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O que têm em comum PANCs, autonomia alimentar e Jardim Botânico?

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O que têm em comum PANCs, autonomia alimentar e Jardim Botânico?

Na última Virada Sustentável fizemos uma expedição ao Jardim Botânico de Porto Alegre. As guias foram as biólogas Paula Braga Fagundes e Denise Dalbosco Dellaglio, que foram conversando e trazendo vários assuntos que amamos durante o passeio. Achamos tudo tão interessante que deu vontade de trazer aqui pra quem não estava lá aprender também.

A escolha do Jardim Botânico não foi por acaso. É um dos nossos cenários preferidos pra fotos e abriga a Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul, que tá correndo risco de ser fechada por falta de apoio do governo. Encerrar atividades de fundações como essa mostra uma baita falta de interesse na pesquisa e na produção de conhecimento em relação ao meio ambiente. E isso tem bem a ver com os dois conceitos que as biólogas apresentaram no nosso passeio: autonomia alimentar e soberania alimentar.

De um jeito beeem simplificado, a ideia é valorizar o cultivo de espécies locais por agricultores locais. Se pensar no Brasilzão, parece loucura não aproveitar todo nosso potencial. Quando o assunto é biodiversidade, somos um dos países mais importantes do planeta (isso sempre ouvimos na escola, lembra?). Só que apesar disso a nossa agricultura ainda é muito baseada em espécies que nem são naturais daqui, cultivadas com pesticidas e sementes geneticamente modificadas.

A coisa é tão doida que chega ao ponto de empresas de herbicidas tratarem pitangueiras, goiabeiras, carqueja, cambará e outras plantinhas nativas como ervas daninhas que devem ser eliminadas. Os alimentos que compramos em supermercados viajam milhares de quilômetros enquanto a produção local fica de lado por falta de incentivos.

Como a própria Paula Fagundes nos contou: "pensar em soberania alimentar serve pra refletirmos sobre a diversidade oferecida nos supermercados, que se restringe a poucas e sempre mesmas espécies, enquanto moramos no país com a maior biodiversidade em plantas do planeta". A bióloga trouxe o exemplo da feijoa/goiabeira serrana (Acca selowiana), uma goiabinha da serra gaúcha muito consumida na Nova Zelândia, mas não aqui. A produção local, que além de ser mais saudável, evitar desperdício, gastos com transporte, poluição e valorizar a biodiversidade, ainda valoriza o produtor. Quanto mais regionalizada a produção, mais bem remunerado é o agricultor. É ganha-ganha-ganha.

Aí voltamos ao assunto do Jardim Botânico: trabalhos como o da Fundação Zoobotânica ajudam a cuidar do nosso patrimônio natural. Eles tem projetos de pesquisa e proteção da biodiversidade local, planejamento de conservação de biodiversidade, produção de sementes e mudas, acolhimento e destinação de animais silvestres feridos ou vítimas de tráfico (o CETAS - Centro de Triagem de Animais Silvestres), e, claro, tudo isso ainda oferecendo um espaço lindo cheio de verde 💚  Um dos jeitos de valorizar as plantas nativas e ter mais autonomia é pensar nas PANCS, as plantas alimentícias não convencionais. É bem provável que você já tenha ouvido falar nelas.

O professor Valdely Kinupp (que é um dos grandes nomes quando o assunto é PANC) fez uma pesquisa na região metropolitana de Porto Alegre e encontrou 1.500 espécies nativas, sendo que 311 delas (21%) podem ser consumidas como alimento e gerar renda. Provavelmente muitas delas crescem livremente em quintais, mas vão sendo eliminadas porque ninguém sabe do seu potencial!  

Como a gente adora mostrar o lado otimista aqui, muita gente anda botando a mão no mato (não ia fazer essa piada, mas não deu pra resistir). Tem muitos (muitos!) blogs bacanas e iniciativas falando sobre PANCs, ensinando como cultivar, cozinhar e como valorizar essas plantinhas com tanto potencial. Pra citar alguns: Outra Cozinha, Come-se, Jaca Verde, Crioula, Movimento Other Food e Projeto colaborativo Ka'a-eté, que mapeia PANCs. Concordamos com Glenn Makuta: comer é um ato político.

Tudo que a gente põe no prato tem uma história e é muito bom ter o poder de decidir qual história valorizar. Quando se pensa em meio ambiente, além de tirar a carne do prato, comprar na feirinha orgânica e fechar a torneira, é importante também apoiar políticas que valorizem os produtores locais e a conservação da nossa biodiversidade.

As instituições que trabalham com pesquisa nessa área são cada vez mais necessárias - a bióloga Paula Fagundes contou que as espécies nativas são um foco de estudo muito importante pra contornar a fome que será acentuada pelas mudanças climáticas (que já tão aí). Só assim a gente consegue chegar num patamar de soberania alimentar, aproveitando tudo que temos sem depender (e pagar caro) só das coisas que vem de fora.

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