Plástico biodegradável: futuro do planeta ou puro greenwashing?

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Plástico biodegradável: futuro do planeta ou puro greenwashing?

O plástico biodegradável ou plástico verde é uma promessa e tanto. Basta fazer uma rápida pesquisa na internet para encontrar incontáveis resultados mostrando ofertas para comprar sacolas biodegradáveis de todos os tamanhos e tipos, talheres, pratinhos, canudos e outros utensílios descartáveis - todos com a premissa de serem ecologicamente corretos e se desfazerem em pouco tempo sem deixar poluição pra trás.  

Enquanto isso, aqui no mundo real, mais de 95% do lixo encontrado nas praias brasileiras é plástico. São principalmente garrafas, copos descartáveis, canudos, cotonetes, embalagens de sorvete e redes de pesca, segundo uma pesquisa do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) em parceria com o Instituto Socioambiental dos Plásticos (Plastivida).

Nessa pesquisa foi estimado que 80% desse lixo plástico tenha origem terrestre, ou seja, é resíduo descartado da forma errada que vai parar no mar. Um estudo de 2019 do WWF concluiu que o Brasil gera 11.355.220 milhões de toneladas de lixo plástico por ano, e se a gente for pensar no crescimento dos restaurantes com delivery por conta da pandemia, esse número deve ter aumentado de lá pra cá.

E pra trazer só mais um número assustador, como se a coisa já não estivesse suficientemente complicada, das 6,3 bilhões de toneladas de plástico que foram descartadas desde o início da produção em massa do material na década de 1950, apenas 600 milhões de toneladas foram recicladas. Do que sobrou, 4,9 bilhões de toneladas foram enviadas para aterros sanitários ou descartadas no meio ambiente. 

Os bioplásticos representam menos de 1% dos 359 milhões de toneladas de plásticos fabricados todo ano no mundo, segundo a associação European Bioplastics. Aqui no Brasil não temos números referentes à produção ou à venda de bioplásticos, mas o país é um dos grandes produtores de polímeros de origem renovável do planeta, usando principalmente cana-de-açúcar e etanol. 

Atualmente é estimado que materiais plásticos demoram por volta de 500 anos para se degradar no ambiente. Por todos esses fatores, o plástico verde vem sendo vendido como uma solução para a poluição, e isso não é de hoje. Com o avanço das leis banindo itens descartáveis, as empresas vêm apresentando soluções mágicas para um problema que, infelizmente, ainda não tem solução.

plástico biodegradável


Quem é quem no mundinho do plástico verde?

Vamos começar explicando as diferenças entre o que é plástico, o que é biodegradável e o que é compostável. 

Os produtos plásticos são provenientes das resinas derivadas do petróleo. Quem lembra das aulas de química sabe que eles pertencem ao grupo dos polímeros, que são aquelas moléculas muito grandes, com características especiais e variadas. Resumindo: plástico é, por definição, um material com base de petróleo, uma matéria-prima não renovável. 

Os produtos biodegradáveis são os que têm decomposição rápida comparada aos produtos tradicionais. Tudo que é biodegradável é absorvido de forma rápida pela natureza, sem gerar impactos ambientais. Geralmente, o resultado da decomposição desses produtos é a água, material biológico e o dióxido de carbono (CO2).  

Daí vem os plásticos biodegradáveis, também chamados de bioplásticos, que são um pouco diferentes em vários aspectos. 

Diferente do plástico comum, os bioplásticos são feitos de fontes renováveis e são biodegradáveis. Podem ser feitos de matéria-prima vegetal, têm menor pegada de carbono e baixo impacto no pós consumo, já que se biodegradam em até 6 meses - mas só se forem descartados corretamente. 

Os plásticos biodegradáveis também podem ser feitos de matérias-primas que misturam elementos vegetais com a base de petróleo, e mesmo assim são considerados bioplásticos. 

Os plásticos oxibiodegradáveis são plásticos “tradicionais” que recebem um catalisador para acelerar o processo de oxidação, fazendo o material se desmanchar visivelmente. Estes plásticos podem ser reciclados dando origem a um novo produto e podem ser fabricados a partir de plásticos convencionais reciclados. O plástico oxibiodegradável não atende às normas técnicas nacionais e internacionais de biodegradação, porque produzem microplásticos. 

Já os produtos compostáveis fazem parte do grupo dos produtos biodegradáveis, mas são muito melhores para a natureza, pois se degradam de forma muito mais rápida e ainda geram nutrientes como resultado dessa degradação. Dá pra dizer que a compostagem é a reciclagem do resíduo orgânico, porque algo no fim da sua vida útil se transforma em nutriente. 

Os produtos compostáveis nutrem o solo e são ótimos para o meio ambiente. O tempo de desagregação de um produto compostável pode variar de 2 a 6 meses, gerando um material orgânico que pode ser utilizado como adubo ou fertilizante natural.

