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Fake news na moda: somos a segunda indústria mais poluente?

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Fake news na moda: somos a segunda indústria mais poluente?

Se você nos acompanha aqui no blog, já deve ter percebido como gostamos de apresentar dados, pesquisas e, sempre que possível, embasar nossos posicionamentos com evidências científicas e estudos. 


Isso é relativamente “fácil” quando estamos falando sobre produção de plástico, descarte de embalagens ou mercado de produtos veganos. A coisa pega quando o papo é moda.


Provavelmente você já leu que a indústria da moda ocupa o segundo lugar no ranking das mais poluentes do planeta. Só que esse dado é muito controverso, e desde meados de 2017 está em debate. 


Atualmente a estimativa é que a indústria da moda ocupa o 5º lugar, mas realmente se trata de uma estimativa, porque são inúmeros fatores a serem considerados. Essa conta tem como base as emissões de carbono, mas se mudarmos o ponto de vista da análise tudo pode mudar. 


A moda polui, mas alguém sabe quanto?


O Modefica já tinha apontado faz um tempo as inconsistências de dados tidos como absolutos: se o petróleo e a pecuária estão no topo da lista, como a moda viria logo depois? A realidade é que a ideia de que a moda é a segunda maior poluidora não tem uma origem certeira. São citações de citações sem fonte, sem publicação científica, sem autor, que viraram uma verdade ao serem repetidas. 


Segundo a apuração do Modefica, esse mal-entendido nasceu de um release para a imprensa do Danish Fashion Institute, que foi publicado erroneamente com esse dado. Mesmo sendo tirado do ar, mesmo com o Instituto se retratando, era tarde demais: a informação estava solta na internet e todo mundo se apegou. 


Também há uma versão que aponta a Dra. Linda Greer, cientista da ONG ambiental Instituto de Assuntos Públicos e Ambientais em Pequim, como uma fonte acidental. Ela admitiu que ao analisar fontes de poluição da água em  Jiangsu, uma região altamente industrializada da China, descobriu que a indústria têxtil era a segunda maior poluente nesse local em particular, e o dado pode ter sido distorcido. 


Apesar de ser uma das mais famosas, essa não é a única fake news da moda repetida por aí. Por exemplo: estimativas variam de 8% a 10% nas emissões globais de gases de efeito estufa originadas pela indústria da moda. Quando o assunto é roupa feita e vendida, podem ser entre 80 bilhões e 150 bilhões de peças por ano, de acordo com o documentário The True Cost e o World Economic Forum, respectivamente. 


São diferenças de bilhões separando essas estimativas, que vem de lugares diferentes, sem fontes baseadas em estudos científicos. É tudo estimativa!


Mais alguns dados desencontrados: um estudo da Fundação Ellen MacArthur diz que 20% da poluição hídrica industrial vem da moda, mas a revista EcoTextile News desmentiu o número recentemente. Eles encontraram apenas uma citação de 2012 atribuída ao World Bank que negou ser a origem do dado. 


O relatório Pulse of the Fashion Industry publicado em 2017 sacudiu a indústria e surgiu como um dos mais completos e aprofundados estudos até então feitos. Foram analisados critérios como emissões de carbono, uso de químicos e água, e inclusive foi criada uma base para as marcas medirem seu próprio impacto na cadeia de suprimentos.


É desse relatório a informação que a indústria da moda foi responsável pela emissão de 1,7 bilhão de toneladas de CO2 em 2015, cerca de 4,8% das emissões globais de carbono naquele ano. 


Um ano depois, uma pesquisa das agências Quantis e Climate Works concluiu que as indústrias de vestuário e calçado juntas seriam responsáveis por 3.9 bilhões de toneladas de CO2e (esse “e” é uma medida usada para comparar as emissões de vários gases de efeito estufa reunidos), sendo 8% das emissões globais. Ao ser questionada sobre a fonte desses dados, a Quantis retirou o relatório de circulação. 


Em alguns lugares você ainda pode ler que a indústria da moda é responsável por 10% das emissões de carbono globais, e o dado é atribuído à ONU. Mas aparentemente a ONU não sabe dizer de onde veio essa conta. 


