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Seria o seu jeans básico um problema? - Parte II

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Seria o seu jeans básico um problema? - Parte II

Lá em 2015 falamos sobre os problemas atrelados à produção do jeans, que é um dos tecidos mais populares do mundo. A cadeia produtiva do denim (tecido usado para fazer o jeans) envolve os setores primário, secundário e terciário, do agrícola ao industrial e comercial.


O Brasil é um dos maiores produtores de denim, com 25 milhões de metros fabricados por mês, ficando atrás de países como Índia, Bangladesh e China. 

Nós amamos um bom jeans e sabemos da força que ele tem como peça versátil e democrática, mas seu processo de fabricação e produção pode esconder vários problemas em cada uma das etapas. Tudo começa na fase do cultivo do algodão, que é a matéria-prima base. 

De acordo com a Textile Exchange, 40% de toda a produção têxtil no mundo todo é algodão. São produzidas todo ano 26.172,678 toneladas de algodão. Em 2020, a Índia foi o maior produtor de algodão do mundo, seguido pela China, Paquistão, Brasil, Estados Unidos e Uzbequistão.


O cultivo do algodão é bastante problemático no mudo todo. Se só no Brasil é responsável por aproximadamente 10% do volume total de pesticidas utilizado no país, mundialmente é responsável pela mesma porcentagem.  


As condições de trabalho são outro problema, com diversos casos de violações de direitos dos trabalhadores, mão de obra infantil e trabalho análogo à escravidão. O uso de transgênicos é ligado a suicídios de pequenos produtores - mais de 300.000 agricultores indianos tiraram suas próprias vidas desde 1995 devido ao alto preço das sementes geneticamente modificadas inundando o mercado. Isso está pressionando os produtores mal pagos, forçando muitos a um ciclo de dívidas incontroláveis.


Muito se fala sobre o uso intensivo de água para a irrigação dos campos de algodão, e um exemplo clássico é o Mar de Aral, no Uzbequistão, que começou a secar nos anos 1960, quando o curso da água dos dois principais rios que abasteciam o mar foi desviado com o objetivo de irrigar novas plantações de algodão.


Aqui no Brasil, felizmente, é um pouco diferente. O cultivo de algodão é feito em sequeiro, sem irrigação artificial, o que diminui drasticamente o consumo de água. Mais de 70% do algodão mundial é irrigado e a média mundial de consumo de água de irrigação é de 10.000 litros de água por kg de fibra. Por aqui, ficamos com cerca de 2.000 litros.

Quando o algodão vira jeans

Você já viu o documentário RiverBlue? Ele mostra o impacto que a indústria do jeans tem em rios e mananciais de água doce pelo mundo. O foco da produção é nas etapas de tingimento e beneficiamento do denim, onde ocorrem grandes gastos de água e, principalmente, uso de produtos químicos e corantes poluentes.

Eles vão a Xiantang, na China, que é considerada uma das capitais mundiais do denim. Lá fica o Pearl River Delta, que o Greenpeace classificou como o rio mais poluído do mundo. Em Dhaka, Bangladesh, os rios e canais estão ganhando uma cor escura, praticamente preta, devido  ao lodo e ao esgoto produzidos pelas fábricas de tingimento e processamento de têxteis.


Isso acontece porque os fios ou tecidos são mergulhados repetidamente em enormes cubas de corante índigo sintético. Após o tingimento, o denim é tratado e lavado com mais produtos químicos para amaciá-lo ou texturizá-lo. Os beneficiamentos como desgastes, desbotes também requerem banhos químicos, que usam ácidos, enzimas, alvejante e formaldeído.


A maneira mais barata das fábricas se livrarem de águas residuais inutilizáveis ​​e carregadas de produtos químicos é despejá-las em rios e lagos próximos. Assim, a cada mudança de temporada, a “cor da moda” tinge os cursos d’água mais próximos, poluindo e acabando com a qualidade da água tanto para a vida aquática quanto para o consumo humano.  


Mas isso não acontece só lá longe. Aqui no Brasil temos o exemplo de Toritama. A produção por lá chega a 18% do jeans consumido no Brasil. Para comportar essa demanda, os trabalhadores fazem jornadas de 14h, se dividindo entre corte, confecção e tingimento em suas próprias casas. Há por lá um alto índice de informalidade, com sérias violações de direitos e exploração.


Se você já viu o documentário “Estou Me Guardando para Quando o Carnaval Chegar” sabe do que estamos falando. O rio Capibaribe é conhecido por ficar tingido com “a cor da moda” por lá também. Em 2005, 70% dos efluentes industriais e sanitários das lavanderias de Toritama eram descartados na rede pluvial. 


Falando na realidade nacional, não podemos deixar de falar sobre o projeto Pegada Hídrica, que foi lançado em 2019 em uma parceria entre a Vicunha Têxtil, o Movimento Ecoera, e a consultoria H₂O Company. Esse estudo possibilitou trazer dados atualizados sobre o consumo de água pela produção de jeans no Brasil, para a indústria entender a nossa realidade.


