Objetificação feminina: o que é, como ela acontece e por que ela afeta nossa sociedade como um todo

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Objetificação feminina: o que é, como ela acontece e por que ela afeta nossa sociedade como um todo
A objetificação feminina (ou objetificação sexual feminina) é um assunto fácil de entender e identificar - seja na mídia, na TV, na publicidade e nos nossos relacionamentos. Mas talvez não tenhamos a dimensão do quanto ela é nociva para nós, mulheres, e para a sociedade como um todo.  Se você nunca pesquisou sobre isso ou deu atenção para esse assunto, muitas informações sobre como a objetificação feminina é capaz de te afetar vão te pegar de surpresa e, ao mesmo tempo, você vai se relacionar com elas.   Do começo, o que significa objetificar? Podemos pensar em objetificação exatamente como o termo nos faz entender: transformar em objeto.  É anular o emocional e o psicológico do ser (humano ou não) retirando-o da sua posição de sujeito, com seus próprios desejos e vontades, transformando-o em um objeto passivo de receber quaisquer ações de outros (por sua vez considerados sujeitos). “A objetificação, termo cunhando no início dos anos 70, consiste em analisar um indivíduo a nível de objeto, sem considerar seu emocional ou psicológico.” <1> É importante entender que a objetificação feminina é gritante e é problemática, e é por isso que estamos falando dela aqui – e quando o termo foi cunhado nos anos 70, ele estava principalmente ligado à objetificação sexual feminina. Mas é igualmente importante ressaltar que vivemos em um cultura de objetificação e que transformar sujeitos em objetos não é nada novo e pode ganhar várias facetas na sociedade moderna - e todas elas precisam ser igualmente consideradas em conversas sobre objetificação. Um dos melhores exemplos cotidianos de objetificação é a transformação de animais não-humanos em pedaços de comida – o indivíduo é retirado da sua posição de sujeito e transformado em objeto. A partir dai o retalhamento de seus corpos é justificada e o que era um ser senciente, ou seja, capaz de pensar e sentir, se torna pedaços de coisas consumíveis. <2> Recentemente, está circulando pela internet imagens de uma babá mulher negra sendo usada como guarda-sol por sua empregadora branca num sol escaldante em uma praia do Rio de Janeiro. Um exemplo literal da transformação do sujeito em objeto acontecendo em público, escancarando os resquícios latentes da escravidão do povo negro e da objetificação colonial <3>. Outro recorte crucial  a ser feito é que a objetificação opera de formas diferentes e mais perversas em se tratando de mulheres negras, pois há sobreposições de opressões: pelo fato de serem negras e mulheres as formas de violência aparecem para elas de maneira ainda mais bruta <4>   E a objetificação feminina e objetificação sexual? A objetificação feminina ou a objetificação sexual feminina está arraigada nessa mesma cultura de objetificação. Ela é escancarada pela mídia, publicidade, nos vídeo games, em filmes e revistas, e no entretenimento no geral. Como a pesquisadora Caroline Heldman explica em seu TEDxYouth@SanDiego, “a objetificação sexual é o processo de representar ou tratar uma pessoa como objeto sexual, um que serve somente para dar prazer sexual ao outro”. Embora essa lógica possa operar em homens, segundo Heldman 96% das imagens de objetificação sexual são de mulheres, o que faz objetificação feminina e objetificação sexual praticamente se igualarem em significado. É bastante simples identificar objetificação feminina e ela está por todos os lados, e talvez por isso nos passe despercebida. Estamos afundadas nela, principalmente por meio dos 5000 anúncios publicitários que vemos diariamente.   Quais as consequências? Da cultura do estupro a menos chances de conseguir um diploma, as consequência da objetificação feminina são muitas.  Elas adentram nossas vidas e nossas relações com nosso(a)s parceiro(a)s e com o mundo. Uma pesquisa publicada no Psicologia da Mulher (http://www.modefica.com.br/os-efeitos-reais-da-objetificacao-feminina), no Jornal Sage, parceiras objetificadas estão mais propensas a serem coagidas e pressionadas sexualmente.

A auto-objetificação também se tornou uma constante na vida das mulheres. Conforme explica Heldman, estamos sempre nos policiando e nos observamos com um olhar de terceira pessoa, o que ela chama de “policiamento do corpo” (e normalmente a cada 30 segundos) - inclusive durante o sexo, o que nos distancia do prazer. O policiamento do corpo também ocupa espaço cognitivo no cérebro, deixando assim menos espaço para outras questões.

Isso sem contar que, conforme destacou um estudo publicado no jornal da Association for Psychological Science, a auto-objetificação resulta em mulheres menos ativas socialmente. Podemos acrescentar distúrbios alimentares, vergonha do corpo, depressão, menor participação política e competição feminina – tudo por conta da auto-objetificação que nada mais é que uma consequência da cultura da objetificação e sexualização feminina.

Agora que você já parou para pensar no assunto, recomendamos muito que você veja o TED de Heldman para saber mais sobre isso, como ela opera, como afeta todos nós e a sociedade, e também como combater essa cultura.

   

  _Notas de rodapé: <1> http://www.politize.com.br/o-que-e-objetificacao-da-mulher/ <2> Carol J. Adams, A Política Sexual da Carne, capítulo 02, 2012, ed. Alaúde. <3>https://www.academia.edu/27818775/Objetificac_a_o_Colonial_dos_Corpos_Negros_ Uma_leitura_descolonial_e_foucaultiana_do_Extermi_nio_Negro_no_Brasil <4> http://www.revistaforum.com.br/questaodegenero/2014/09/04/objetificacao-e-hipersexualizacao-da-mulher-negra/    

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