre é possível encontrar características em comum entre nós, latinos. Foi isso que o Zona LAMM - Laboratório de Artes Musicais para Mulheres - propôs na sua primeira edição, em outubro de 2016.

A residência artística reuniu sete mulheres latino-americanas por três semanas para que pudessem trocar figurinhas sobre estética, ritmos e até mesmo linguagem. Além da residência em si, també rolaram oficinas e rodas de conversas que contaram com a participação do público local. Você pode ver um pouquinho do que aconteceu durante essa iniciativa incrível no canal delas no YouTube.

 

  2_ SONORA Por vergonha ou por falta de espaço, muitas mulheres já engavetaram seus poemas e letras de música. O Sonora: Festival Internacional de Compositoras chegou pra mudar essa realidade. A mostra não competitiva começou de forma despretensiosa, depois que a compositora mineira Deh Mussulini lançou a #mulherescriando e junto com Joana Knobbe, Amorina e Isabella Bretz criaram um festival de compositoras. A ideia se multiplicou rapidamente e hoje já se concretizou em capitais brasileiras como São Paulo, Porto Alegre, Natal e também fora do país em Barcelona e Dublin.

Além das apresentações, o Sonora também propõe debates temáticos e rodas de conversa em torno de temas como educação musical e gênero, acessibilidade às composições de mulheres e representatividade de minas na música. Fica ligado na página delas no Facebook, a sua cidade pode ser a próxima a receber o festival.   3_ QUASE TODO DIA UMA BANDA DE MINA DIFERENTE Pare para pensar: dos seus top 10 artistas preferidos, quantos deles são mulheres? É provável que nem 50% sejam. Acontece que muitas vezes nós gostaríamos de ampliar essa gama, porém a visibilidade das mulheres na música ainda se restringe muito a música pop, principalmente vinda de fora do país. Mas, calma, a Quase Todo Dia Uma Banda de Mina Diferente vai te ajudar. Quase todos os dias, como sugere o nome da página do Facebook, você vai receber na sua timeline uma sugestão de uma banda nacional e independente, que tenha pelo menos uma garota em sua formação. Não perde essa chance, de conhecer MUITA mina massa, e segue a página! E, ah, elas também estão no Twitter e fazem essas mixtapes aqui.

 

4_ VOZES FEMININAS Na mesma vibe da Quase Todo Dia Uma Banda de Mina Diferente, o blog Vozes Femininas pode ampliar - e muito - o número de mulheres nas suas playlists. Criado em janeiro deste ano, o site garimpa bandas femininas - ou com vocais femininos - e as apresenta à você. Além disso, ele funciona como uma fonte ótima de hard news, pois tá sempre por dentro dos lançamentos importantes de mulheres da música nacional e gringa, performances que foram incríveis e ainda clipes femininos que merecem seu play. Ou seja, o Vozes Femininas é um ACHADO pra quem quer estar por dentro do que as gurias andam fazendo Brasil à fora.   5_ CABEÇA TÉDIO Cabeça Tédio é outro blog incrível que dá visibilidade às minas da música. O site foi criado em 2006 e passou por várias fases distintas, mas hoje tem como norte o movimento Riot Grrrl. O blog fala sobre cultura feita por mulheres, seja ela contracultural ou não, seja feita por meio de músicas, zines, documentários ou outras plataformas. tedio   6_ WANWTB As minas que frequentam shows sabem que muitas vezes somos vistas como acessórios das bandas: namoradas, groupies, acompanhantes. Não importa se você é compositora, toca 7 instrumentos ou é apenas fã da banda. Na cabeça de muita gente, as mulheres sempre estão na sombra de um homem. Daí que surgiu o We Are Not With The Band. wantwnb Como diz o nome do projeto, nós não estamos com a banda, nós somos a banda. O projeto multimídia busca ampliar, arquivar, divulgar e empoderar as minas na música através de retratos, entrevistas e vídeos que apoiam quem muitas vezes tem de se esconder na sombra de um mundo que ainda é majoritariamente masculino. Segue ela, fazendo isso você também ajuda a mudar esta realidade.   7_ PWR RECORDS Entre julho e setembro do ano passado, Hannah Carvalho e Letícia Tomás, meninas que tem agitado a cena nordestina, se uniram a Nanda Loureiro, do selo cearense Banana Records, pra fazer uma lista colaborativa on-line que desse conta de mapear as mulheres que trabalham com música independente, desde carreiras solo até bandas. O resultado da pesquisa é esse aqui. pwr records Sim, são mais de 300 grupos femininos Brasil à fora. Mas o que fazer com tanta informação? Com esses números em mãos, as garotas que fizeram a pesquisa chegaram à conclusão que mais importante que dados, era ação e fundaram, em Recife, a PWR Records. O selo hoje não só revela meninas como também dá suporte a todo o ciclo de lançamento e fortalecimento da cena, que precisa de muita força pra ficar de pé. Vida longa ao selo.   8_ SÊLA O Sêla está festival, ainda não é um selo, mas um dia pode vir a ser. O formato de ação do coletivo pouco lhe importa, a ideia principal é criar alianças entre mulheres nos palcos e nos bastidores da música, sejam elas da forma que forem feitas. As fundadoras do Sêla acreditam que só se apoiando, que as mulheres vão ganhar mais projeção. E não é mesmo?

