Quando O Essencialismo Vegan Ajuda E Quando Ele Atrapalha?

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Quando O Essencialismo Vegan Ajuda E Quando Ele Atrapalha?
Nós temos pensando bastante no quanto o essencialismo vegan pode ser positivo e no quanto ele pode ser negativo. Primeiro de tudo, é importante deixar claro que veganismo não é sobre levar uma alimentação vegetariana estrita. Para nos ajudar a explicar de maneira clara e direta o que é uma alimentação e estilo de vida vegano, nós vamos usar a definição da reconhecida instituição Vegan Society: “Veganismo é uma maneira de viver que busca excluir, na medida do possível e praticável, todas as formas de exploração de, e crueldade com, animais para comida, roupas e qualquer outro propósito. Uma coisa que todos nós temos em comum é uma dieta à base de plantas, que evita todos os tipos de ingredientes de origem animal como carne (incluindo peixe, crustáceos e insetos), leite e derivados, ovos e mel – assim como todos os produtos como couro ou produtos testados em animais”. Obviamente, a maioria dos veganos reconhece a impossibilidade de viver um essencialismo vegan, principalmente inseridos dentro da sociedade moderna. A maioria se locomove de carro, ônibus, ou bicicleta – todos com pneus que podem ter ou não ácido esteárico de origem animal. Muitos ainda andam de avião, abastecido com petróleo e essencialmente não vegano (se formos pensar que petróleo é um combustível fóssil gerado por anos de decomposição, incluindo decomposição de corpos de animais). Seria insano sugerir que para uma pessoa ser, de fato, vegan ela precisaria abrir mão dessas coisas e de muitas outras como remédios, todo e qualquer tipo de produto industrializado e da vida em sociedade. É por isso que, como a definição de veganismo pela Vegan Society deixa claro, é viver de maneira livre de crueldade dentro do possível e do praticável. De maneira prática, se isolar da sociedade para viver um essencialismo vegan não seria útil aos próprios animais, que precisam necessariamente de ativistas para garantirem sua libertação. Levantar a questão da impossibilidade de um essencialismo vegan é importante, pois ajuda a manter o movimento focado e consciente do quanto os animais estão submetidos aos seres humanos de maneiras inimagináveis e do quanto precisa ser feito para que eles sejam libertos. Pensar num essencialismo vegan também ajuda a manter marcas que buscam suprir (ou explorar) essa demanda de mercado alinhadas com os princípios do movimento. Ainda pensando em mercado e demanda, o essencialismo vegan é igualmente útil para garantir produtos realmente vegan-friendly (ou “indicados para veganos” ou apenas “veganos”). Por exemplo, se uma empresa aceita que seus produtos sejam testados em animais em determinado país, mesmo que ela produza produtos livres de ingredientes de origem animal, esses produtos não poderão ser considerado veganos. Empresas que querem abraçar, genuinamente ou apenas por questões financeiras, esse mercado, precisam necessariamente estarem atentas às práticas, ao discurso e à produção de seus produtos. Mesmo que as pessoas dentro do movimento possam a vir a discordar sobre quais produtos podem ser realmente considerados aptos para veganos e quais não podem - de um lado uns beiram o essencialismo dizendo que empresas que produzem qualquer tipo de produto não-vegano não pode produzir produtos veganos, enquanto outros acreditam que um produto livre de qualquer ingrediente de origem animal e não testado em animais é mais que suficiente para ser considerado vegano - é muito fácil, para quem está disposto, entender e praticar o princípio do veganismo: a não aceitação de animais como ingredientes, matéria-prima e objetos disponíveis às vontades do ser humano. Entretanto, sugerir ser indiscutivelmente necessário um essencialismo vegan para poder abordar o movimento só dificulta qualquer ação em prol da libertação dos animais. Colocar obstáculos é o primeiro passo para permanecer inerte, na zona de conforto e aceitar a situação como ela é, com o pensamento de ser impossível atingir o estado “ideal” de sociedade. Não surpreendentemente, a exigência de um essencialismo vegan costuma ser trazido à tona por onívoros. Conforme o veganismo cresce, e incomoda mais pessoas, ao mesmo tempo que se mostra financeiramente interessante para muitas marcas, é imprescindível deixar o propósito e a essência do movimento bem cristalina. Porém, é igualmente importante não ser pego na armadilha do essencialismo inalcançável e da genuína perfeição, muitas vezes lançada pelos descrentes, que é capaz de puxar todo o movimento para trás e até mesmo afastar novos adeptos.

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