Em 2020 a McKinsey e a Global Fashion Agenda publicaram seu número: 2.1 bilhões de toneladas de CO2e, ou 4% das emissões de GEE globais.  


Ainda no ano passado, em 2021, os institutos World Resources e Apparel Impact lançaram seu resultado, onde a contribuição da indústria da moda ficou em 2% das emissões globais de carbono. E parece que esse relatório é, de todos, o que apresenta fontes mais confiáveis e uma boa explicação de onde vieram os números 


Então é isso. Estamos perdidos entre 2% e 8% de tudo que é gerado em termos de emissão de CO2 no mundo todo, todos os anos. 


Bem vago, né? 

Pollution from a tannery in Dhaka, Bangladesh. Photo: Barcroft Media/Getty Images
Pollution from a tannery in Dhaka, Bangladesh.
 Photo: Barcroft Media/Getty Images

 

Quais são as principais poluidoras, afinal?


Pelas contas de Francesca Willow, do blog Ethical Unicorn, a indústria da moda ocupa a 5ª posição no ranking das poluidoras. Para ela, as colocações seriam as seguintes:


  1. Energia (considerando aqui o alto impacto das matrizes energéticas dependentes de combustíveis fósseis) (24.9%)
  2. Agricultura (13.8%)
  3. Transporte rodoviário (10.5%)
  4. Petróleo (6.4%) 
  5. Pecuária e Moda (5.4%) 

O site Ecojungle fez um levantamento das indústrias mais poluentes no final de 2021 e teve as emissões de GEE (Gases do Efeito Estufa) como principal critério. De acordo com eles, as principais poluidoras são: 


  1. Energia;
  2. Transporte;
  3. Agricultura;
  4. Moda.

Felizmente, perdemos algumas colocações e ficamos entre o 4º e o 5º lugar, então. Mas isso não é tão animador, porque ainda é uma péssima posição, né?


Por que os números da moda são tão difíceis?


Como ficou claro no relatório Fios da Moda, essa indústria tem particularidades e uma cadeia extremamente fragmentada. É sabido que a moda é responsável pela emissão de poluentes para a atmosfera, para os corpos hídricos e tem uma alta geração de descarte, mas os números são quase sempre difíceis de acessar.


Muito disso se dá pela fragmentação. É preciso calcular desde o produtor de algodão até o fim do uso de uma camiseta, por exemplo, e nesse longo caminho as coisas se perdem ou, muitas vezes, nem são documentadas. 


A moda está ligada ao uso de agrotóxicos no plantio das fibras, também tem a questão do poliéster, do tingimento, do curtimento do couro, a produção poluente da viscose, e ainda tem o transporte disso tudo em uma cadeia de suprimentos global, onde às vezes cada aviamento é produzido em um canto do mundo e viaja de avião para ser costurado na peça final. 


Como bem colocado pelo Modefica, “a indústria da moda envolve outras indústrias: a têxtil, do couro, química, de produção de matérias-primas não servem e não são servidas apenas pela moda – o que torna muito difícil analisar o cenário como um todo e praticamente impossível criar um ranking comparativo com outras indústrias sem pesquisas exaustivas”. 


Por enquanto, nós fazemos nossa parte. Aqui na Insecta criamos nosso próprio índice de sustentabilidade de materiais (veja aqui!). Da mesma forma, o Google e a Stella McCartney também estão desenvolvendo a sua metodologia de score de materiais: o Global Fibre Impact Explorer.


Falando em Brasil, temos a pesquisa do Ecoera com a Vicunha sobre Pegada Hídrica, que trouxe um panorama da produção do jeanswear aqui no Brasil, considerando todas as particularidades. 


E, por fim, não poderíamos deixar de citar o Fios da Moda, a primeira pesquisa brasileira focada em analisar de forma qualitativa e quantitativa os impactos socioambientais da produção das três fibras mais utilizadas na moda: algodão, poliéster e viscose.


Estes são os primeiros esforços em criar dados confiáveis em uma indústria tão cheia de problemas e particularidades. As limitações e dificuldades na produção de cada um deles são apenas mais confirmações de que esse sistema precisa ser revisto e corrigido. 


Por aqui, seguimos sempre em busca dos dados mais confiáveis e sempre de olho para trazer as informações mais relevantes e corretas.

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