Amazonas: O que fazer para que colapsos do tipo não se repitam

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Amazonas: O que fazer para que colapsos do tipo não se repitam

Por Modefica

Violência. Não há palavra melhor para descrever o que estamos vendo acontecer com a população do Amazonas nos últimos dias. O colapso no sistema de saúde, com particular destaque para a falta de oxigênio nos hospitais, foi previsto e anunciado, o que revela a presente calamidade como uma escolha das lideranças políticas e empresariais locais. 

A situação toda causa ultraje, mas não surpresa. A violência do Estado está tão presente nas manchetes dos jornais e na vida das pessoas (particularmente das pretas e pobres) que nossos olhos parecem ter se acostumado com a cartilha. Os métodos variam – metralhadoras na mão de policiais dentro de uma favela carioca ou ignorar os avisos sobre a iminente falta de um insumo crucial para salvar vidas na pandemia –, mas o resultado é o mesmo.

O Amazonas tem cerca de 4,2 milhões de habitantes dos quais quase 75% se declararam como pardos no censo de 2010. O estado também tem o município com a maior concentração de indígenas do país. Estamos falando de pessoas para as quais os direitos humanos universais são sistematicamente negados, e cujos corpos não valem o pranto. Não é possível falar sobre o que está acontecendo na região norte sem colocar estes dados na mesa.

O estado, aliás, fica na mesma região do país onde o desmatamento só aumenta - o maior dos últimos 10 anos, segundo estudo recente -, enquanto o governo diz desconhecer dados divulgados por institutos e organização não governamentais.

"A destruição da vida em todas as suas formas é hoje tão importante quanto a força produtiva do biopoder na formação das relações capitalistas". O que a filósofa e ativista feminista anticapitalista Silvia Federici está dizendo é que a morte de alguns grupos é meio para "adquirir matérias-primas, desacumular trabalhadores indesejados, debilitar a resistência e reduzir os custos da produção do trabalho". Em outras palavras, não é um mero acidente de percurso, uma falha de um sujeito específico, mas um projeto político onde o Estado decide quem deve morrer e quem deve viver para perfeita prosperidade do capital.

Um caso de necropolítica

Toda gestão da crise do Coronavírus no Brasil foi violenta e já temos uma série de análises sobre como tal gestão tem revelado mais uma faceta da necropolítica brasileira. O que não podemos agora é deixar o que está acontecendo no Amazonas fora dessa análise. Caso contrário, tendemos a enxergar a situação como algo completamente pontual e fora da curva quando, na verdade, é um mecanismo muito bem articulado há décadas.

Para os não familiarizados com o conceito, necropolítica pode ser traduzida como a "destruição material dos corpos e população humanas julgadas como descartáveis ou supérfluas". É o poder do Estado de escolher quem morre e quem vive, e executar pessoas a partir desta ótica. Você consegue imaginar a cidade de São Paulo, onde mais de 60% da população é declarada branca, passando por tal situação? Alguns bairros específicos ou no interior do Estado sofrem com o mesmo mal, mas a diferença no censo revela a diferença dos esforços empregados para cuidar da população.

Restaurar o tecido social

Coibir e eliminar a prática da necropolítica é um projeto de longo prazo, que exigirá uma atuação incansável da sociedade. Isso significa que, num primeiro momento, é hora de empregar esforços para conter os danos, como:

• Fazer doações em dinheiro para os grupos locais;
• Compartilhar as necessidades que os grupos locais estão apontando;
• Facilitar a chegada de EPIs;
• Pressionar para que o estado se articule rapidamente para normalizar a situação.



Depois, porém, é hora de reunir a indignação e transformá-la em combustível para a empreitada de restaurar o tecido social, fragilizado após décadas de implementação da agenda neoliberal, cuja estratégia central foi (e continua sendo) a quebra de vínculos comunais, o individualismo, a disputa entre sujeitos e a meritocracia. Não podemos deixar a indignação do agora se transformar em poeira e perder de vista que, para não ver o que estamos vendo acontecer nas cidades amazonenses novamente, será preciso um projeto político que valorize a vida.

É claro que essas práticas resistem e não acabaram por completo, principalmente entre as pessoas que são os alvos principais da necropolítica. No entanto, será preciso uma união e mobilização social mais ampla para resistir à austeridade e inverter a percepção da sociedade sobre a prática do Estado de matar, passando de algo ultrajante, porém pouco surpreendente, para uma postura de total recusa a esta política da morte. A costura desse novo tecido social só será feita com muita solidariedade – e não menos intenção.

Estudiosos do neoliberalismo, os autores Pierre Dardot e Christian Laval são específicos em dizer que essa costura solidária se dará a partir "da recusa de se conduzir em relação a si mesmo como uma empresa de si e a recusa de se conduzir em relação aos outros de acordo com a norma da concorrência". Em outras palavras, se recusar agir para consigo e para com os outros na base da competição, do individualismo e da percepção do outro enquanto inimigo a ser combatido. Não estamos sobremaneira falando de uma "desobediência passiva", mas sim de ativamente estabelecer, com relação aos outros, "relações de cooperação, compartilhamento e comunhão", práticas opostas às estabelecidas pelo capitalismo neoliberal, que nos diz diariamente que a regra é "cada um por si e Deus por todos".

Conseguir dar os primeiros passos rumo à restauração do tecido social implicará automaticamente no repensar da política, no papel do Estado e quais pessoas escolheremos (se é que escolheremos alguma) para representar e agir pelos interesses coletivos.

Numa sociedade minimamente sã isso significa escolher lideranças que valorizem a vida de todas as pessoas. Significa também:
• Se embrenhar em práticas coletivas, capazes de gerar vínculos de solidariedade. Isso pode significar se juntar a um coletivo, ao grupo do bairro, aos agricultores urbanos que têm perto de você ou formar o seu próprio grupo;
• Aprender e ensinar. Tendo Paulo Freire como mantra, a educação pode ser libertadora e a educação popular, que nem sempre acontece em ambientes formais como a escola ou universidade, é uma ferramenta importante na construção de novos mundos. Sugiro este IGTV para pensar mais sobre o tema.
• Se conectar com outras realidades. Quão longe para fora do seu universo você consegue ir? Vá se conectando com pessoas de diferentes universos para entender as múltiplas realidades e saber como você pode agir sobre elas.
• Reaprender sobre o papel da política na nossa vida. Já que durante muitos anos nós fomos incentivados a nos afastarmos da política ou pensar "política" como algo ruim, é preciso um esforço de reapropriação do tema, conceito e prática. Para Michel Foucault, a política não é "nada mais, nada menos do que aquilo que nasce com a resistência à governamentalidade". Em outras palavras: façamos política!

(Fotos:  Edmar Barros/Futura Press e Bruno Kelly/Reuters)

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