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Moda lixo zero

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Moda lixo zero

Falamos muito sobre o conceito de lixo zero aplicado na faxina, na cozinha, na hora das compras, etc. Mas você sabia que o lixo zero também pode ser trabalhado na moda? 


O conceito de lixo zero - ou zero waste, em inglês -  engloba o máximo aproveitamento e correto encaminhamento dos resíduos recicláveis e orgânicos e a redução, ou mesmo o fim, da necessidade de encaminhamento destes materiais para os aterros sanitários e\ou incineração.


Moda Lixo Zero é sobre reutilizar o que já existe ao máximo, criar um sistema circular e não gerar resíduos que não possam ser reaproveitados ou reinseridos na própria produção. 


Existe o resíduo de pré-consumo, que é aquele gerado na fase produtiva: retalhos, tecidos com defeito, peças e tecidos descartados. Isso tudo pode ser eliminado através de um bom planejamento ou, quando inevitável, reaproveitado. 


O resíduo pós-consumo é a roupa (ou sapato, bolsa, enfim) que já existe. Trabalhar com resíduo pós consumo é reaproveitar roupas de brechó, por exemplo, como nós fazemos por aqui.  


Dentro desse universo há também duas definições importantes: Design Lixo Zero e Produção Lixo Zero. No primeiro, o resíduo é eliminado na fase do design através de um planejamento de desenho, modelagem inteligente e previsão de tudo que vai sobrar, para que deixe de ser sobra. No segundo, o resíduo ocasionalmente gerado é reinserido na produção, como quando marcas usam recortes e retalhos para fazer acessórios menores ou detalhes nas próprias roupas.


Por que é importante falar de lixo zero na moda?


De acordo com o relatório Fios da Moda, as perdas de tecidos nas fábricas podem chegar a 20% do total. Estima-se que as perdas nas várias fases da etapa de fabricação de camisetas estão na ordem de 50% para o algodão, 31% para a poliamida e 29% para o poliéster. Em todos os casos, a etapa com maior perda é a confecção (corte e costura), responsável por 25% em todos os casos


Isso significa que de todo o tecido preparado para fazer uma roupa, uma média de 20% vai fora. São aparas, retalhos, cantinhos e bordas que são cortadas na hora de encaixar os moldes e ficam sobrando. Pode parecer pouca coisa, mas no fim do dia isso é uma pilha de tecido novo, sem uso, que vai direto da tecelagem para o lixo.


E você sabia que o preço comercial das peças pode incluir uma compensação para os resíduos? Como na maioria das vezes os restos de tecido vão mesmo para o lixo, eles são calculados e inseridos no valor final. Em lugares onde esse resíduo é incinerado, a taxa dessa destinação também está escondida no preço.


Nos Estados Unidos, aliás, a coisa é bem complexa: dentro da legislação do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA), os resíduos não pertencem às marcas, e sim às fábricas onde eles são gerados no caso de produções terceirizadas. Este custo, então, vai ser inserido no valor da peça: ao comprar uma roupa feita por lá, você pode estar pagando de 10% a 30% de resíduo. 


No relatório A New Textiles Economy, feito pela Fundação Ellen MacArthur, a conclusão é assustadora: o equivalente a um caminhão de roupas é enviado para o aterro ou à incineração a cada segundo, enquanto menos de 1% das fibras têxteis usadas na produção de roupas são recicladas e destinadas para a produção de novas peças.


Aqui no Brasil, há poucos dados, mas se estima que só nos pólos de confecção de São Paulo, os bairros Brás, Bom Retiro e Vila Maria, são 63 toneladas de resíduos têxteis por dia. 


O pensamento lixo zero na moda deve começar desde a concepção do produto, antes mesmo da etapa do design. Usar como matéria-prima tecidos ou outros materiais reaproveitados, como fazemos aqui na Insecta, é uma maneira de promover a redução de resíduos, já que estamos trabalhando com algo que já existe. 


Outra coisa que fazemos é usar o nosso próprio resíduo como matéria-prima, eliminando a necessidade de trazer algo de fora e, ao mesmo tempo, de descartar o que ainda tem potencial para ser utilizado. Isso acontece com os cortes, as aparas e todos os retalhos e pedacinhos que são pequenos demais para serem usados nos sapatos. Esses restinhos são triturados e viram enchimento de palmilha!


No setor do vestuário essa etapa é mais difícil, porque diferente de bolsas, calçados e acessórios, roupas geralmente não usam enchimentos e não tem tantos componentes como um sapato, por exemplo. 


Nesse momento entra a modelagem inteligente. Existem softwares que conseguem otimizar o uso do tecido, encaixando os moldes como verdadeiros quebra-cabeças a fim de usar cada milímetro de tecido sem deixar nada de fora. Só que, mesmo assim, nem sempre é possível um aproveitamento de 100% devido às curvas e formas das peças. 


Avanços tecnológicos como impressão 3D, maquinários que fazem malhas sem costura e a possibilidade de fazer peças-piloto digitais também são grandes aliados nessa empreitada. 

Mas é zero mesmo?


Hoje já existem certificações que atestam se empresas (de moda e de outros setores) conseguem fazer a destinação e/ou aproveitamento correto dos seus resíduos. A mais conhecida é a Certificação Lixo Zero, produzida pelo Instituto Lixo Zero Brasil (ILZB) e a única certificação no Brasil que possui validação da Zero Waste International Alliance (ZWIA).

 

Existem três níveis de certificados para diferentes estágios que as empresas se encontram: Compromisso com Lixo Zero, para quem está começando e já se compromete a encaminhar até 49,9% dos resíduos; Selo Rumo ao Lixo Zero, para quem já consegue encaminhar ou reduzir entre 50% e 90% dos resíduos gerados e Certificação Lixo Zero, para quem encaminha corretamente entre 90% e 100% de seus resíduos. 


Alguns desafios pela frente


Implementar uma produção lixo zero é muito mais simples em uma empresa pequena, já nascida com o design circular como um pilar. Isso acontece porque em grandes empresas os designers trabalham longe dos modelistas e ambos têm pouco contato com os responsáveis ​​pelo corte dos moldes e a confecção das peças. 


Tudo é terceirizado e as coisas são quase automáticas. Assim, muitos designers têm pouca noção de como seus projetos se comportam nos moldes e na mesa de corte, sem ter noção da quantidade de resíduos gerados.


É preciso reaproximar quem trabalha criando, modelando, cortando e montando as peças. Todos precisam estar cientes do que acontece nas etapas imediatamente relacionadas às suas e participar em conjunto das decisões que são tomadas. 


Além disso, é importante lembrar que mesmo destinando de forma correta o que é gerado na produção, isso não é uma solução mágica que permite que as coisas sigam no ritmo acelerado que estão. 


O fast-fashion, além de impulsionar o consumismo e um volume cada vez maior de peças descartadas, também é responsável pela queda na qualidade dos materiais em geral. Graças a isso, fica cada vez mais difícil reaproveitar o que já existe, porque a durabilidade é baixíssima. 


A produção em excesso não fica só no quesito roupas prontas. Tecidos também vêm sendo feitos em excesso, fios, aviamentos, etc. Tudo é exagerado e as pessoas estão consumindo demais. Mesmo com um pensamento lixo zero, a mudança radical ainda é mais do que necessária.

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