O Dia Internacional da Mulher não é uma ode à feminilidade

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O Dia Internacional da Mulher não é uma ode à feminilidade
Você possivelmente acredita saber a origem do Dia Internacional da Mulher, certo? Mas, a data surgiu a partir de uma sequência histórica, não de um fato único, e estes detalhes nem sempre são expostos. No final do século XIX e começo do século XX, a indústria passou a utilizar mão-de-obra-feminina, contemporaneamente à Segunda Revolução Industrial e a Primeira Guerra Mundial. As condições de trabalho abusivas, com jornadas exaustivas e a falta de direitos civis para mulheres foram o estopim para uma tensão social marcada por manifestações e marchas femininas por mais direitos trabalhistas, direito a voto e pelo fim do trabalho infantil. Muitas dessas manifestações sofreram forte repressão policial, terminando na morte de muitos trabalhadores, em sua maioria mulheres. Em 25 de março de 1911, um grande incêndio, causado por instalações precárias, ocorrido em uma fábrica chamada Triangle Shirywaist, em Nova Iorque, matou 146 pessoas. A maior parte das vítimas era de costureiras. Este caso ficou conhecido erroneamente como a principal origem do Dia das Mulheres, pois a gravidade do fato se incorporou ao imaginário coletivo e passou a ser difundido como a história oficial do Dia Internacional da Mulher. Porém, é importante lembrar que o 8 de março ganhou forma  com movimentações diversas, nos Estados Unidos e na Europa, a partir da reunião de grupos de mulheres socialistas de diferentes partidos e organizações. Ao longo dos anos, o significado deste marco foi sendo apagado e ressignificado como uma data comemorativa que faz alusão à “sensibilidade” feminina. Muitos locais hoje tratam esse dia como uma ocasião para distribuição de flores e bombons, além de promoções de eletrodomésticos e utensílios para a casa, sem dar atenção aos verdadeiros motivos que tornam esse dia uma oportunidade para debatermos pautas sobre diferentes aspectos da situação das mulheres. E se hoje as mulheres já podem votar e já podem contar com os mesmos direitos trabalhistas que homens – em teoria –, seria o 8 de março inútil nos dias atuais? Para fundamentar este debate, é preciso entender que a situação atual das mulheres não é boa como pode parecer quando vemos reportagens na TV afirmando o aumento da participação feminina no mercado de trabalho, por exemplo. Isso porque vivemos em um mundo desigual em muitos níveis, e a equidade de direito entre os gêneros caminha a passos lentos. O documentário  Nascidos nos Bordéis, disponível na Netflix, é um precioso material para analisarmos alguns vieses da situação de vida de mulheres que não representam a imagem da mulher moderna, livre, independente e bem-sucedida profissionalmente, como capas de revistas estampam. O filme mostra o trabalho da fotógrafa e cineasta Zana Briski, que vai para a Índia acompanhar e documentar a vida das prostitutas de uma área muito humilde. Tudo já seria suficientemente pesado e triste, afinal, são mulheres absurdamente pobres, que nunca puderam estudar, e que se prostituem em locais imundos, sofrendo todo tipo de violência física e psicológica possível. Mas, um “pequeno detalhe” deixa tudo ainda mais chocante:  essas mulheres engravidam e as crianças nascem e crescem nos bordéis. A jornalista, que é americana, se torna muito próxima das crianças e encontra uma forma de deixá-las se comunicarem livremente: pela fotografia. Apesar de a iniciativa ser de Zana, o protagonismo do filme é todo das meninas e meninos. born into brothels Zana dá a cada uma das crianças uma câmera fotográfica analógica, ensina os cuidados necessários com o rolo de filme, dicas básicas de enquadramento, luz e dicas pra deixar a criatividade fluir. E é assim que as próprias crianças começam a contar suas histórias por meio da fotografia. O lance ainda se desenrola com a jornalista indo atrás de registros médicos pra matricular as crianças em uma escola e livrá-las do quase inevitável destino da prostituição, mas, obviamente, essa é uma tarefa que precisa de um esforço hercúleo, a começar pelo fato de que nem todos os pais permitem que seus filhos fiquem em escolas. É visível o talento latente que aquelas meninas e meninos têm, e que tudo seria uma questão de oportunidade: uma casa pra morar, comida pra comer, lugar limpo para crescer. Uma das crianças, inclusive, se diz resignada à dor emocional da vida que leva. Diz que é necessário aceitar o sofrimento. Claramente uma fala de uma criança que não faz a menor ideia do que é poder crescer com dignidade, com direito à saúde, direito ao brincar, direito à segurança sobre seu corpo e sua mente. Em Nascidos nos Bordéis nós podemos verificar muitos dos problemas enfrentados pelas mulheres. A exploração sexual, a objetificação de seus corpos, a questão da maternidade, falta de acesso à educação e, consequentemente, ao mercado de trabalho e a impossibilidade de falarem por si mesmas.  Questões enfrentadas em muitas sociedades, sejam elas consideradas menos ou mais “desenvolvidas”, mas reforçadas por problemas socioeconômicos. Entretanto, não precisamos ir tão longe para verificar o abismo social que acomete não apenas, mas, principalmente as mulheres.  Um dos exemplos brasileiros mais debatidos neste sentido é a obra de Carolina de Jesus, escritora negra, cuja obra mais famosa é seu livro Quarto de Despejo, que era seu diário. No ano passado eu falei sobre esse livro aqui no blog da Insecta. O retrato do cotidiano de uma mulher moradora de uma favela, ex-empregada doméstica, catadora de papel, e que chegou a receber comida podre como doação, fez Carolina ser considerada um dos principais nomes da literatura negra nacional. Os escritos são aclamados porque são uma demonstração visceral da pobreza e da situação de mulheres negras da periferia.  E sejamos honestos: certamente Carolinas do Brasil inteiro não são convidadas para posarem para a revista de moda que estampa uma manchete sobre o “poder feminino”. Os demarcadores sociais que afetam as mulheres são vários, e atualmente talvez o mais amargo deles seja o aumento de 230% no número de estupros no estado de São Paulo, além do fatídico número estimado de um estupro a cada 11 minutos.
Créditos: Coletivo Não Me Kahlo Créditos: Coletivo Não Me Kahlo
Será que realmente somos tão “empoderadas” quanto uma publicidade colorida faz parecer? Ou tanto glitter e glamour não está apenas mascarando o cerne do problema?

 

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