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Como escolher suas roupas: conheça os tecidos

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Como escolher suas roupas: conheça os tecidos

Qual o tecido mais sustentável? Essa não é uma pergunta fácil de responder, porque vai depender muito do que é feito nesse tecido, qual o seu uso, quanto tempo será usado, como será descartado quando não tiver mais utilidade, como será lavado… são vários fatores para levar em consideração antes de mais nada.

Porém, se pensarmos no processo produtivo do material já podemos ter uma resposta preliminar. Sabemos que os materiais naturais cultivados de forma orgânica são os mais interessantes, assim como fibras que podem ser recicladas, alimentando uma cadeia circular. 

Vamos falar aqui dos tecidos mais comuns e mais conhecidos, trazendo informações para você avaliar e colocar na balança na hora de escolher. Nossa dica para quem quer se aprofundar é mergulhar no relatório Fios da Moda , que traz essas e muitas outras informações sobre as fibras mais usadas aqui no Brasil. 

Então vamos lá:

Algodão

Presente em camisetas, no nosso jeans, blusinhas, malhas, pijamas… o algodão muitas vezes se passa por ecológico simplesmente por ser uma fibra natural. Mas é muito importante entender de onde vem, de que forma é cultivado e se há algum controle ou rastreabilidade envolvido no processo.

A produção de algodão é em sistema de monocultura, sendo bastante danosa ao ambiente, pois torna as plantações mais vulneráveis a pragas e doenças e empobrece o solo. Por conta disso, o algodão tradicional depende do uso de pesticidas, e não é pouca coisa. No Brasil, é a quarta cultura que mais usa agrotóxicos, consumindo cerca de 10% dos defensivos agrícolas no país. 

Quanto aos agrotóxicos o problema já é sabido. Afetam a saúde do meio ambiente, das pessoas, contaminam águas superficiais e lençóis subterrâneos, causam mortalidade de abelhas e outros polinizadores e intoxicam tudo por onde passa. 

Um dado muito falado sobre a cultura do algodão é o uso de água. De fato, lá fora, o cultivo é responsável por altíssimos gastos de água para irrigação, mas, de acordo com o relatório Fios da Moda, aqui no Brasil o cultivo de algodão não precisa de irrigação artificial. Isso é um ponto a favor do algodão nacional, definitivamente, mas não devemos parar por aí. 

Algodão Orgânico

O algodão orgânico é o melhor dos algodões. Não utiliza agrotóxicos nem pesticidas e é cultivado em um sistema agroecológico, de forma a manter a saúde do solo, dos ecossistemas e das pessoas envolvidas no processo. É adaptado às condições locais, com o emprego de sistemas de rotação de culturas (que contribuem para a restauração da qualidade do solo) e sem o uso de sementes geneticamente modificadas. 

Infelizmente, o algodão orgânico ainda tem um valor mais alto nas lojas, principalmente por ser produzido em escala menor do que o tradicional. Mas a nossa dica é: se você tiver como optar entre os dois, fique com o orgânico sempre!

Poliéster

É a fibra têxtil mais consumida no mundo, mas também uma das mais problemáticas. Demora cerca de 400 anos para se degradar, é derivada de um recurso não renovável (o petróleo), libera microplásticos durante as lavagens, tem um alto gasto energético durante sua produção… são vários contras, na verdade.

Entre os prós estão a durabilidade, que é realmente grande quando a roupa é bem cuidada, e o fato de ser reciclável. Mesmo se você for comprar em brechó, nossa dica é tentar evitar os materiais sintéticos, pois a cada lavagem estarão liberando microplásticos na água.

Poliéster reciclado 

O tecido feito de garrafas PET pós consumo é uma das apostas da Insecta, mas como explicamos aqui, a nossa aplicação é um pouco diferente do vestuário. O poliéster de PET reciclado poupa o meio ambiente, usa 59% menos da energia que o convencional para ser produzido, reduz de 25 a 75% as emissões de gases do efeito estufa, gasta menos energia e água que a produção de algodão.

Porém, fique de olho: em peças de roupa, libera microplásticos na lavagem e também demora centenas de anos para se decompor. 

Acrílico

Tão popular quanto o poliéster e o algodão, o acrílico está presente principalmente nas roupas de inverno. A “lã acrílica” rapidamente substituiu a lã animal por ser muito mais barata, leve, fácil de lavar e de produzir. Infelizmente, é a opção vegana mais acessível para peças de frio, e dizemos infelizmente porque não é lá muito ecológica.

O acrílico é, da mesma forma que o poliéster, uma fibra derivada do petróleo. Sua extração e produção é igualmente poluente, demanda energia e depende de um recurso não renovável. O polimetil-metecrilato (PMMA) foi criado em 1893 e se tornou popular na produção de suéteres, cobertores, roupas de cama em geral, toalhas e capas de almofadas, entre outros. É um material leve, resistente e de grande durabilidade - e justamente por isso sabemos que leva centenas de anos para se degradar. 

