Fechar ícone

Economia circular: um guia

Seta Fina Esquerda ícone Seta Fina Direita ícone
Economia circular: um guia

Provavelmente você já ouviu falar sobre Economia Circular, mas é possível que ainda não tenha entendido bem o que é isso afinal de contas. Esse é um conceito aparentemente simples, mas que tem vários detalhes e revela algumas agradáveis surpresas quando você vai estudar para entender melhor.

Dá pra dizer que economia circular é “o assunto do momento”, e já adiantamos: você vai ouvir falar cada vez mais nisso! E se pensa que é algo muito complexo, olha só: é bem provável que você faça parte de iniciativas circulares e nem saiba! 

 

Por que o mundo precisa da Economia Circular? 

 

Não é novidade que a situação atual do Planeta não é boa. Os limites estão em um nível quase insustentável, vide o Dia da Sobrecarga da Terra, que tem chegado cada dia mais cedo.

Estamos em estado de emergência climática, e a Economia Circular é uma das mudanças necessárias para contornar essa situação e nos ajudar a repensar a maneira como produzimos e consumimos.

Pra ter apenas uma ideia do que estamos passando, ⅓ de todo alimento produzido no mundo é desperdiçado todos os anos, 80% dos produtos comprados são descartados ainda nos primeiros seis meses da compra e 40 bilhões de toneladas de lixo eletrônico são produzidos anualmente. Segundo dados da Organização das Nações Unidas, o Brasil produz cerca de 541 mil toneladas de lixo por dia.  

Se a questão dos resíduos é um problemão, o esgotamento dos recursos naturais é outro. De acordo com o relatório da Ellen MacArthur Foundation, cerca de 82 bilhões de toneladas de matéria-prima são inseridas no sistema produtivo mundial todos os anos, ou seja, extração de novos materiais, grande parte de recursos não renováveis (como por exemplo o petróleo e a mineração).

Todos esses números (que, sinceramente, são até difíceis de visualizar, né?) são explicados pelo modelo econômico atual, baseado em extrair   produzir  descartar, conhecido como Economia Linear.

Para que possamos mudar esse cenário será necessária uma mudança sistêmica, com a transição para um modelo baseado na extensão máxima da vida dos produtos: a Economia Circular. Nós já estamos caminhando para lá. Vamos? 

 

Economia Linear x Economia Circular 

 

Vivemos em um sistema de economia linear. Isso significa que o crescimento econômico depende do consumo de recursos finitos. Nesse modelo, os recursos são extraídos da natureza, transformamos em produtos, usados e descartados (na grande maioria das vezes, prematuramente).

Basicamente, o destino da maioria das coisas é o lixo (inclua aqui lixões, aterros sanitários, oceanos, etc.). Esse sistema não dá certo e isso já é mais do que comprovado. Se seguirmos dessa forma, o colapso no sistema e a escassez de recursos vai chegar rapidamente. Com menos recursos disponíveis, os custos da extração serão cada vez mais elevados. É uma bola de neve muito preocupante.

O grande erro da economia linear está no design dos produtos. As coisas não são pensadas para durar, e sim para serem descartadas. E de qualquer jeito, gerando contaminação decorrente do descarte de componentes tóxicos por aí.  

 

Imagem: Ideia Circular https://www.ideiacircular.com/economia-circular/  

 

Já a Economia Circular é um conceito baseado nos ciclos da natureza, que é o exato oposto do processo produtivo linear. Nos sistemas circulares, resíduos são insumos para a produção de novos produtos. Pensa com a gente: no meio ambiente, restos de frutas se decompõem e viram adubo para outras plantas crescerem. Não existe a ideia de lixo, e tudo serve de nutriente para um novo ciclo.

Na Economia Circular, o destino final de um material deixa de ser uma questão de gerenciamento de resíduos, mas parte do processo de produção. O conceito de lixo deixa de existir, porque tudo é aproveitado.

Ao contrário da ideia de produzir cada vez mais, a Economia Circular  usa de forma inteligente os recursos naturais. Aqui também é um ponto importante a otimização dos processos produtivos, priorizando energias renováveis. 

 

Imagem: Ideia Circular https://www.ideiacircular.com/economia-circular/

Hoje em dia a Economia Circular é muito associada a pequenas empresas, que pelo seu formato mais enxuto têm mais facilidade de adaptar processos. Mas esse conceito tem com um preceito importante funcionar em qualquer escala, para grandes e pequenos negócios, para organizações, empresas e pessoas, em qualquer lugar.

Agora, uma coisa que precisamos deixar claro é que a transição para a Economia Circular implica em uma mudança total. Não é uma adaptação ou ajuste do formato que estamos acostumados, e sim uma mudança sistêmica. 

