Seria o seu jeans básico um problema?

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Seria o seu jeans básico um problema?
O jeans é, sem dúvidas, o item mais democrático da moda. Do guarda-roupa da princesa da Inglaterra ao nosso guarda-roupa, é uma peça que sobrevive às tendências e faz parte da rotina de milhões de pessoas há mais de 50 décadas. Só em Bangladesh, o segundo maior exportador de peças de moda do mundo, são produzidas um bilhão e meio de calças jeans e calças de algodão por ano. No Brasil, o segmento jeanswear é o que mais cresce no setor do vestuário com uma porcentagem positiva, em número de peças, de 6% ao ano. O grande problema do jeans, no entanto, é que ele é um dos produtos que mais consome recursos naturais até chegar em nossas mãos. Para quem não imagina muito como funciona a confecção de um jeans, vamos explicar rapidamente. Fique comigo, vamos lá. Todos os jeans são compostos de pelo menos 50% algodão. Esse algodão é cultivado, colhido, transformado em fio, depois transformado em uma variedade imensa de tecidos denim que recebem tingimentos e químicos até serem expostos em feiras de moda pelo mundo para chegarem nas mãos dos designers. Uma vez nas mãos dos designers, as peças desejadas são criadas, confeccionadas e encaminhadas para lavanderias industriais que, através de uma série de processos, dão ao seu jeans beneficiamentos diversos, como, por exemplo, aquela cara de jeans velho e usado em uma calça novinha. Com químicos, corantes, resinas, muita água, laser e outras tecnologias, as possibilidades dos chamados beneficiamentos são infinitas, assim como as questões ambientais por trás de toda essa produção em larga escala. IMG_9823 O maior problema do jeans está logo no começo da cadeia: o cultivo do algodão. Hoje, a Índia é um dos maiores exportadores de algodão do mundo, porém é também o país com a maior taxa de suicídio entre agricultores. A cada 30 minutos, 1 fazendeiro de algodão se suicida. O cultivo do algodão é responsável também por lançar ao ar e na terra toneladas de agrotóxico e consumir milhares de litros de água, para ser mais específica, 68% dos aproximados 11 mil litros de água necessários na produção de uma calça jeans é destinado à plantação do  algodão. Por mais que as tecelagens e as lavanderias em países como Brasil, Turquia, Espanha e Itália venham diminuindo seu gasto de água, energia e químicos, e buscando alternativas cada vez mais éticas e ecológicas para os seus processos, o maior e mais agressivo problema, que é a plantação de algodão em si, continua com poucas soluções e alternativas, principalmente quando a demanda é praticamente inesgotável. Sem contar que as leis frouxas nos países que mais produzem jeans no mundo resultam não só em dano humano e ambiental na produção de algodão, como também na poluição de todo o entorno por conta de lavanderias irresponsáveis que jogam a água repleta de produtos químicos e tóxicos sem tratamento direto em rios e no meio ambiente. E pode parecer insano o que eu vou falar agora, e, na verdade realmente é, mas a uma chocante porcentagem de 75% das roupas são jogadas fora e apenas 15% são doadas ou recicladas. Esses 75% representam 10,5 milhões de toneladas de roupas por ano, das quais 90% poderiam ser recicladas – isso só nos EUA. Colocando de uma maneira linear isso significa que nós estamos: permitindo o suicídio de um agricultor de algodão a cada 30 minutos, usando bilhões de litros de água por ano a ponto de secar rios inteiros, dispensando toneladas de agrotóxicos no meio ambiente, sem falar em transporte e embalagem, tudo isso para comprar uma peça que têm grandes chances de acabar no aterro sanitário, contaminando ainda mais o planeta. Faz sentido para você? Mas espera aí porque a parte boa vem agora. Tem muita gente que já entendeu que não dá para as coisas serem assim e que, do jeito que está, não vamos muito longe. Designers criativos e ativistas inquietos estão buscando meios de tentar equilibrar, pelo menos um pouco, essa balança. Um dos exemplos mais lindos no quesito calça jeans é a americana Re/Done, que percebeu que não fazia sentido usar jeans novos, exigindo tanto do meio ambiente e das pessoas, para fazer produtos contemporâneos e com aquela carinha de jeans usado preferido. A marca descosturada peças jeans usadas e as transforma em peças jeans novas. Processed with VSCOcam with f2 preset O processo da Re/Done é bem parecido com o processo da Insecta, mas ao invés de transformarem roupas usadas em sapatos, eles transformam calças jeans usadas em novas calças jeans, compartilhando do mesmo conceito de upcycling.  Do mesmo jeito que a Reformation também faz, lembra que falamos dela por aqui? Outra iniciativa, a RAW For The Oceans, da marca holandesa G-Star Raw em parceria com a empresa do produtor e cantor Pharrel Williams, Bionic Yarn, consiste em uma linha de jeans e outros produtos como camisetas e moletons feita com 30% de plástico retirado dos oceanos transformado em fibra. A RAW For The Oceans já está na segunda edição e é o maior sucesso, inclusive, no Brasil, está à venda na Cartel 011 em São Paulo. Processed with VSCOcam with f2 preset A linha Conscious Denim, apesar de ser da H&M, uma das mais agressivas fast-fashions do mundo, tem em seu cerne uma ideia interessante: recolher peças jeans usadas e transformas em novas peças jeans através de um processo de reciclagem. Várias empresas menores, inclusive tecelagens, vem incorporando esse processo de fibras naturais, como o algodão e o linho, em seus tecidos novos. Da próxima vez que for comprar um par de jeans novo, vale levar tudo isso em consideração e só compre se você tiver certeza absoluta que ele vai ser aproveitado por você ao máximo. Além de não deixar de olhar com muito carinho para produtos que têm em seu conceito toda essa questão de segunda chance e menos impacto.    

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