Fechar ícone

Não existe fast fashion sustentável

Seta Fina Esquerda ícone Seta Fina Direita ícone
Não existe fast fashion sustentável

A moda está caminhando para uma direção mais ética e consciente, e isso é puxado pelos consumidores. Enquanto muitas novas marcas já nascem com a sustentabilidade no seu DNA, as empresas bem estabelecidas no mercado perceberam que é hora de se mexer para se enquadrar nesses novos tempos, mas muitas ainda tropeçam no greenwashing pelo caminho.

Um bom exemplo das pressões que as marcas de moda estão sofrendo para se tornarem menos danosas ao planeta é o Fashion Pact, assinado em 2019 por mais de 30 empresas de moda e luxo, representando 150 marcas que pretendem limitar o impacto do setor no clima, biodiversidade e oceanos através de metas estabelecidas para 2030 e 2050. Entre os grandes nomes estão o grupo Kering e marcas como Burberry, Chanel, Armani, Prada, Stella McCartney e os gigantes do varejo H&M, Gap e Inditex (dono da Zara).  

Com todos esses compromissos firmados, a pergunta que fica no ar é: o que vai acontecer com as marcas de fast fashion? Elas são grandes responsáveis por impulsionar o consumismo e incentivar compras desnecessárias, renovando as coleções a cada 2 semanas e fazendo peças de baixa qualidade. 

Nos últimos anos, fast fashion acabou virando palavrão e as gigantes varejistas estão correndo atrás de soluções para pelo menos parecerem mais éticas e conscientes diante dos consumidores - mas claro, sem precisar fazer grandes mudanças estruturais. 


Coleções sustentáveis que não são tão sustentáveis

O olhar do fast fashion tem sido sobre o uso de materiais considerados menos poluentes e mais responsáveis, como fibras recicladas. O algodão aparece em muitas coleções definido como “responsável” ou “ecológico”, mas quase nunca orgânico e trazendo as devidas certificações.

Segundo o relatório Fios da Moda, no Brasil, o algodão é a quarta cultura que mais consome agrotóxicos, responsável por aproximadamente 10% do volume total de pesticidas utilizados em território nacional. A etapa de produção de matéria-prima é o principal ponto crítico no impacto à biodiversidade e ocupação do solo pelo cultivo de algodão, sendo responsável por 99% do impacto total. Ou seja, não basta ser algodão, o ideal é que seja orgânico ou reciclado.

As gigantes do fast fashion não produzem suas peças “em casa”, ou seja, suas fábricas e fornecedores são todos terceirizados. E isso é um problema, porque em torno de 80% das emissões de gases de efeito estufa da indústria da moda estão concentradas na etapa de produção, que acontece para muitas empresas em países em desenvolvimento onde a mão de obra é barata. 

Essas emissões nunca são levadas em conta ao comunicar coleções “sustentáveis”, ou as marcas preferem falar dos impactos gerados nas lojas ou nos escritórios centrais, sempre ignorando a etapa mais poluente.


Definições vagas


Tem marca por aí que garantiu que até 2030 vai reduzir a sua pegada ecológica trabalhando apenas com materiais responsáveis. Legal, mas o que isso significa na prática? Que materiais são esses, e por que são responsáveis?

É muito comum ver termos como “fontes sustentáveis” ou “algodão sustentável”, mas isso são termos vagos e sem nenhum valor real. Hoje existem várias certificações que ajudam a comprovar a origem de uma matéria-prima, então por que não usar? O que não pode ser medido ou certificado não pode ser garantido. Algodão “cultivado de maneira responsável” não é o mesmo que orgânico, mas às vezes querem que a gente pense que é.

Outro problema está na comunicação do quão sustentáveis são as peças de roupas. Ao analisar com cuidado, muitas peças 100% recicladas não são exatamente o que parecem. Conferindo a etiqueta de composição, descobrimos que o forro é de outro material (quase sempre poliéster virgem). Ou seja, a porcentagem de reciclagem não se refere à peça completa.

Ainda há a polêmica dos selos: é muito comum as marcas abusarem de detalhes que trazem a estética ecológica, como tags em papel pardo, papel reciclado, amarrações em corda natural, entre outros. E aí, nesses tags, há selos ecológicos que se referem apenas ao papel utilizado nas tags, e não às peças de roupa. Você vê um selo de sustentabilidade na roupa e pensa que é de fato da roupa, mas é só sobre o papelzinho que vem pendurado nela.