O plástico compostável é capaz de sofrer decomposição biológica através de um processo adequado de compostagem. Ele deve se desfazer sem gerar partículas visualmente distinguíveis nem microplásticos, gerando apenas água, dióxido de carbono, compostos inorgânicos e biomassa, sem deixar nenhum resíduo tóxico.

O plástico que é compostável deve estar 90% biodegradado em até 180 dias, e isso só acontece em usinas industriais de compostagem. Esse plástico não vai biodegradar fora deste ambiente específico e artificial e isso é um ponto muito importante - calma que isso a gente vai ver mais pra frente.

Um dos mais conhecidos atualmente é o chamado plástico verde, que você provavelmente já viu em alguma embalagem ou sacola de compras por aí. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), a única diferença do plástico verde e do comum é sua origem: o primeiro vem da cana-de-açúcar e o segundo, do petróleo. 

Diferente do que o nome nos faz acreditar, o plástico verde não é necessariamente feito 100% de matéria-prima renovável. Para ter o selo “I’m Green” (sou verde), precisa ter pelo menos 51% de polímero verde (obtido de fontes renováveis, como etanol, milho, cana de açúcar, etc.) da composição. 

Ou seja, bio-PET, bio-PE, bio-PP e outros plásticos verdes não são biodegradáveis e seu tempo de decomposição é de até 400 anos, exatamente iguais ao de origem fóssil, pois eles possuem plástico comum na sua composição. O diferencial do PE verde é que ele é produzido a partir da cana-de-açúcar, uma matéria-prima renovável. Por esta razão, ele captura e fixa gás carbônico da atmosfera durante a sua produção, colaborando para a redução da emissão dos gases causadores do efeito estufa. 

Ele também é reciclável dentro da mesma cadeia de reciclagem do polietileno tradicional. Ou seja, o produto final é um plástico idêntico ao produzido a partir do petróleo, inclusive no pós uso. Se esse plástico “verde” for descartado de forma incorreta e acabar nos oceanos, por exemplo, terá os mesmos impactos do plástico à base de petróleo, quebrando-se em pequenas partes e gerando os famosos microplásticos. 


Plástico feito de comida?

Apesar de não ser tão ecológico assim, o plástico verde ainda possui menor pegada de carbono por ter boa parte da sua composição feita de fontes renováveis. Só que, por outro lado, isso pode fomentar o uso extensivo de terra para monocultura da cana-de-açúcar e, por consequência, o uso de agrotóxicos, uso excessivo de água para a irrigação e a destinação de áreas produtivas para produção desse plástico ao invés de alimentos.

Uma solução que tem sido explorada pelos pesquisadores é a utilização de resíduos agrícolas como cascas e talos de vegetais para evitar esses problemas. Segundo a FAO (Food and Agriculture Organization), 1,3 bilhões de toneladas de alimentos são perdidos todo ano no mundo. A maior parte desses resíduos é descartada em lixões, ou em alguns raros casos usados na compostagem. Esses resíduos poderiam, antes de mais nada, serem destinados à alimentação na grande maioria, pois são colheitas perfeitamente aptas para isso. Mas e o que sobra ainda poderia ter um fim muito melhor do que virar apenas descarte, né?

A possibilidade de utilização desses resíduos na cadeia produtiva do plástico (e outros biomateriais) tem sido estudada nos últimos anos. Eles seriam voltados justamente para a produção de plásticos biodegradáveis e plásticos verdes. Seria idealmente uma maneira prática de dar uso aos resíduos e ainda colaborar para diminuição dos plásticos feitos de petróleo. 

Mesmo essa solução tem vários poréns, e ela ainda é um sonho relativamente distante. O uso de resíduos agroindustriais para fazer plástico verde está recém na etapa de testes e estudos, mas se for para a frente seria um processo sustentável, no qual os materiais são sintetizados a partir de recursos neutros em carbono.

A ilusão do plástico compostável

Enquanto os pesquisadores estudam essas possibilidades, já tem plástico sendo vendido por aí como totalmente compostável. Isso pode até ser em parte verdade, mas o problema é que há uma imensa falha na comunicação em relação a esse assunto.

A maior parte das alternativas de plástico compostável disponíveis hoje não é feita para se degradar com facilidade em uma composteira doméstica - essa que você tem em casa e coloca as suas cascas de vegetais e resíduos orgânicos. O processo de compostagem desses plásticos ainda pode ser bastante demorado, mesmo se for feito em uma instalação adequada para compostagem industrial, conhecida como usina de compostagem. Lembra que falamos sobre isso lá no começo desse post? Agora vamos explicar melhor. 

Usina de compostagem nada mais é do que uma instalação para realizar compostagem em uma escala industrial. Ela faz a mesma coisa que a composteira doméstica, mas de forma muito mais acelerada e em quantidades muito maiores, claro. Na usina de compostagem os resíduos orgânicos são reciclados através de processos biológicos e físico-químicos e as temperaturas são muito maiores, atingidas de forma artificial.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem aproximadamente 80 usinas de compostagem no Brasil, sendo que grande parte delas está desativada por falta de políticas de coleta, triagem e processamento da matéria orgânica coletada nos municípios. O plástico compostável é feito basicamente para ser compostado em uma dessas instalações. Não adianta colocar junto com as cascas de banana que ele não vai sumir tão cedo. Mas o grande problema é que a forma que esse tipo de material é apresentado faz as pessoas acreditarem que é fácil compostar, ou que mesmo indo para o lixo comum ele vai se degradar sem gerar impactos negativos. 

