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O açaí que você come pode não ser tão saudável assim

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O açaí que você come pode não ser tão saudável assim

O açaí é o fruto de uma palmeira muito comum na região Amazônica. Ele já fazia parte da alimentação dos brasileiros muito antes de virar modinha – os Povos Originários já o consumiam antes da chegada dos colonizadores, assim como quem vive no Norte do país é acostumado a comer açaí (com farinha e peixe, sem leite ninho e granola, claro).


O hype do açaí começou na década de 90 e só vem crescendo. A fruta conquistou o Brasil, e agora o mundo. Nos últimos 10 anos houve um aumento de quase 15.000 % nas exportações (!!!). Enquanto temos muito a comemorar, já que o Brasil detém cerca de 85% da produção mundial de açaí, temos pontos urgentes de atenção como os impactos negativos nas florestas nativas e o trabalho infantil. 


Devastação florestal


Nem precisa ser de exatas para entender essa conta: o consumo de açaí tem um crescimento absurdo, a demanda aumenta, os produtores precisam cultivar mais para dar conta… O resultado é um aumento nas áreas de plantação, que passou de 77,6 mil para 188 mil hectares em dez anos.


Uma pesquisa publicada recentemente pelo biólogo paraense Madson Freitas abordou justamente o impacto desse crescimento descontrolado na vegetação da região da foz do Rio Amazonas, no Pará, onde acontece grande parte do manejo de açaízeiros.


Entre as conclusões, ele aponta que a derrubada de árvores nativas para expandir o cultivo do açaí resultou na redução da biodiversidade nesse ecossistema amazônico. Árvores-símbolo da região, como a samaúma e o jatobá, estão desaparecendo e dando lugar a campos de monocultura.


Também chama atenção a questão da produtividade das plantações. Na tentativa de aumentar a colheita, mais árvores são plantadas, porém, em áreas onde há monocultivo e quase nenhuma outra espécie, os cachos produzem 30% menos frutos do que em áreas onde há mais diversidade. Manter a biodiversidade é importante até para o cultivo de uma fruta específica!


Existem normativas visando controlar a “açaízação da Amazônia”, como a que foi instituída em 2013 pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente do Pará. Essa norma determina o número máximo de troncos do açaizeiro que pode ser colhido por unidade de área, garantindo uma produção contínua sem prejudicar as florestas de várzea.


Em alguns lugares o manejo sustentável é uma realidade. Uma das iniciativas que apostam nessa alternativa é o Centro de Referência em Manejo de Açaizais Nativos no Marajó (Manejaí), desenvolvido pela Embrapa. Porém, a pesquisa de Madson encontrou outros lugares com números bem diferentes, excedendo bastante os limites estabelecidos. 

Área de plantação de açaí em floresta de várzea no Pará
(Foto: Madson Freitas)

Trabalho precário


Uma questão que não deve ser ignorada é a importância do cultivo do açaí para os ribeirinhos e comunidades locais. Para muita gente, essa planta é a principal fonte de renda, mas seu extrativismo vem atrelado a sérios problemas sociais. 


Em novembro de 2018, uma força-tarefa reunindo agentes do Ministério do Trabalho, Ministério Público do Trabalho, Defensoria Pública da União e Polícia Rodoviária Federal resgatou 18 trabalhadores em condições análogas à escravidão na Ilha do Marajó, que é um ponto de produção de açaí. Só que esse tipo de fiscalização é rara, já que a última havia acontecido em 2011, e na época 7 trabalhadores foram resgatados.


De acordo com os extrativistas, há uma lacuna no que diz respeito à organização comunitária e à infraestrutura. Os produtores sofrem com os intermediários, que rebaixam o preço do açaí em mais de 20%. Em geral, metade do valor das cestas da fruta fica com quem as extrai.


A região Amazônica tem historicamente um problema de precarização do trabalho, herança da colonização e da escravidão. A Amazônia Rural é a campeã brasileira do trabalho precário. Atividades como a pecuária bovina, o garimpo, a extração da madeira nativa e o extrativismo do açaí estão entre os trabalhos mais perigosos do Brasil e é onde são encontrados muitos trabalhadores em situações análogas à escravidão. 


A coleta dos frutos do açaí é feita pelos peconheiros, cuja profissão está entre as mais perigosas do país. Eles não possuem equipamento de proteção algum: sobem nas árvores usando apenas a peconha (um laço usado para ajudar a subir) e um facão enfiado na bermuda. Entre os principais riscos estão as quedas das árvores, o contato com animais peçonhentos, abelhas e danos físicos permanentes como a arqueadura dos pés e pernas, o que pode causar artrose.


Trabalho infantil 


É um trabalho exaustivo, que exige disposição física e de preferência um peso leve para evitar entortar ou quebrar os galhos das árvores. Já deu pra captar? As crianças são especialmente valorizadas nesse tipo de atividade por serem mais leves, menores e ágeis.


De acordo com a reportagem de Leandro Barbosa lançada logo antes da pandemia, a alta demanda por açaí gerou uma necessidade de trabalhadores, e é estimado que entre 200 mil a 500 mil jovens entre dez e dezessete anos subam diariamente nos açaizeiros para fazer a extração da fruta. 


Como era de se imaginar, a participação de crianças e adolescentes na colheita do açaí prejudica o desempenho escolar. Algumas das entrevistadas na reportagem, entre 9 e 14 anos, estão atrasadas na escola e têm dificuldades para ler e escrever. O cansaço, os problemas de saúde, a exposição a situações perigosas e a perda da infância são consequências da urgência de fazer dinheiro para ajudar a família.

https://theintercept.com/2019/12/31/acai-trabalho-infantil-para/

Os pés de Alessandro já são marcados pela peconha.

Foto: Alessandro Falco

Tem como melhorar este cenário?


De acordo com a reportagem do Intercept, a invisibilidade é um dos grandes problemas para lidar com o trabalho infantil e precário na cadeia do açaí. Muitos peconheiros não têm nem certidão de nascimento. São pessoas invisíveis, mas que arriscam a vida diariamente para garantir a demanda de açaí no mundo todo. 


Infelizmente, sabemos que resolver definitivamente esse contexto que já faz parte da história da região não é simples, nem rápido. Mas voltamos a bater na mesma tecla: quando você for consumir qualquer coisa, incluindo o seu açaí, não deixe de se perguntar: Quem fez? De que maneira? Em quais condições?


E não esqueça, também, que as políticas públicas deveriam ter esse tipo de problema social na mira. É ano de eleição. O que os seus candidatos ou candidatas pretendem fazer a respeito?

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