 

O coletivo é feito por mulheres, para mulheres e por mais mulheres: cantando, compondo, produzindo, tocando. O projeto não tem nem um ano e já organizou um festival em São Paulo com 5 dias seguidos de shows. Teve Tássia Reis, As Bahias e a Cozinha Mineira, Sara Não Tem Nome, Tiê e muito mais coisa incrível! O que mais  será que vem por aí? Fica de olho na página delas, pra não perder nada.   9_ WOMEN'S MUSIC EVENT O Women’s Music Event chegou pra ficar. A primeira parte do projeto foi lançada em dezembro do ano passado: um portal de conteúdo, negócios e tecnologia visto por uma perspectiva feminina. A plataforma lança conteúdos exclusivos semanalmente. O site traz playlists, matérias, programas em vídeos e colunas fixas. O WME Sessions, por exemplo, é uma série de vídeos de shows intimistas gravados exclusivamente pro canal. As maravilhosas Tássia Reis e Lay já passaram por lá, dá um olhada. https://www.youtube.com/watch?v=_JjHldtvN4A Mas, pera, não acaba por aí. Neste mês será lançada a segunda parte do projeto: um evento que rola dia 17 e 18 de março, em São Paulo, e vai contar com 11 painéis de debate, 6 workshops e 3 shows. Nomes como Marina Lima, Mahmundi, Karina Buhr, Lay vão participar da edição. Isto sem contar com as minas que estão por trás de super eventos como Lollapalooza, Popload Festival e até mesmo produtoras de bandas incríveis. Se você é de São Paulo, não pode perder. Mais infos sobre o evento aqui.   10_ FESTIVAL NOSOUTRAS O NosOutras é um festival de artistas mulheres, produzido por mulheres. Criado em Porto Alegre, o festival nasceu pra mostrar que o lugar das minas é no palco, nos bastidores, em frente às câmeras ou atrás delas: onde elas quiserem. A primeira edição rola dia 9 de março e vai contar com shows da rapper Negra Jaque, da sambista Nani Medeiros, do bloco “Não Mexe Comigo Que Eu Ando Sozinha” e do grupo As Três Marias. Além dos shows, ainda vão rolar rodas de conversa e um sarau com a presença da criadora do movimento Vamos Juntas, Babi Souza. Mais informações sobre o festival aqui. nosoutras Continue lendo