 

De onde surgiu essa ideia? 

 

A ideia de circularidade tem origens históricas e filosóficas. A ideia de retroalimentação e de ciclos pertence a diversas escolas de pensamento. Um exemplo que ilustra muito bem o que estamos falando é a famosa frase de Antoine Lavoisier: "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma", ou, resumidamente, como dizemos hoje em dia: “não existe fora”. 

O economista britânico Kenneth Boulding é considerado o pai do termo “economia circular”. Em 1966, no artigo “The economics of coming spaceship earth”, defendeu que “o Homem precisa encontrar o seu lugar em um sistema ecológico cíclico que seja capaz de reproduzir continuamente a forma material, embora não possa evitar aportes de energia”. A ideia, porém, foi amplamente difundida por Ellen MacArthur, velejadora que deu a volta ao mundo sozinha.

Ao percorrer mais de 50 mil quilômetros em 3 meses, essa mulher incrível percebeu que estender a vida útil dos suprimentos tinha relação com o uso de recursos finitos e como sua conservação inteligente tem impacto direto na qualidade de vida e sobrevivência. Ela fundou a Ellen MacArthur Foundation, que trabalha com empresas, governos e universidades para difundir a Economia Circular e acelerar essa revolução sistêmica. 

 

Escolas de pensamento 

 

Se você gosta de design, a Economia Circular é um prato cheio para estudar e se aprofundar em várias escolas de pensamento. Esse modelo é uma síntese de várias correntes que se complementam, trazendo suas principais ideias:  

 

  • Design Regenerativo: conceito que vem da área agrícola, criado para manejar os recursos naturais de forma consciente. 
  • Economia de Performance: creditado por ter cunhado o termo "Cradle to Cradle" (do berço ao berço) na década de 70, é a abordagem do ciclo fechado para processos de produção;  
  • Cradle to Cradle: Título do livro-manifesto de 2002 escrito pelo arquiteto William McDonough e pelo engenheiro químico Michael Braungart. Eles falam sobre gestão de recursos na lógica circular de criação e reutilização, eliminando a ideia de “lixo”. 
  • Ecologia Industrial: Fala sobre um ecossistema industrial, onde os resíduos conectam indústrias diferentes: o que não serve para uma se torna a matéria-prima para outra, e elas vivem dentro de um ciclo fechado se retroalimentando. 
  • Biomimética: É o design inspirado na natureza. As melhores soluções são “copiadas” e aplicadas das mais variadas formas. 

 

Como funciona a Economia Circular? 

 

Se a gente for resumir as principais características da Economia Circular, dá pra dizer que são: a minimização da extração de recursos, a maximização da reutilização e o aumento da eficiência de processos e produtos.

Há também uma divisão de tipos de matérias-primas em ciclos biológicos e técnicos. Os biológicos são, obviamente, materiais de base natural, como algodão e madeira. Eles retornam ao sistema pela compostagem ou processos de digestão anaeróbica. Sim, quando você composta e usa o seu próprio fertilizante nas suas plantinhas, está fazendo um processo circular! Já os ciclos técnicos são componentes de produtos. Eles voltam ao ciclo através de reutilização, reparo, remanufatura ou reciclagem. 

 

Design Circular 

 

Beleza, mas e como funciona, na prática, essa ideia de reaproveitamento de absolutamente tudo? A resposta está no design.

Podemos partir daquele princípio já bem conhecido que diz que todo lixo é um erro de design. Se a ideia é acabar com o descarte e criar produtos que podem ser reinseridos no ciclo, é na hora da concepção que isso deve ser pensado.

Estamos acostumados com o design na sua forma mais sem-vergonha: nos anos 30, num esforço de estimular a economia depois da Grande Depressão de 1929, surgiu a ideia da obsolescência programada.

Os produtos são projetados com a intenção de que se tornem obsoletos e sejam descartados e substituídos o mais rápido possível. Se você está lendo esse texto em um celular, um dos grandes exemplos disso está aí na sua mão. Com produtos feitos para não durar, ninguém pensa em logística reversa, pois não houve planejamento para um processo de desmontagem ou reaproveitamento. A reciclagem se limita a uma sub-ciclagem, resultando em materiais de qualidade e funcionalidade inferior, que não resistirão a muitos ciclos.

Na economia circular, acontece o oposto: na hora de criar um produto (qualquer que seja), a sua longevidade é levada em consideração, pensando em formas de estender seu tempo de uso, incluindo a possibilidade de serem facilmente consertados ou atualizados pelos  usuários.

