O que está por trás da morte da Juma, a onça-pintada das Olímpiadas?

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O que está por trás da morte da Juma, a onça-pintada das Olímpiadas?
Nós decidimos usar esse espaço para colocar em perspectiva o assassinato da Juma, a onça pintada exibida durante a abertura dos jogos olímpicos em Manaus, durante essa semana. Acima de tudo, nós acreditamos que o acontecido pode trazer consciência para o tamanho do problema envolvendo o maior felino do continente americano e ampliar o debate para além das Olímpiadas. Entretanto, antes de qualquer coisa, vamos sublinhar o absurdo de usar um animal não-humano acorrentado como objeto de exibicionismo; ato comentando com arrependimento pelo comitê olímpico somente após a morte da Juma, que repetiu a façanha pouco depois com o boto cor-de rosa (outra espécie ameaçada de extinção que já falamos por aqui. Para entender a história toda, e porque Juma estava ali nas mãos dos militares em primeiro lugar, é preciso olhar para o contexto brasileiro responsável por levar a onça-pintada para situação de extrema ameaça de extinção. Em 2014, o Centro Nacional de Pesquisa de Mamíferos e Carnívoros, controlado pelo IBAMA, apontou a existência de apenas 250 onças-pintadas adultas na região, uma diminuição de 80% do número de animais nos últimos 15 anos. Segundo o biólogo Pedro Galetti em entrevista à Folha de São Paulo, o mais preocupante é que apenas 20% desses animais está em idade reprodutiva.   Espécie Ameaçada Pela Agropecuária E Pela Caça A queda drástica da presença do símbolo da biodiversidade brasileira no país está diretamente ligada com o desmatamento da Amazônia, Pantanal e do cerrado para expansão da agropecuária e de pastagens nativas. Desde 2003, quando o Ibama colocou a onça-pintada na lista de espécies ameaçadas de extinção, o problema só se agravou. Enquanto, de um lado, há a paralisia do governo federal, que investe e incentiva a expansão da agropecuária a qualquer custo e não se mexe para proteger a biodiversidade da fauna e da flora brasileira, do outro lado há a caça retaliatória da onça que representa uma ameaça para as comunidades locais e seus rebanhos. A quase extinção do porco queixada e do caitutu, animais que servem como alimentos típicos da onça pintada, comprometem sua sobrevivência fazendo-as atacar o que tem no entorno, como o gado e animais de estimação. No topo desses dois cenários conflituosos, a caça à onça-pintada é vista como um ato de bravura pela cultura local. Juma era uma entre as várias onças em posse do exército de Manaus. Sua mãe foi morta e ela foi ‘adotada’ pelos militares. Quando em cativeiro, as onças são forçadamente domesticadas e não há tentativas de readaptação ao seu habitat natural. Essa moeda, como todas, tem dois lados. Um dos lados condenada os militares por manter os animais em cativeiro e defende a criação de santuários para que os animais possam viver de maneira mais próxima da realidade e relativamente livres. O outro lado defende que os militares já fazem demais por cuidar desses animais, já que não é uma responsabilidade direta deles.   As Propostas De Preservação Circundam O Problema Maior Enquanto lutar contra o maior problema – o desmatamento para expansão da agropecuária - que leva a onça e outros animais à extinção não entra em pauta (afinal, somos considerados o país mais perigoso para ambientalistas no mundo e onde mais de 1.000 ambientalistas foram assassinados nos últimos 10 anos, alternativas que circundam a questão vem sendo debatidas, como o incentivo do turismo e da geração de renda para as comunidades locais ao tornar a onça um ‘atrativo turístico’. Alguns cientistas e protetores defendem que educar a população local e mostrar que a onça vale mais viva do que morta é uma das saídas para o problema. Também existe o debate sobre criação de grandes áreas onde as onças não tenham contato com os seres humanos e possam repovoar o local. Outra alternativa vem sendo diminuir o conflito entre os produtores de gado e a onça. Segundo o WWF, o projeto Onça Pantaneira “busca entender melhor os diferentes fatores envolvidos na predação de animais domésticos e as possíveis formas de minimizar essas ocorrências”. Com os resultados, a ideia é sensibilizar pecuaristas e encontrar caminhos para uma convivência pacífica.   A Ameaça Da Onça É Uma Ameaça À Amazônia Para além da existência da onça, o desequilíbrio causado pela falta dos felinos no ecossistema pode afetar diretamente à floresta. Como estão no ‘topo da cadeia alimentar’, esses animais são considerados importantes reguladores, contribuindo para controlar o tamanho populacional de outras espécies. Os problemas já são sentidos em algumas regiões, como, por exemplo, onde há explosões da população de capivara e de doenças relacionadas a esse aumento populacional, como febre maculosa, que pode afetar humanos. Com todo esse histórico em mente é importante acalmar os ânimos antes de culpar exclusivamente o soldado que apertou o gatilho ou até mesmo o comitê olímpico. Eles são diretamente culpados pela morte da Juma, mas a situação que a levou até ali é mais complexa e envolve todos nós, nossos hábitos e nosso silenciamento perante à devastação ambiental.    

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