Cinco marcas brasileiras criadas por mulheres

Cinco marcas brasileiras criadas por mulheres
Já falamos aqui sobre como todo mundo sai ganhando com mais mulheres empreendendo e ocupando posições de destaque. A Insecta é uma marca fundada e gerida por mulheres, e temos muitas parceiras que começaram assim, da mesma forma que nós, e admiramos demais. Já entrando no clima do Dia Internacional da Mulher, queremos mostrar – mais uma vez – que lugar de mulher é aonde ela quiser e comprovar que a moda só ganha quando tem mãos e mentes femininas dispostas a criar e renovar. Separamos cinco marcas brasileiras criadas por mulheres que têm a sustentabilidade como pilar pra você conhecer melhor:   1_COMAS Idealizada pela designer uruguaia Augustina Comas, a marca trabalha com upcycling de uma forma bem especial: transformando camisas masculinas descartadas em peças femininas. Augustina conheceu de perto os grandes volumes de descartes têxteis quando trabalhou com fast-fashion. Ao descobrir que muitas das peças reprovadas pelo controle de qualidade das empresas possuíam defeitos mínimos, mas mesmo assim nunca chegavam às lojas, percebeu a oportunidade. Em 2008 iniciou junto com a colega de faculdade Ana Pires o que se tornaria a Comas, fundada oficialmente em 2014. Desde então, a marca vem crescendo e fechando cada vez mais parcerias, inclusive com a Insecta - no Inspiramais, transformamos punhos de camisas em cabedais de sapatos. 16463194_1227448643997634_8228439398512344651_o   2_LINA DELLIC A marca paulistana é fruto da criatividade de Gabriela Bereta e Mariana Zaguini. O slow fashion, o minimalismo e especialmente valorização e união entre as mulheres são pilares do negócio. As peças da marca são produzidas de forma local e elas procuram sempre unir todas as pontas dos processos, valorizando as origens dos materiais as relações entre quem as produz. Como elas frisam, coincidência ou não, a equipe atual da Lina Dellic é composta inteiramente por mulheres. As fundadoras da dizem também ser atraídas a parcerias com outras empresas também geridas por mãos femininas. A união faz a força! 13557911_2202135733258722_1734440338534019169_n   3_ADA À frente da Ada estão Camila Puccini, bacharel em Design de Moda e pós-graduada em Modelagem do Vestuário e Melina Knolow, estudante de Ciências Sociais. Dessa mistura de referências e vivências surgiu a marca, que tem na sua base três conceitos principais: slow fashion, minimalismo e veganismo. Ao criarem a Ada, as fundadoras desejavam produzir uma moda atemporal, responsável e engajada. Elas mesmas produzem todos os vestidos, que são lançadas em tiragens menores, valorizando a exclusividade. Outro diferencial é que os nomes dos modelos são homenagens a mulheres importantes da história, assim como o próprio nome da marca: Ada Augusta Byron King foi quem criou o primeiro algoritmo processado por uma máquina, que deu origem aos primeiros computadores. 15129581_1419350454749676_7621765334766937937_o   4_FLAVIA ARANHA A marca com sede na Vila Madalena, em São Paulo, foi fundada e é gerida pela estilista desde 2009. Com foco na sustentabilidade e no slow fashion, Flavia trabalha de perto em todo o processo de desenvolvimento das peças. Sua intenção é fomentar uma cadeia produtiva mais justa e humanizada, valorizando as relações entre todas as pessoas envolvidas. Os trabalhos artesanais, as técnicas e conhecimentos tradicionais dos artesãos são valorizados e são diferenciais nas peças, que através dessas histórias nos possibilitam criar conexões afetivas com a roupa. Flavia também está sempre pesquisando e procurando maneiras de produzir de forma mais ética e sustentável, e os tingimentos naturais são uma característica forte da sua marca. Junto com ela, criamos uma collab que resultou em dois Scarabeus e duas Cordulias, lembra? 15032733_1201403749924917_6318726666524689061_n   5_COLIBRII A Colibrii é uma iniciativa criada por duas amigas, Gabriela Ruiz Gonçalves e Marília dos Reis Martins. A ideia surgiu após conhecerem de perto o trabalho de grupos de artesãs e pequenos negócios de regiões periféricas de Porto Alegre. As duas já tinham na bagagem experiência em trabalho com ONGs e projetos sociais, e esse é o enfoque que decidiram dar para a Colibrii. A marca tem como objetivo ajudar mulheres a movimentar a economia nas suas comunidades, atuando como co-criadoras de produtos e coleções feitas a partir de materiais reutilizados de forma criativa. Elas prestam consultoria e funcionam como um canal de comunicação entre as artesãs e o mercado, aumentando o alcance do seu trabalho. E como você já deve saber, a Colibrii é uma parceira do besouro. Junto com elas, produzimos uma linha de mochilas e necessaires que vem com tags assinadas pelas artesãs responsáveis pela sua elaboração. 13308248_1731069427141016_6142155207705326384_o   Por mais mulheres empreendendo e gerando impactos positivos! <3 Continue lendo
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