Transparência é o caminho

Como a gente não cansa de dizer por aqui, transparência é o melhor caminho para a sustentabilidade. Ninguém consegue ser 100% ecológico, e sustentabilidade é uma jornada que pode (e deve) ser compartilhada com os consumidores. 

Não adianta uma peça ser feita em tecidos de boa procedência se não houver transparência e ética na cadeia produtiva. Sustentabilidade também é sobre as pessoas que fazem os produtos! 

O Fashion Revolution faz um trabalho incrível de medir os níveis de transparência das marcas, e divulgando isso ao consumidor como uma forma de empoderar quem tem decisão de compra e ao mesmo tempo puxar a orelha de quem precisa se responsabilizar.


Não é fácil ser sustentável 

Falamos com conhecimento de causa que não é fácil ser uma marca sustentável. São muitos detalhes para observar, e algumas soluções ainda não existem. Somos transparentes e reconhecemos nossas limitações enquanto trabalhamos para melhorar, e fica muito claro que quando alguém faz tudo isso parecer simples… tem coisa errada.

Uma peça de roupa ou calçado pode ser feita de vários materiais. Uma calça jeans, por exemplo, pode ter sido confeccionada com algodão orgânico e responsável, mas se receber um tingimento comum com corantes tóxicos e que poluem os arredores com efluentes, deixa de ser uma roupa mais sustentável. Dependendo da complexidade da peça é cada vez mais difícil ter um produto com baixo impacto, justamente pela disponibilidade de materiais e processos. 

 

Circularidade não é a (única) solução 

Muitas marcas estão apostando na circularidade, e isso é ótimo! Mas não é o fim do caminho. A moda circular é um dos pontos que devem ser observados para complementar o plano de ação para uma empresa se tornar mais sustentável, e não deve ser a única ação.

Quando o assunto é receber de volta peças para encaminhar para revenda e reciclagem, é importante que seja comunicado o que será feito com essas roupas. Estima-se que metade das roupas doadas nos Estados Unidos e Europa  vão para outros países. Um exemplo é Gana, na África Ocidental, que virou um lixão de roupas usadas. 

Todas as semanas, mais de 15 milhões de peças de roupas usadas chegam no país, a maioria de baixa qualidade ou danificadas, oriundas de marcas de fast fashion. Poucas pessoas querem comprar esses produtos, fazendo com que fiquem encalhados e acabem sendo descartados em aterros, que já estão sobrecarregados.

Quando o assunto é reciclagem, também é importante saber que essa não é uma solução mágica. Segundo o relatório Fios da Moda, 56,8% das pessoas estariam dispostas a reciclar suas peças de roupas se soubessem que elas, de fato, estão sendo recicladas, enquanto 49.9% das pessoas nunca ouviram falar sobre reciclagem de roupas no Brasil. Você já ouviu falar? pois é, não é fácil reciclar roupas!

Menos de 1% das roupas destinadas à reciclagem são recicladas para virar outras roupas. Um dos grandes motivos é a falta de tecnologia e investimento nesses processos. Uma peça feita de fibras misturadas, por exemplo, não pode ser reciclada e acaba passando por um processo de downcycling - quando ela se torna algo de menor valor, como por exemplo, enchimento de estofados.

A circularidade não pode ser a única resposta à produção em excesso e ao consumo desenfreado.  


Qual é a solução?

A solução para o problema da sustentabilidade da moda é uma mudança sistêmica. A indústria não vai deixar de poluir se seguir produzindo cerca de 80 bilhões de peças “sustentáveis” por ano para menos de 8 bilhões de pessoas no planeta. 

Segundo o relatório Pulse of the Fashion Industry, em 2030, a indústria global do vestuário e calçado terá crescido 81%, para uma produção de 102 milhões de toneladas de produtos. De acordo com o Fios da Moda, só no Brasil em 2018 foram produzidas mais de 9 bilhões de peças, passando o total de 40 peças por habitante. Não importa se essas peças são feitas de materiais responsáveis ou não, é um excesso que precisa ser parado. 

A moda precisa desacelerar, deixar de trabalhar na lógica linear, deixar de lado as estações e coleções que se sobrepõem, fazer roupas que durem e investir no controle e cuidado de toda a cadeia produtiva, desde o plantio da fibra até a destinação final. Reparou como tudo isso parece ser o exato contrário do fast fashion?

Portanto, enquanto o fast fashion seguir sendo fast fashion, não será mais consciente ou responsável. Claro, ações que minimizem o impacto sempre são bem-vindas, mas não serão suficientes a longo prazo e o planeta pede urgência. 

Deixe um comentário