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Os destaques do relatório Fios da Moda do Modefica

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Os destaques do relatório Fios da Moda do Modefica

Você já leu o relatório Fios da Moda? Ele foi lançado em 2021 pelo Modefica e é uma publicação inédita - é a primeira pesquisa brasileira focada em analisar de forma qualitativa e quantitativa os impactos socioambientais da produção das três fibras mais utilizadas na moda: algodão, poliéster e viscose.

Essa pesquisa foi o primeiro esforço de trazer um panorama nacional sobre a situação destas fibras, além de apontar caminhos para as possibilidades de uma moda circular em solo brasileiro. 

Além de muita informação, a pesquisa trouxe algumas descobertas chocantes, não só sobre as questões dos materiais em si, mas também sobre a situação da moda no Brasil. Separamos aqui alguns dos pontos que mais nos chamaram atenção, mas recomendamos a leitura para você conhecer o trabalho na íntegra!

Falta muita informação e há quem se recuse a ajudar

Uma das principais e mais desconcertantes conclusões do relatório é que o Brasil carece de fontes abertas e disponíveis, tanto de dados comerciais e econômicos, quanto de impactos socioambientais causados pela produção das fibras têxteis. 

Como elas pontuam na pesquisa, é uma enorme escassez de dados, informações e estudos. Fomentar a transparência e rastreabilidade na rede produtiva da moda se faz cada vez mais urgente, envolvendo todos os elos da cadeia. 

A moda nacional é muito fragmentada. São 25,2 mil empresas no setor, sendo 96,8% micro e pequenas empresas, o que dificulta muito a rastreabilidade. A produção brasileira é pulverizada, com vários fornecedores no caminho de um produto, o que resulta numa maior dificuldade para rastrear os impactos socioambientais do processo produtivo.

A viscose, um dos tecidos avaliados, foi outra surpresa impactante. Não se sabe muito sobre a fibra, não há pesquisas, estudos, avaliações de ciclo de vida ou dados sobre a produção de celulose solúvel no país - a matéria-prima da viscose. Há duas empresas no Brasil que produzem a celulose solúvel para a indústria têxtil, mas os dados disponíveis e abertos são insuficientes.

Outra conclusão assustadora é a falta de informação pública e confiável sobre os resíduos gerados pela indústria têxtil. Na elaboração do relatório, elas tentaram contato com associações do setor, pedidos a órgãos públicos através da Lei de Acesso à Informação (Lei n° 12.527/11). 

Resultado: a busca por dados abertos para chegar a número ou porcentagem de peças de roupas e tecidos presentes no resíduo sólido urbano e informações sobre a gestão destes resíduos não foi frutífera. 

Ao questionarem a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) e o Ministério do Meio Ambiente por meio de um pedido de Lei de Acesso à Informação, ambos negaram ter qualquer informação a respeito. 

Isso é um grande problema, porque se não temos controle do que é descartado, o que vai para aterro ou o que é incinerado, como vamos saber de que maneira lidar com estes resíduos? Como medir seus impactos para entender o grau poluente e as emissões de gases do efeito estufa?

Francisco de Andrea Vianna, responsável pelo Planejamento e Operação da Loga, foi um dos entrevistados para levantamento de dados sobre os resíduos têxteis na região do Brás, em São Paulo. Ele afirmou não ter informações a respeito, citando dados de conhecimento geral: na região do Brás, são coletadas 45 toneladas de resíduo têxtil por dia e o algodão varia de 10 a 20 anos para se decompor, tecidos sintéticos entre 100 e 300 anos e poliéster até 400 anos. 

Já a concessionária Ecourbis afirmou não dispor de informações específicas sobre

quantidade do lixo têxtil recolhido nas áreas atendidas na cidade de São Paulo.

Há mais incentivo para jogar no aterro do que reciclar

Frustrante é pouco! 

A reciclagem de têxteis é mais fácil e econômica ao usar resíduos pré-consumo como restos e aparas de produção de etapas como fiação, corte e confecção. Já a reciclagem de resíduos pós-consumo exige maiores recursos financeiros e trabalhistas, além de ser preciso fazer higienização industrial, remoção de aparas e distribuição. Como os produtos não são projetados para serem facilmente reciclados, as misturas de materiais também dificultam o processo. 

Para a coleta de seus resíduos têxteis, os fornecedores pagam de R$ 0,30 a R$ 0,60 por quilo aos catadores especializados. Mas não há cobrança de taxa para destinação desses resíduos em aterro, portanto, é financeiramente mais interessante “jogar no lixo” ao invés de pagar por um gerenciamento adequado de resíduos que facilite a reciclagem.

Atualmente não há incentivos para reciclagem têxtil no Brasil. A comercialização

de resíduos têxteis incorre numa dupla tributação: imposto sobre o vendedor e imposto sobre o comprador. A ausência de quaisquer incentivos federais ou estaduais torna o custo das fibras têxteis recicladas iguais, às vezes até superior, ao custo das matérias-primas virgens.

Apesar da legislação brasileira contar com importantes normas, como a resolução

CONAMA nº 313/02 e a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/10), nenhuma delas abrange a indústria têxtil. A ausência de políticas de gestão de resíduos têxteis dificulta o mapeamento dos verdadeiros impactos socioambientais da indústria têxtil e também proporciona o aumento exponencial das emissões de gases do efeito estufa em aterros sanitários e lixões.

A etapa de uso das roupas tem alto impacto 

Falamos muito sobre os impactos na produção (antes da roupa chegar na loja) e no descarte (quando você não quer mais e se desfaz), mas já parou para pensar no tempo em que essa roupa está em uso? De acordo com a pesquisa, essa é uma etapa crítica em termos de consumo energético.

