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Menstruação: do tabu à poluição

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Menstruação: do tabu à poluição

A menstruação é um tema carregado de tabus. São mitos, vergonhas e preconceitos construídos ao longo do tempo que impactam diretamente a saúde de quem menstrua e também na saúde do planeta. Um olhar ecofeminista é importante e urgente!

Pra começar, raramente a palavra menstruação é falada. É como se fosse um palavrão, e foram criados vários eufemismos - naqueles dias, de chico, sinal vermelho, maré vermelha e por aí vai. É provável que você conheça outros, e podem até existir apelidos na família para que alguém possa falar que está menstruada sem precisar falar que está menstruada.

Há também a questão do nojo. Ao longo da história, a menstruação foi vista como algo sujo, impuro e até tóxico. Esse tabu se estende por gerações e classes sociais no mundo todo, reforçado por verdades absolutas como “não pode lavar o cabelo quando está menstruada", “não pode entrar na água” e “menstruação tem cheiro ruim” - sendo que a menstruação tem cheiro de sangue, o que tem cheiro ruim é o absorvente. 

A imagem da menstruação ficou tão atrelada a algo sujo e proibido que nas propagandas de produtos menstruais o líquido é azul, e a palavra menstruação quase nunca é dita. É como se fosse vergonhoso.

Até pouco tempo atrás, as mulheres se viravam de maneira artesanal para absorver o fluxo menstrual. A solução mais comum era usar toalhas ou pedaços de pano acomodados nas calcinhas. Quase como um absorvente reutilizável, pois esses mesmos panos eram lavados e reutilizados. Bem mais ecológico, é verdade.

Porém, com a entrada das mulheres no mercado de trabalho, o uso desses paninhos começou a ser visto como pouco prático, trabalhoso de trocar durante o dia de trabalho, além de ter que carregar o pano usado na bolsa durante o dia. Os primeiros absorventes descartáveis surgiram para trazer essa ideia de conforto, praticidade e modernidade. 

Nos anos 60 e 70 houve uma considerável popularização dos absorventes internos, que não eram novidade, mas por muito tempo foram pouco usados graças ao tabu da mulher tocar no próprio corpo e colocar algo lá dentro. Para evitar esse contato com a própria intimidade surgiram os aplicadores. Lá em 1929, eles já existiam, feitos de papelão. Logo vieram os aplicadores de plástico, mais práticos, maleáveis e baratos. 

A descartabilidade então se tornou a regra. Absorventes internos e comuns reforçavam o apelo da praticidade: você não precisa levar na bolsa, pode jogar no lixo em qualquer lugar e não precisa lavar para usar de novo. Simples assim!

As embalagens de plástico viraram padrão, e os próprios produtos passaram a carregar muito plástico na composição. Em 2013, a marca Kotex lançou um absorvente com um "invólucro mais macio e silencioso para ajudar a mantê-lo em segredo". Em alguns banheiros públicos, há pequenas sacolas plásticas perfumadas para coletar e esconder os absorventes usados mesmo dentro da lixeira.

E daí, rapidamente, todo o tabu em torno da menstruação se tornou também um problema ambiental. 

Um absorvente descartável é muito parecido com uma fralda no quesito composição. As principais matérias-primas usadas vem de árvores e do petróleo. Parece um absurdo pensar nisso, mas tanto absorventes quanto fraldas, que entram em contato direto com partes sensíveis do corpo, são carregados de plásticos e químicos poluentes. 

O absorvente é composto por celulose, polietileno, propileno, adesivos termoplásticos, papel siliconado, polímeros superabsorventes e agentes controladores de odor (os culpados por aquele cheiro característico). Os absorventes internos possuem mais algodão do que plástico na composição, mas não deixam de carregar poliéster, polietileno, polipropileno e fibras artificiais. 

Depois de usados, vão para o lixo comum. Do lixo comum, para o aterro. E daí, cada absorvente leva, em média, 400 anos para sumir do planeta.  

Durante o período menstrual, uma brasileira descarta em média 20 absorventes. Por ano, isso vira 3 kg de lixo. Levando em conta que uma pessoa menstrua por uma média de 40 anos, ela pode chegar a usar 9.600 absorventes descartáveis, ou mais de 130 kg de lixo. 

De acordo com o IBGE, 51,8% da população brasileira é composta por mulheres. São mais de 60 milhões de pessoas gerando 12 mil toneladas de lixo a cada mês!

Felizmente, há outras opções. Mas para que elas sejam adotadas em massa, muitos tabus precisam ser superados. 

Os coletores menstruais existem desde o começo do século XX, mas só agora começaram a ganhar mais adeptas. Eles são feitos em materiais seguros para o corpo, podendo ser usados por até 3 anos e se decompondo em apenas 50 anos. Já é um começo. 

As calcinhas menstruais são um grande avanço e uma ótima opção para quem não quer usar o coletor. Algumas já são feitas em materiais biodegradáveis. Também existem absorventes reutilizáveis de pano, parecidos com os de antigamente, mas mais práticos e eficientes. 

De acordo com o Instituto Akatu, se uma mulher substituir os absorventes descartáveis por alternativas duráveis, evitará a emissão de 200 kg de CO2, além de todos aqueles números que falamos ali em cima. 

Porém, para usar essas opções, é preciso conhecer o corpo e entrar em contato com a menstruação. É preciso higienizar, saber aplicar e ter autoconhecimento. É preciso enfrentar e quebrar os tabus para ter ciclos harmônicos com o corpo - e nem estamos falando sobre amar menstruar, mas não ter nojo de si mesma é fundamental!

Outro problema é que para que isso seja sustentável e o impacto na geração de resíduos seja modificado é preciso que atinja todas as mulheres.

Pobreza menstrual também faz parte do problema 

Enquanto debatemos qual tipo de produto menstrual polui menos, há mulheres e meninas que não têm acesso ao mínimo. O documentário ganhador do Oscar em 2019, “Absorvendo o Tabu”, mostra como mulheres em situações de baixo saneamento básico lidam com a menstruação, envolvendo o estigma social e a dificuldade de acesso à higiene básica. Se você não viu, recomendamos que veja. 

A falta de acesso à água é um dos principais aspectos da pobreza menstrual, além da falta de dinheiro para comprar produtos de higiene. No Brasil, 1,5 milhão de mulheres e 413.000 meninas vivem em residências sem banheiros, de acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde. Como sugerir que elas usem coletores menstruais, calcinhas ou absorventes reutilizáveis?

Por falta de acesso ao básico, elas recorrem a métodos como folhas de jornal, papel, folhas de árvores e até miolo de pão. Isso afeta a saúde física e a mental, pois com a falta de higiene a menstruação se torna um problema, trazendo vergonha, dificuldades e reforçando os tabus. 

Na Escócia é lei: os governos locais devem garantir que absorventes externos, internos, de pano e coletores menstruais estejam disponíveis em escolas, faculdades, banheiros públicos, centros comunitários e farmácias gratuitamente.

No Brasil ainda engatinhamos nesse sentido. O Programa de Proteção e Promoção de Saúde Menstrual teve seu texto inicialmente vetado. Garantir dignidade menstrual é o mínimo, e não podemos parar por aí. Tem que ter educação menstrual, questionar e derrubar tabu, empoderar meninas e mulheres para que todas possam ter acesso e informação para fazerem suas escolhas, mais saudáveis para si e para o planeta.

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