De acordo com o estudo, uma calça jeans feita no Brasil consome 5.196 litros de água, do plantio ao descarte. O cálculo foi baseado em três indicadores: a Pegada Verde, que é a água da chuva utilizada pelos processos agrícolas; a Pegada Azul, das fontes de água doce que não são devolvidos para as mesmas fontes de captação; e a Pegada Cinza, que é a água necessária para a natureza assimilar o efluente devolvido ao meio ambiente.

Nem tudo está perdido: jeans com menos água e outras inovações


Apesar desse cenário horroroso, a indústria está mudando - não na velocidade que gostaríamos, mas os primeiros passos já foram dados. O Brasil, por exemplo, tem investido em rastreabilidade e certificação para garantir uma produção com menor impacto ambiental de algodão.Somos os maiores produtores mundiais de algodão certificado Better Cotton Initiative (BCI), respondendo por cerca de 30% do volume total de algodão BCI.

Em relação ao jeanswear, não são poucas as marcas nacionais e internacionais que já estão produzindo a partir da reciclagem de peças usadas. Etapas produtivas como beneficiamentos também já contam com tecnologias desenvolvidas para eliminar a necessidade de produtos químicos, como o uso de ozônio e laser.


A Damyller, por exemplo, usa máquinas a laser que clareiam o denim sem precisar de enxágue, promovendo o efeito destroyed em menos de um minuto. Junto com a máquina de ozônio, elas reduzem o uso em 6,6 milhões de litros de água e aproximadamente 10  toneladas de produtos químicos que deixam de ser usados no processo todos os meses.


A linha Dzarm For Better foi lançada com os jeans de menor pegada de carbono da história da marca. Em uma análise desde o plantio do algodão até o ponto de venda, as calças da linha chegaram a gerar 34% a menos de CO2 do que calças tradicionais, com reduções no consumo de água, energia e uso de amaciantes naturais, tendo todos os resíduos gerados reutilizados ou reciclados.


A Lee Jeans desenvolveu o processo de tingimento Crystal Clear, que usa uma versão orgânica do Índigo que faz com que a água seja segura para reutilização. Assim, há menos resíduos e menos água utilizada. O método também usa menos energia.


A Malwee andou chamando atenção com o seu jeans produzido com um copo d’água, iniciativa equivalente a uma redução de 98% de água. O processo fabril economizou mais de 7 milhões e 600 mil litros de água na produção de 127 mil peças. 


A marca investiu em um maquinário de alta tecnologia - no Lab Malwee Jeans os efeitos são produzidos com laser, substituindo grande parte da água e químicos nocivos que são usados em processos convencionais. Clareamentos são feitos com ozônio e amaciantes são aplicados com uma tecnologia de nanobolhas, que ao invés de aplicar o produto com água, o aplica diretamente na peça por meio de uma nuvem de nanopartículas. 


O cânhamo é outra boa alternativa

Uma das “fraquezas” do jeans é a sua alta dependência no algodão. Mas e se a gente descobrisse que tem outra fibra tão boa quanto, mas muito mais resistente e menos impactante para o meio ambiente? Essa fibra existe e é o cânhamo, que já apresentamos aqui no blog.


O cânhamo pode ser considerado uma superfibra ambiental, um dos mais fortes e duráveis ​​de todos os fios naturais. Ele tem uma textura semelhante ao linho, é respirável, muito durável, fica mais macio quanto mais você lava e usa, e é biodegradável no final de seu ciclo de vida.


Segundo a marca Afends, que trabalha com o material, em comparação com o algodão o cânhamo usa 80% menos água, emite 37% menos CO2 e tem uma produção de 250% + fibra por Hectare

A multinacional brasileira Vicunha já lançou tecidos em denim e sarja feitos a partir do cânhamo  – uma jaqueta e uma calça jeans – feitas utilizando 69% algodão e 31% cânhamo. Essa mistura é bem comum entre as marcas que trabalham com essa fibra, e garante uma durabilidade maior, já que o algodão mantém aquela rigidez tradicional do jeans. 

O futuro do jeans pode estar nos brechós

Apesar das boas notícias, precisamos lembrar que mesmo eliminando os produtos químicos perigosos e utilizando fibras mais eficientes, o grande desafio é o consumo exagerado que só vem aumentando. O consumo de vestuário deve aumentar 63%, para 102 milhões de toneladas por ano em 2030, de acordo com o relatório Pulse of the Fashion de 2017.

Isso significa mais roupas produzidas, mais roupas vendidas e, consequentemente, mais roupas descartadas de forma precoce e de maneira inadequada. A solução para isso, conforme o que a gente acredita, está na economia circular.

Estamos falando principalmente sobre o reuso. Tanto o reaproveitamento de peças que não tem mais como ser usadas para fazer novas peças - como por exemplo o Re Jeans da Renner, que utiliza malhas refibradas - quanto o maravilhoso mundo dos brechós.

O jeans é um produto especialmente interessante de ser garimpado em brechós, porque devido a sua alta durabilidade resiste a muitos donos e muitos usos. Você consegue encontrar peças de várias décadas, com modelagens, estilos e acabamentos diferentes de forma abundante (e pagando menos!). 

A nossa dica para quem está procurando um bom jeans pra usar por muitos anos ou quem sabe pela vida inteira, é dar uma chance aos brechós antes de mais nada. Por onde começar? No Brechó da Insecta tem várias pecinhas garimpadas por nós que provavelmente você vai amar.

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