É mais vantajoso para as empresas criar produtos que sejam facilmente desmontados, consertados e reutilizados ou revendidos, pois nesse cenário elas mesmas recebem de volta seus produtos através da logística reversa. 

 

Responsabilidade Compartilhada e Consciência Coletiva 

 

Se a gente for falar em logística reversa, precisa lembrar que a responsabilidade de retornar os materiais para quem os produz ou fornece é também do consumidor.

Ao descartar algo no lixo comum, o destino é o aterro. Nós, como consumidores, devemos nos informar antes da compra do que fazer com o produto no fim da sua vida, e também cobrar as empresas por soluções nesse sentido, caso não existam.  

 

Por isso é tão importante que haja transparência do lado das empresas. Informar o consumidor sobre as iniciativas e boas práticas adotadas, mesmo pequenas, é essencial. Outro jeito de descobrir se uma marca ou empresa tem responsabilidade ambiental é ficar de olho nas certificações: hoje em dia há vários selos que comprovam que a empresa passou por uma análise cuidadosa levando em consideração vários fatores, e por isso você pode confiar.  

O funcionamento desse sistema não depende apenas das empresas, mas de todos os envolvidos no ciclo de vida de um produto.

A logística reversa é uma ferramenta da economia circular. Ela representa um estímulo à reciclagem, redução na exploração da matéria-prima virgem e diminuição na emissão de Gases do Efeito Estufa. E pensando principalmente no cenário do Brasil, é importante pois tem vantagens sociais, como a profissionalização, aumento de renda e melhores condições de vida e trabalho dos catadores de materiais recicláveis.

Aqui temos a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), lei (Lei nº 12.305/10) que exige transparência no gerenciamento de resíduos e pede pela implementação da logística reversa em vários tipos de empresas.

É um excelente começo, mas ainda fica restrita a setores específicos, precisando ser revista, ampliada e adotada por todo tipo de negócio.  

 

Novos Modelos de Negócio 

 

Chegamos em uma parte que você vai conseguir enxergar com muita clareza no seu dia a dia. Os negócios circulares já existem e estão por aí, participando da nossa vida sem que a gente perceba.

Insecta é um negócio circular, caso você esteja se perguntando. Temos como missão estender a vida útil de materiais que já existem, produzindo sapatos e acessórios com tecidos que chegaram ao fim do seu ciclo. 

Nossos próprios produtos são reinseridos no ciclo quando chegam ao fim, virando material para novos produtos. 

É muito provável que você já utilize outros modelos de negócio que fazem parte da economia circular: Uber, Airbnb e aluguel de bicicletas são só alguns exemplos entre os mais conhecidos.

Nesse modelo de negócio, o serviço ou a experiência são vendidos, ao invés do produto. Pense bem: 92% do tempo os carros das grandes metrópoles ficam estacionados, e transportam normalmente 1,5 pessoas por viagem.

Para muita gente vale muito mais a pena chamar um motorista de aplicativo quando precisa se deslocar, ao invés de investir uma grana em um carro que vai ficar parado e vai precisar de manutenção, seguro, pagamento de impostos e tudo mais. Você não precisa ter uma bicicleta se vai usar apenas para passear no parque: pode alugar uma compartilhada por um tempo e depois devolver.

Quem gosta de passar férias cada vez em um lugar diferente também vai se identificar, e provavelmente está sempre procurando achados no Airbnb. O que acontece nesses casos é que você aproveita a experiência e o uso do produto, e perrengues como manutenção passam a ser resolvidas pela empresa ou proprietário.  

 

Desafios 

 

Todo ano, aqui no Brasil, mais de R$ 8 bilhões em materiais vão para aterros e lixões em vez de serem reciclados, em estimativa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Infelizmente, por aqui ainda estamos na fase de resolver nosso gerenciamento de resíduos, ainda longe de pensarmos em novos modelos de negócio em uma escala maior e mais transformadora. 

Para chegarmos na mudança sistêmica que a Economia Circular pede, precisamos de contribuição multidisciplinar de pessoas de todas as áreas de atuação e conhecimento, e incentivos governamentais.

Mas podemos começar a dar nossos passos valorizando as empresas que conhecemos, fomentando essa nova economia. 

 

http://www.portaldaindustria.com.br/industria-de-a-z/economia-circular/ 

https://www.ellenmacarthurfoundation.org/pt/economia-circular/conceito 

https://www.ideiacircular.com/economia-circular/ 

https://www.creditodelogisticareversa.com.br/post/t-economia-circular-o-que-e-e-quais-seus-beneficios 

https://www.ecycle.com.br/economia-circular/ 

https://www.modefica.com.br/economia-circular-na-moda/#.YRgEWohKjIU 

Deixe um comentário