Viscose 

A viscose é uma fibra artificial, mas vem de fontes naturais. Proveniente da polpa de árvores de rápido crescimento, tem um sério problema de desmatamento: cerca de 30% da viscose vem de árvores ameaçadas de extinção.

O processo de produção da fibra ainda passa por uma transformação química, com o uso de vários produtos que podem acabar sendo despejados de forma incorreta no meio ambiente, além de afetar a saúde dos trabalhadores. A produção de viscose consome mais energia que a de PET e mais água que a produção de outras fibras sintéticas. 

Hoje já há várias iniciativas buscando a regularização e certificação da produção de viscose - segundo relatório da Textile Exchange, a participação de mercado dos produtores de viscose certificada aumentou de cerca de 35% da produção global em 2015 para cerca de 80% em 2018, e isso é bem animador. Mas por enquanto, é melhor evitar sempre que possível quando não houver informações sobre a cadeia de valor da peça.  

Linho 

Uma fibra natural de alta qualidade, é isolante térmico, não forma bolinhas e é antibactericida. É fácil de lavar, seca rápido e dispensa o ferro de passar. O linho também é produzido de uma forma muito mais sustentável do que o algodão, porque é resistente a pragas e dispensa o uso de agrotóxicos. 

É uma planta versátil, que pode ser cultivada em climas quentes ou temperados e tem um ciclo de vida muito rápido: são 60 dias entre o plantio e a colheita. 

O problema do linho é que muitas vezes tem o preço médio elevado, tornando essa fibra tão bacana menos acessível. Nossa dica: se puder escolher, vá de linho!

Cânhamo

Você ainda vai nos ver falando muito dessa fibra! 

O cânhamo é uma fibra natural, extraído de plantas super resistentes que não dependem de pesticidas para crescer e ainda gastam pouca água na sua irrigação. Comparado com o algodão, reduz o consumo de água em até 90%! Além disso, é possível produzir mais fibra do que algodão ou linho, usando a mesma quantidade de terra.

O tecido feito com a fibra de cânhamo é muito resistente, que não irrita a pele e é leve. É uma fibra sensacional e cheia de potencial, mas por ser do mesmo gênero da conhecida Cannabis sativa (a maconha), mas de outra espécie (Cannabis Ruderalis),  é cercado de tabus. A legislação brasileira autoriza a importação da fibra ou de objetos confeccionados no material, mas ainda não podemos produzir por aqui. 

O cânhamo é uma grande aposta e somos muito fãs dessa fibra. Se tiver a oportunidade de escolher peças nesse material, se jogue!

Misturas de fibras

Se todos os tecidos fossem 100%, seria muito mais fácil escolher. Só que infelizmente não é bem assim. Se você olhar nas etiquetas das roupas, vai ver que grande parte delas tem mais de uma fibra na sua composição. Isso acontece porque muitas vezes o resultado final desejado por quem fez o tecido não é facilmente atingido com apenas um material. 

É muito normal ver misturas de algodão e poliéster, algodão e elastano (principalmente no jeans), poliéster e viscose… então conhecer as propriedades, as potências e as desvantagens de cada material é ainda mais importante!

Outra coisa que você precisa saber é que quando os fios são misturados, isso praticamente inviabiliza a reciclagem. Ou seja, uma camiseta de poliéster com algodão não poderá ser reciclada no fim da sua vida útil. 

E aí? Qual o melhor tecido? 

Como falamos antes, os melhores tecidos são os naturais, produzidos de forma orgânica, respeitando o solo, a biodiversidade e os trabalhadores envolvidos no processo. Sempre que for possível, a opção algodão orgânico, linho ou cânhamo é a melhor. 

Só que nem sempre o uso da sua roupa tem a ver com o tipo de material. Por exemplo, uma peça esportiva precisa de propriedades específicas. Então, a dica é: fique preferencialmente com as fibras de produção local, pois assim você não contribui com emissões geradas pelo transporte. 

Outro ponto é que os materiais reciclados são geralmente melhores em termos de sustentabilidade do que os virgens ou os que não são biodegradáveis. E por falar em biodegradável, nossa dica é não esquentar a cabeça com isso, a não ser que você vá levar a peça para uma usina de compostagem quando não quiser mais usar. 

Por fim, o que fica é: escolha com calma e procure estender ao máximo o uso do que você já tem. Cuide bem das suas roupas e você não precisará comprar peças novas. Aposte nos brechós, conserte peças estragadas, siga as instruções de lavagem e priorize sempre o que for mais natural. 

 

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