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Sua praia preferida pode deixar de existir em alguns anos

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Sua praia preferida pode deixar de existir em alguns anos

As consequências da crise climática não são novidade se você acompanha as notícias: incêndios, secas, enchentes, ondas de frio, ondas de calor, chuvas que não dão trégua, pessoas desabrigadas, perdendo tudo e sendo obrigadas a deixar suas cidades… Evidências não faltam para provar que o caos climático é uma emergência ambiental e social.

Em 2021, o mundo acompanhou as catástrofes que aconteceram no Brasil e também fora dele. No Canadá, uma cidade inteira foi destruída por um incêndio florestal. Na Groenlândia, choveu no ponto mais alto pela primeira vez. 

Os incêndios florestais deram o que falar. Atingiram da Sibéria aos Estados Unidos e quebraram recordes de emissões de CO2. Só no Canadá e na Califórnia foram emitidas 83 milhões de toneladas de carbono para a atmosfera.  

Julho de 2021 foi o mês mais seco na Califórnia desde o início da coleta de dados, em 1895. Os três maiores incêndios de 2021, Bootleg, Dixie e Caldor Fires, queimaram cerca de 650 mil hectares no estado. 

No Brasil, tivemos mais de 73 mil focos de incêndio só na Amazônia em 2021. A floresta não aguenta mais e chegou ao ponto de emitir mais carbono do que consegue absorver. Além disso, entramos em 2022 com um rastro de destruição causado por enchentes no sul da Bahia. 

Cientistas dizem que o que aconteceu em 2021 é uma prévia do que está por vir. Mesmo assim, o negacionismo ainda é forte, alimentado por fake news e manipulações da realidade feitas para atender interesses de setores que são grandes responsáveis pela emergência em que estamos. 

Gentrificação climática, migração climática e refugiados do clima

Nos Estados Unidos, a migração para as áreas urbanizadas cresceu assustadoramente nos últimos anos. Os eventos extremos, como secas, incêndios e furacões, são alguns dos principais responsáveis por isso. Hoje, 83% das pessoas vivem nas áreas urbanas.

Essa migração em massa já está causando impactos e sobrecarga nas cidades, como a falta de água e serviços básicos para todos. Phoenix, capital do estado do Arizona, é a cidade que mais cresce no país e já existe uma grande preocupação: quando a estação da seca chegar, vai ter água para todo mundo?

O Banco Mundial publicou um estudo prevendo que 216 milhões de pessoas em seis regiões do mundo poderão ser forçadas a se mudarem de seus países até 2050 para fugirem de eventos climáticos adversos. 

Falta de água, fome, terras cada vez menos produtivas, temperaturas elevadas, eventos extremos e aumento do nível do mar são alguns dos fatores que aumentam os números de refugiados climáticos a cada ano.

As cidades mais seguras e os locais longe das zonas de alagamento vão se tornando cada vez mais caras. A especulação imobiliária garante que os mais ricos tenham acesso a moradias que não serão atingidas (pelo menos não tão cedo) por enchentes, ressaca e avanço do mar sobre as faixas de areia. 

Cidades submersas e perda de território

Em 1900, o nível global do mar estava subindo 0.6 milímetros por ano. Depois de 1930, o número começou a dobrar a cada ano, chegando a 3.1mm por ano por volta de 1990. Desde então, os oceanos cada vez mais quentes aceleraram o derretimento das calotas polares, o que fez o nível subir ainda mais. Atualmente, o aumento é de 6 mm por ano. Em 2020, o nível global chegou ao recorde de 91.3 mm.

Tem gente que acha que milímetro é pouco, mas não se engane: esses números aparentemente ínfimos são suficientes para impactar a vida de muitas pessoas.

As cidades costeiras e as localizadas perto de deltas de rios serão obrigadas a evacuar milhões de pessoas graças à perda de território e de terras para agricultura. Entre as 10 maiores cidades do mundo, 8 ficam localizadas perto da costa do mar, de acordo com o Atlas dos Oceanos das Nações Unidas. 

No Brasil, entre as cidades mais vulneráveis estão o Rio de Janeiro, Santos, Fortaleza, Recife, Salvador e, no Sul do Brasil, o Vale do Itajaí. 

A Climate Central publicou uma pesquisa com três cenários: o pior cenário do aumento de temperatura (até 4°C) pode fazer o mar invadir terras ocupadas por até 15% da população global atual, o equivalente a cerca de um bilhão de pessoas.

No cenário considerado otimista, com aumento da temperatura média global de até 1,5º,  cerca de 100 cidades litorâneas em 39 países seriam afetadas com o aumento do nível do mar. Para isso acontecer a emissão de gases do efeito estufa deveria chegar a zero até 2050. 

O cenário realista simula um aumento de 3ºC e é alarmante. Grande parte do litoral brasileiro seria inundado pelo Atlântico. Parte do litoral paulista, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador, Fortaleza e Recife teriam parte de sua infraestrutura portuária e urbana submersa.  

As praias brasileiras das regiões Sul, Sudeste e Nordeste podem perder até 150 metros de suas orlas, avenidas e prédios com o avanço das águas. As maiores perdas de faixas de praias serão registradas nos estados do Pará, Maranhão, Piauí e Ceará.

Ainda segundo esse estudo, há países que podem perder mais de 60% do seu litoral, como a República Democrática do Congo, Gâmbia, Ilhas Jersey, Suriname, Comores, Guiné-Bissau e Paquistão. A Austrália pode ter 50% do seu litoral engolido pela erosão, ou quase 11,5 mil quilômetros de praias. O Canadá perderia praias em quase 6,5 mil quilômetros do seu litoral.

A corrida já começou

Já chegamos a um ponto sem volta, onde mesmo as previsões mais otimistas contam com mudanças irreversíveis. O que fazer agora? Uma mudança radical no jeito que produzimos e vivemos é urgente, e isso não é apenas responsabilidade dos cidadãos: os governos precisam agir. 

A transição energética é um dos pontos cruciais, mas a indústria dos combustíveis fósseis não está interessada em ajudar. No estado do Texas, a cidade McCamey é conhecida como “capital eólica”, e mesmo assim a população local ainda tem uma matriz energética baseada nos combustíveis fósseis. Nem o governo local incentiva as pessoas a fazerem a transição.

A indústria petroleira cria fake news espalhando que as energias limpas são mais caras, menos confiáveis e que a economia depende do petróleo. Enquanto isso, cada vez mais pessoas vêm sofrendo as consequências da crise climática acelerada por uma sociedade baseada na queima de combustíveis fósseis. 

Quebrar as narrativas existentes e apostar na educação e na conscientização é mais do que necessário. É preciso também fazer as pessoas verem que mudança climática não é só sobre os países longínquos, é aqui, agora, é a vida de cada um de nós. 

Para muitos, a ideia de uma “emergência climática” é algo abstrato, assim como o esvaziamento dos termos relacionados a ela. Os líderes parecem pouco interessados em fazer algo a respeito, mas alguns pequenos passos já foram tomados. Precisamos de lideranças que assumam a responsabilidade. 

Temos pouco tempo para agir, e vale lembrar: 2022 é ano de eleição no Brasil. Pense nisso na hora de votar!

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