Fechar ícone

Dia Mundial da Água: Brasil já perdeu 15% da cobertura hídrica

Seta Fina Esquerda ícone Seta Fina Direita ícone
Dia Mundial da Água: Brasil já perdeu 15% da cobertura hídrica

Dia 22 de Março é o Dia Mundial da Água, e hoje também começa a 9ª edição do Fórum Mundial da Água (9° WWW), em Dakar, no Senegal. Como não poderíamos deixar de falar sobre o tema, queremos aproveitar a data para fazer uma reflexão sobre como estamos (como humanidade) usando esse bem tão precioso. 


A água é indispensável para a vida, ok, isso é mais que sabido. Mas o acesso à água potável tem se tornado cada vez mais limitado a uma parcela cada vez menor da população mundial, enquanto poluição, desperdício e escassez são palavras que se tornam recorrentes. 


Aqui no Brasil, por exemplo, a água está secando. Esse dado é resultado de uma pesquisa feita pelo MapBiomas, que analisou imagens de satélite do território nacional desde 1985 até 2020. A constatação, assustadora, é que o país perdeu 15,7% da superfície de água neste período. 


Isso quer dizer que a extensão de água continental, que era de 19,7 milhões hectares no começo da década de 90, foi reduzida para 16,6 milhões, uma perda de 3,1 milhões hectares (se você também é de humanas e não consegue visualizar o tamanho desses números, basta pensar que é mais de três vezes a área da Região Metropolitana de São Paulo). 


De acordo com um estudo feito pelo Instituto Trata Brasil, o país desperdiça 39,2% de toda a água potável que é captada – isso significa que tudo isso se perde pelo caminho, não chegando ao abastecimento das casas dos brasileiros. Entre as principais causas estão os vazamentos nas tubulações.


Mas não vem do uso doméstico o maior impacto em relação ao uso de água, como já era de se esperar: As atividades do lar estão apenas na terceira colocação, registrando somente 8%. Indústria e agricultura são os setores que mais gastam energia elétrica e água no Brasil, segundo a EPE (Empresa de Pesquisa Energética) e a ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico).


Quase metade do volume retirado de bacias hidrográficas vai para a irrigação de lavouras, sendo que 50% desse volume ainda é perdido por execução incorreta ou falta de controle. Considerando a diferença entre o volume de água retirado e o que retorna aos rios, a participação da agricultura responde por 66,1% do consumo. 

No setor industrial, são retirados por segundo 2,3 milhões de litros de água dos rios, com uma grande porcentagem de perda devido a tubulações em mau estado e vazamentos.


E ainda tem a questão da chamada água virtual. Esse termo, que como foi muito bem colocado nesse episódio do Greg News, faz parecer que se refere a uma água que não existe, quando na verdade é água consumida, e poderia sim se chamar apenas “água”. 


O conceito de água virtual foi criado em 1993 se refere à quantidade de água utilizada para produzir algo em um local, porém que será consumido em outro lugar. Por exemplo: toda a água envolvida na produção de soja, milho, açúcar e carne no Brasil, que não é contabilizada ou cobrada de forma direta, acaba sendo usufruída "gratuitamente" pelos países consumidores. 


Segundo a Unesco, graças à agropecuária enviamos indiretamente para o exterior cerca de 112 trilhões de litros de água doce por ano, o equivalente a 45 milhões de piscinas olímpicas. De acordo com a Water Footprint Network, o Brasil é um dos campeões mundiais nesse quesito. Nada a comemorar aqui. 


Como explicam nesta matéria, ainda não existe uma definição sobre esse problema nem a respeito das ações que devem haver em relação a ele, mas seria muito importante começar a pensar sobre e criar maneiras de contabilizar o que estamos exportando “de graça”, enquanto aqui mesmo, no Brasil, quase 35 milhões de pessoas não têm acesso à água potável e os conflitos por água não param de crescer. Entre 2011 e 2016, o número aumentou em 150%, segundo o levantamento "Conflitos no Campo Brasil 2016" da Comissão Pastoral da Terra. 


Só que, como você já deve imaginar, a crise da água não é um problema que só acontece por aqui. A escassez afeta aproximadamente 40% da população mundial, e segundo algumas estimativas da ONU e do Banco Mundial, as secas podem colocar 700 milhões de pessoas em risco de deslocamento até 2030. Além disso, os conflitos por água tendem a crescer no mundo todo, na mesma velocidade em que ela se torna um recurso raro. 


Os dados mais atuais divulgados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o famoso IPCC, alertam para o risco de um aquecimento de 2,7 graus Celsius, que colocaria até 112 milhões de pessoas em estresse hídrico na Mesoamérica, 28 milhões no Brasil e até 31 milhões no resto da América do Sul.

A distopia é tão real e tão louca que, graças às previsões apocalípticas da escassez cada vez maior de água, ela entrou na mira do mercado financeiro e já é possível investir em água em Wall Street. Nosso tão amado recurso natural é negociado no mercado de futuros, junto com ouro e petróleo, onde esses bens são comprados agora para serem vendidos no futuro com preços mais elevados.


Só que a gente não quer falar só de coisa ruim, então vale sempre mostrar que ainda tem como reverter essa situação e tem pessoas trabalhando duro para isso. Aqui no Brasil, por exemplo, existem iniciativas de restauração que ajudam a trazer água e floresta de volta através da restauração de nascentes. E é uma ótima notícia saber que projetos como esses são verdadeiros círculos virtuosos, onde um inspira o outro e mais projetos surgem e se expandem por aí.


O Plano Conservador da Mantiqueira nasceu inspirado em um exemplo de sucesso, iniciado no município de Extrema, Minas Gerais, em 2005, o Conservador das Águas. Entre 2015 e 2016, o Conservador das Águas serviu de exemplo e modelo para mais quatro municípios vizinhos que compõem a Área de Proteção Ambiental (APA) Fernão Dias, dando início ao Plano Conservador da Mantiqueira que une poder público, terceiro setor, ONGs locais e iniciativa privada para plantar e restaurar paisagens. Atualmente o Plano abrange 400 municípios na influência da Serra da Mantiqueira.


A reportagem mega inspiradora que foi publicada pelo O Eco fala da importância da restauração e como ela é capaz de trazer de volta a água. Você pode ler na íntegra aqui. 

O que eu posso fazer para ajudar a preservar a água?


A gente sabe, e tem até meme com isso, que chega a doer sabendo que a indústria e o agro estão gastando toda nossa água enquanto a gente toma o maior cuidado pra deixar a torneira fechada enquanto escova os dentes.


Mas é verdade que as microrrevoluções e as pequenas ações individuais ainda fazem a diferença. É preciso aprender a ver a água como o bem precioso que ela é, pois aqui no Brasil temos uma ideia de abundância infinita que está cada vez mais longe de ser realidade. 


Se você sente vontade de fazer ainda mais, procurar por ONGs e iniciativas que trabalham diretamente com isso pode ser uma boa. 


E acima de tudo, lembrar que 2022 é ano de eleição e os políticos que elegemos têm relação direta com o manejo da água no nosso país. As políticas públicas voltadas ao meio ambiente são extremamente importantes para a preservação dos nossos recursos hídricos. Na hora de escolher um candidato ou candidata, fique de olho em quais são as suas propostas e não deixe de cobrar ações práticas aos que forem eleitos.

Deixe um comentário