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O que as NFTs e o metaverso têm a ver com o efeito estufa?

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O que as NFTs e o metaverso têm a ver com o efeito estufa?

As NFTs, a criptoarte e o metaverso entraram em pauta e não sairão tão cedo. A moda, inclusive, tem se aliado muito a essas novas plataformas para furar a bolha, conquistar públicos diferentes ou mesmo propor soluções mais sustentáveis para o consumo.

Só que um assunto pouco falado dentro desse boom tecnológico é que, apesar do metaverso não existir fisicamente, os seus impactos existem. E eles ficam aqui mesmo, no Planeta Terra. 

Sério que até isso emite carbono? Sério. E vamos explicar como isso acontece.

Afinal, o que é um NFT?

Um NFT é um token (uma chave, um símbolo), associado a um certificado digital que assegura sua propriedade. Só existe um proprietário para cada token. A sigla NFT significa “Non-fungible Token”, ou “símbolo não fungível”. Esse conceito de fungibilidade se refere à deterioração com o tempo. Um item não-fungível é algo exclusivo e que dura “para sempre”.

Os NFTs podem ser qualquer coisa: imagens, vídeos, gifs, informações e por aí vai, desde que sejam registrados no meio digital. Diferente das criptomoedas, que funcionam como dinheiro e podem ser trocadas entre si, os NFTs são únicos e limitados.

Esses tokens são armazenados digitalmente em uma rede Blockchain, que é uma estrutura de rede de dados. Essa rede permite a verificação pública e tem segurança criptográfica, além de assegurar a propriedade do detentor e a originalidade do NFT.

Como um criptoativo polui?

Os NFTs são registros permanentes. A tecnologia usada para mantê-los não é centralizada e exige vários computadores no mundo todo executando protocolos e cálculos. Isso acontece tanto na criação de um NFT, quanto em cada vez que ele é movimentado de uma carteira digital para outra. 

Toda vez que uma obra de arte digital é criada como um token não fungível e sempre que for comprada e revendida, uma quantidade de energia será gasta por esses computadores. 

As redes utilizadas para processar e registrar NFTs são as mesmas de criptomoedas, como a Ethereum. Essa rede consome cerca de 40 TWh (terawatts-hora) por ano, segundo  estimativas de especialistas. 

Cientistas independentes chegaram à conclusão que a criação de um NFT pode produzir mais de 200 quilos de gases poluentes, equivalente a dirigir mais de 800 quilômetros em um veículo a gasolina. Algumas transações de NFTs teriam um gasto energético similar ao consumo de uma família em um país desenvolvido durante dois meses.

Ao descobrir o impacto causado pela criptoarte, o artista Memo Akten resolveu fazer as contas e rastrear a atividade de 18.000 NFTs de vários artistas. Ele considerou não só a criação das artes, mas também os lances que as obras recebem por interessados, as vendas e as revendas no mercado de arte digital, que está super aquecido. 

O resultado dessa experiência originou o site Cryptoart.WTF, uma espécie de calculadora que estimava o impacto ambiental de artes criptografadas. A intenção do site, segundo ele, nunca foi de expor os artistas, mas sim de chamar a atenção das plataformas onde as movimentações aconteciam. Só que justamente o que ele não queria aconteceu: o site teve que ser desligado porque estavam utilizando as informações para perseguir e “cancelar” artistas. 

Esse gasto energético e consequente emissão de gases do efeito estufa acontece pois essas transações usam um conceito chamado de “prova de trabalho”. Nesse sistema, um servidor precisa fazer uma série de cálculos complexos que exigem muito processamento, o que consome muita energia. 

Outro problema é o custo médio de energia nos países onde ficam os principais servidores (e mineradores de criptomoedas), levando em consideração a matriz energética local. Grande parte dos servidores estão localizados em países cuja matriz energética ainda depende de combustíveis fósseis - petróleo, carvão e gás natural, que são as mais poluentes.

E não para por aí. Se a gente for analisar friamente e problematizar todo o processo, vale lembrar do hardware: do gasto com a produção dos equipamentos, passando por sua rápida obsolescência ao lixo eletrônico no fim da linha.

E na moda?

Um assunto desse universo diretamente relacionado com a moda é a rede Blockchain em si. Pela primeira vez, é possível verificar a origem e trajetória de arquivos digitais de forma incorruptível. O Blockchain pode garantir a autoria de criações e uma cadeia totalmente transparente.

O Modefica já tinha, lá em 2017, falado sobre o grande potencial do Blockchain para mudar radicalmente a moda. Elas mostraram como esta é uma ferramenta poderosa para deixar essa indústria mais transparente, minimizar o greenwashing e aproximar os consumidores da história por trás das roupas. 

Dentro do Blockchain, cada movimentação é registrada de forma permanente. Nas cadeias de produção, cada produto tem todas as informações da sua trajetória abertas, compartilhadas e incorruptíveis. Já imaginou que revolução?

Moda e metaverso 

As marcas estão explorando o universo digital e inventando novas maneiras de criar desejo por suas peças. A “escassez digital” é uma dessas maneiras, onde uma peça tem um número limitado de tokens que só existem no metaverso para quem possuir o seu NFT, por exemplo.

Alguns designers de grandes marcas já apostaram no metaverso, como Nicolas Ghesquière, da Louis Vuitton, que assinou uma coleção de skins para o jogo League of Legends. A Balenciaga lançou uma coleção dentro do Fortnite e posteriormente apresentou a coleção de inverno 2021 com um game próprio. A Gucci lançou um tênis digital usando realidade aumentada, o The Virtual 25, que custava entre $9 e $12 dólares.

Muitos falam sobre a onda da moda digital como uma alternativa mais sustentável para reduzir o consumo de materiais e o descarte. Mas a gente fica pensando: será que isso não se torna apenas mais um jeito de “desculpar” o consumismo e perpetuar a cultura de que peças podem ser compradas para serem usadas apenas uma vez (ou, no caso, apenas para uma foto)?

Claro, uma peça de roupa digital elimina grande parte das etapas produtivas da vida real, eliminando também problemas como a exploração da mão de obra, uso de recursos não renováveis, geração de resíduos e o descarte no fim da vida útil. Só que isso tudo precisa ser analisado com cuidado, antes que o metaverso se torne um grande fast-fashion gastador de energia e gerador de gases do efeito estufa. 

A boa notícia é que já há diversas iniciativas para amenizar os impactos desse universo, mas a mais importante está só começando a ser discutida: a mudança radical da matriz energética mundial. Enquanto combustíveis fósseis forem amplamente explorados, haverá mudança climática, mesmo com uma atualização nos modelos usados pela Blockchain e os agentes envolvidos nessas transações. 

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