Seu Carrinho
Fechar alternativas ícone
Frete Ok

Neguinha metida: uma conversa sobre por que subestimam mulheres negras

Seta Fina Esquerda ícone Seta Fina Direita ícone
Neguinha metida: uma conversa sobre por que subestimam mulheres negras

Desde cedo a mãe da gente fala assim: 'filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor.' Aí passado alguns anos eu pensei: Como fazer duas vezes melhor, se você tá pelo menos cem vezes atrasado pela escravidão, pela história, pelo preconceito, pelos traumas, pelas psicoses... por tudo que aconteceu? duas vezes melhor como ? Ou melhora ou ser o melhor ou o pior de uma vez. E sempre foi assim. Você vai escolher o que tiver mais perto de você, O que tiver dentro da sua realidade. Você vai ser duas vezes melhor como? Quem inventou isso aí? Quem foi o pilantra que inventou isso aí ? Acorda pra vida rapaz"

Eu começo o texto desse mês com esse trecho da música “A vida é um desafio”, dos Racionais MC’s pra falar de auto percepção, a forma como você se enxerga no mundo de acordo com o que o mundo te oferece. A autoestima da mulher negra é tolhida desde muito cedo. Embora os debates feministas tenham trazido à luz nomes como Conceição Evaristo, Carolina de Jesus, e outras autoras que retratam como o racismo coloca a negritude como uma falha, muito ainda falta para compreendermos os efeitos nocivos do racismo na vida das nossas crianças.

Resolvi falar sobre meninas, especificamente, neste post, para falar também da construção dos conceitos de feminilidade. Quando falamos a respeito, temos em mente que toda menina, de certa forma, é preparada para “ser mulher”, por meio de imposições – umas sutis e outras, nem tanto. A boneca que aprendemos a embalar e que os meninos nem podem chegar perto, o fogãozinho, as roupas e o comportamento esperado são os primeiros sinais da distinção de gênero na infância.

No caso das meninas negras, tudo isso tem o adicional de raça. E quando digo isso, por favor, não entendam como eu querendo colocar opressões em uma hierarquia. O que acontece é um mero recorte racial, necessário quando vamos entender a multiplicidade da sociedade. As mulheres negras crescem com esse mesmo estigma da feminilidade adicionado ao caos de uma sociedade estruturalmente racista que não acredita em suas competências.

Uma mulher negra precisa provar que é boa profissional, que é inteligente, que é capaz, mil vezes mais. E esta é uma pauta feminista porque estamos falando diretamente de empregabilidade, renda, autoestima e saúde mental. Em outras palavras: qualidade de vida. Quando falamos que o feminismo precisa ser inclusivo, o que se quer dizer é que, se há uma sociedade desigual, precisamos olhar para essas desigualdades, e não agir às cegas com o pressuposto de não enxergar essas diferenças. Ou seja, a ação precisa ser proativa.

Mulheres negras são subestimadas em todos os campos da vida porque, historicamente, sempre fomos colocadas como inferiores. Ferramentas como a comunicação de massa (jornais, novelas, cinema, rádio, etc) ajudou a fomentar essa cultura, que está tão sedimentada que passa despercebida – já ouviu falar do teste do pescoço?

Quando essa figura, sempre menosprezada pela sociedade, ousa agir de acordo com o valor que ela sabe que ela tem, ela faz emergir na sociedade racista um profundo desprezo. A “neguinha metida” é aquela mulher que precisa provar incontáveis vezes o que sabe fazer, suas capacidades e conhecimento. E quando eu falo isso, gosto sempre de lembrar que não estou colocando “culpa” em alguém. Culpa é um sentimento cristão maniqueísta.

Mas peço, sim, responsabilidade coletiva para compreender que estamos em uma sociedade onde há um abismo racial, ainda que se queira jogar tudo para debaixo da farsa da democracia racial. Sempre que começo uma palestra, inicio minha fala contando tudo sobre a minha vida profissional. Em seguida, explico o motivo disso: em praticamente todos os ambientes eu sinto que preciso provar o que eu sei para ser minimamente respeitada. Porque, de cara, ninguém imagina que uma mulher negra possa ser graduada em comunicação, especializada em sociopsicologia e estude o idioma árabe.

Será que essa dúvida também recairia sobre mim se eu fosse branca? Será que isso faz de mim uma neguinha metida? E você: já parou para pensar se não está subestimando a mulher negra ao seu lado?

Comentários sobre esta postagem (1)

  • Nov 29, 2019

    O ser HUMANO é miscigenado, tudo que há de bom, há nele e tudo que há de ruim, também há nele…toda transformação que há nesse mundo se deriva do animal chamado homem…todos questionamentos das relações sociais, é intrínseco ao ser humano…nunca irá mudar, pode até se apurar, ou transformar-se, quem alinha o homem são as regras de alinhamento…

    — ANTONIO JORGE DANTAS

Deixe um comentário

x