O maior impacto em relação à pegada de carbono é proveniente do uso, uma vez que lavar, secar e passar gera emissões de gases do efeito estufa dependendo da fonte de energia utilizada. A secagem elétrica e o passar da roupa apresentam maior consumo de eletricidade do que a lavagem na máquina.

Mais especificamente, as roupas de viscose e algodão tendem a amassar mais e precisam ser passadas a ferro. E não podemos também esquecer dos microplásticos liberados pelas peças de poliéster durante a lavagem na máquina!

Moda + agronegócio = problemas sociais

Casos de trabalho análogo à escravidão e más práticas na cadeia têxtil já não são novidade, mas acabamos focando somente no setor da confecção. Dando alguns passos atrás, no plantio das fibras de algodão e celulose, também há problemas sérios. 

O Cerrado, região onde estão 93,6% das fazendas algodoeiras no Brasil, tem sofrido com conflitos territoriais e desmatamento constante há décadas, perdendo 50 mil quilômetros quadrados de vegetação nativa nos últimos 10 anos.

No Mapa de Conflitos da Fundação Oswaldo Cruz são encontrados conflitos com empresas monocultoras de algodão por todo país. Esses conflitos vêm de 1960 a anos mais recentes, como 2013. Os conflitos se concentram na Bahia, Mato Grosso, Minas Gerais e Goiás, atingindo trabalhadores rurais, quilombolas, agricultores familiares, ribeirinhos, comunidades indígenas e até mesmo comunidades urbanas.

Na produção de celulose, a instalação de uma grande empresa em um bairro da zona rural de Almeirim (PA) desencadeou o que é considerado o "maior conflito fundiário da Amazônia". O cultivo da monocultura assoreou e poluiu igarapés da região e destruiu a vegetação nativa, precarizando a condição de vida dos moradores locais, que tiram seus sustentos da agricultura familiar e extrativismo. 

O algodão é uma fibra de alto impacto ambiental

Por ser uma fibra natural, o algodão muitas vezes se passa por “mocinho” na questão ambiental. Só que o que pouca gente sabe é que essa planta possui impactos significativos em todas as categorias analisadas pelo estudo.

As fases de cultivo, tingimento, confecção e uso do algodão são os principais contribuintes para os impactos ambientais, elencando gasto energético, uso de água, químicos e geração de efluentes tóxicos. Em relação aos agrotóxicos, você provavelmente já ouviu falar, né? O algodão é a quarta cultura que mais consome agrotóxicos no Brasil, sendo responsável por aproximadamente 10% do volume total de pesticidas utilizado no país.

O uso da terra não se dá só no plantio: pode ocorrer na floresta para cortar árvores e

produzir energia. O estabelecimento de novos campos de algodão em terras vulneráveis é relacionado ao desmatamento, incluindo terras aráveis que poderiam ser utilizadas para a produção de alimentos.

Quanto à água, aqui no Brasil é um pouco diferente. Sabemos que em outros países o cultivo de algodão é responsável por gastos assustadores de água, mas por aqui a prática predominante é em sequeiro, sem irrigação artificial.

A implementação de uma moda mais circular no Brasil NÃO é impossível!

Segundo o relatório, já há soluções imediatas!

No relatório elas falam sobre uma pesquisa com consumidores que mostrou que 56,8% das pessoas estariam dispostas a reciclar suas peças de roupas se soubessem que de fato seriam recicladas. Isso demonstra que mesmo sem uma cultura de reciclagem têxtil por aqui, as pessoas já estão abertas a isso. 

- Aliás, você já sabe que a gente faz logística reversa por aqui, né?

Com uma reciclagem têxtil bem estabelecida no Brasil, há potencial de geração de empregos relacionados à separação de resíduos de algodão pré-consumo dos fornecedores. Em relação ao poliéster, a geração de empregos está potencialmente relacionada à coleta, classificação, agregação e pré-processamento de garrafas PET.

O que é necessário é o maior desenvolvimento de tecnologia. As empresas de moda deveriam assumir a responsabilidade pelos seus resíduos têxteis e garantir que os retalhos de pré-consumo da própria produção fossem reciclados, além de aplicar práticas de design para circularidade - lembra que explicamos isso no nosso guia sobre a Economia Circular?

Além disso, a educação ambiental deveria ser um ponto importante dentro da estratégia de marketing e publicidade de todas as marcas, pois assim é possível transmitir a palavra do consumo consciente. 

E por que fazer isso? Porque todo mundo tem a ganhar: a produção de poliéster reciclado requer 59% menos energia do que a fibra de poliéster convencional e as emissões de gases do efeito estufa são reduzidas de 25 a 75%, dependendo do tipo de tecnologia empregada.   

Já o algodão agroecológico reduz em até 46% as emissões de GEE, 91% o consumo de água e 62% no consumo de energia. Ao manter este algodão em um ciclo de reciclagem fechado fibra-a-fibra, os impactos ambientais negativos da fase de produção das fibras podem cair ainda mais, pois reduzirão os volumes de cultivo da matéria-prima virgem. 

E agora, para onde vamos?

Essa pesquisa é um pontapé inicial mais do que necessário para que a indústria têxtil nacional, incluindo todos os envolvidos, comece a se mexer para pensar em formas mais verdes de existir. 

A partir dessas conclusões fica clara a necessidade da mobilização social e de políticas públicas eficazes, além de uma mudança de mentalidade por conta de empresas e consumidores. 

Por aqui, estamos sempre trabalhando para melhorar o que pode ser melhorado e trazer novas soluções para problemas que nos incomodam. Fica aqui nosso convite aos consumidores e às outras empresas do setor de moda: bora trabalhar por uma indústria mais verde e circular?

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