Resumindo, é uma propaganda enganosa, que configura o famoso greenwashing, onde uma coisa é vendida como se fosse muito mais ecológica do que é. E pra piorar, muitas das  instalações de compostagem industrial em operação hoje nem mesmo aceitam PLA e outros plásticos biodegradáveis por serem considerados riscos de contaminação. Toda a história de um biomaterial que surge para ser a grande solução contra a poluição acaba ficando só no papel, infelizmente. 


No fim das contas, plástico ainda é plástico

O fim da história do plástico verde, do plástico biodegradável, do plástico ecológico ou do plástico compostável é, portanto, o mesmo que a maioria dos plásticos comuns: o aterro ou lixão. Se tiver sorte, o que pode ser reciclado será reciclado, mas sabemos que hoje, no Brasil, o índice de reciclagem dos plásticos pós-consumo é de 24%, em uma estimativa  otimista.

Quando o plástico - qualquer um deles - vai parar no aterro, acontece tudo que não deveria acontecer. Lá não há oxigênio e como resultado a biodegradação é extremamente lenta. Além disso, como está tudo junto e misturado, resíduos orgânicos se decompõem liberando metano, um gás de efeito estufa muito mais perigoso do que o CO2.

Um exemplo disso é o PLA, um dos bioplásticos mais promissores. Ele é compostável, biodegradável, reciclável mecânica e quimicamente, biocompatível e bioabsorvível. Pode ser usado na maioria das embalagens descartáveis, é obtido de fontes renováveis e sua degradação em ambiente correto leva de seis meses a dois anos para acontecer, sem impactos negativos. Perfeito, né?

Porém, esse plástico sensacional é considerado inerte se for parar no aterro. Por conta da falta de oxigênio no ambiente, ele vai sofrer o mesmo longo fim de vida dos outros plásticos, se tornando apenas mais uma parte do problema. 

Em resumo, não há sentido em usar plástico compostável quando não há um sistema de compostagem para recebê-lo. É preciso que as prefeituras e empresas de coleta de lixo tenham estrutura para que essa jornada seja coerente. É preciso também que o consumidor tome consciência do que está comprando e evite ao máximo o greenwashing. É claro que a gente quer uma solução simples para esse problema gigante que é o plástico, mas justamente por ser algo tão impactante, é importante ficar de olho.

Na hora de consumir, podemos fazer um paralelo com as perguntas que nos fazemos em relação às origens dos produtos: aqui, o "quem fez", "onde foi feito" e "de que forma foi feito" pode ser substituído por "compostável onde?" e "de que forma é feita essa compostagem?", ou ainda "biodegradável em quais condições?"


Reduzir e reciclar

No fim de tudo isso, a gente chega na mesma conclusão: quando o assunto é plástico, a melhor saída é reduzir seu uso ao máximo, reutilizar sempre que possível e valorizar a reciclagem. Pensando de acordo com as ideias da Economia Circular, que nós já apresentamos em detalhes aqui, o plástico é um material reciclável, que deve, portanto, ser reciclado e transformado em novos produtos ao invés de ser descartado. 

Se o plástico for compostado, por exemplo, ele perderá todo seu potencial para dar origem a novos produtos, e toda a energia que foi gasta na sua fabricação será perdida. Novos produtos serão feitos utilizando mais energia e extraindo mais matéria virgem sem necessidade. Em outras palavras, quanto maior a vida útil do produto, melhor.

Lembra que lá no começo desse post falamos que 6,3 bilhões de toneladas de plástico já foram descartadas desde a década de 1950 e só 600 milhões de toneladas foram recicladas? Em teoria (e infelizmente somente em teoria), nem era pra estarmos produzindo mais plástico. A humanidade deveria estar focando em recolher tudo isso que sobrou para reciclar e reaproveitar. 

Quando reciclamos ou consumimos plástico reciclado, estamos contribuindo para que o material deixe de ir parar em aterros sanitários ou onde não deve, como na natureza. Além disso, a reciclagem dos plásticos é fonte de renda para milhares de pessoas no Brasil, como trabalhadores de cooperativas de catadores e recicladores.

Quando se fala em criar produtos feitos em plásticos que podem ser compostados, a ideia pode ser boa do ponto de vista da redução dos resíduos, mas é só mais uma maneira de continuar produzindo mais e mais produtos de plástico. Desse jeito, não paramos nunca de usar sacolinhas, canudos, talheres e todo tipo de embalagem que só serve para ser descartada, só que com uma ilusão de que não estamos agravando esse problema. 

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