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Alugar roupas polui mais do que jogar fora?

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Alugar roupas polui mais do que jogar fora?

Recentemente o resultado de uma pesquisa deu uma sacudida no mundo da moda: do jeito que as notícias foram divulgadas, alugar roupas seria pior para o meio ambiente do que simplesmente jogar fora. Mas ficamos pensando por aqui: será que é isso mesmo?


A pesquisa em questão foi divulgada pela revista científica finlandesa Environmental Research Letters, e o foco do estudo foram as emissões de gases do efeito estufa relacionados a cinco diferentes maneiras de usar e descartar um par de jeans: 


  • Uso normal de uma peça nova e depois descarte;
  • Uso intenso da peça, por anos e anos;
  • Revenda da peça depois de não querer mais;
  • Envio da peça usada para ser reciclada industrialmente;
  • Aluguel da peça, uso e devolução

A conclusão geral do estudo é que o cenário com o potencial mais baixo de emissão era o uso contínuo da peça por muitos anos, seguido pela revenda. A reciclagem têxtil ainda não é algo bem desenvolvido e pode ser responsável por muitas emissões de CO2 dependendo do maquinário e da matriz energética do local onde é feito e não pontuou muito bem.


Porém o que deu o que falar foi que, de acordo com os autores, alugar roupas de serviços de aluguel pode chegar aos níveis mais altos de emissões dos 5 cenários. Isso rendeu várias manchetes sensacionalistas e caça-cliques declarando que vale mais a pena jogar fora do que alugar uma peça de roupas, sem analisar nuances e limitações do estudo. 


Limitações do estudo


Antes de chegar a uma conclusão definitiva, é importante saber que esse estudo analisou um par de jeans - uma peça que raramente é alugada e as pessoas costumam ter e usar por mais tempo. A pesquisa partiu da ideia de que a pessoa alugaria esse jeans, usaria por duas semanas, devolveria e alugaria outro. 


Uma limitação dessa pesquisa é em relação aos impactos ambientais que foram deixados de lado. Eles focaram apenas nas emissões de gases do efeito estufa e no GWP, ou potencial de aquecimento global. Questões muito importantes como uso de água, produtos de limpeza e geração de efluentes, geração de resíduos e a ética em relação aos trabalhadores ficaram de fora. 


Um bom exemplo é a comparação entre uma peça nova e uma alugada considerando a quantidade de roupas que não são produzidas como resultado do aluguel. Se a mesma peça for alugada 50 vezes por pessoas diferentes, dá pra dizer que 50 peças novas deixam de ser vendidas. 


Também precisamos chamar atenção para o fato de que a pesquisa trabalhou com variações dentro destes 5 modos de usar a calça jeans, e isso é pouco discutido por aí. Cada alteração teve mudanças consideráveis nas questões de emissões de gases poluentes.


Dentro do cenário mais bombástico, a pessoa iria de carro, dirigindo por 2km até a loja para fazer as transações de aluguel e devolução. O cenário original dava conta de 200 usos desse jeans ao longo de sua vida útil como peça alugada. Com o aumento para 400 usos e imaginando que a peça seria transportada por veículos de baixo (ou zero) emissão de carbono como bicicleta ou carro elétrico, eles concluíram que o aluguel poderia chegar ao mesmo nível de potencial de aquecimento global que o reuso. 


O estudo concluiu, portanto, que o aluguel de roupa tem um alto impacto ambiental principalmente porque as etapas de logística e higienização tem alto gasto energético e/ou dependem de veículos poluentes. O problema não é o aluguel em si, e sim a forma como as coisas são feitas principalmente nos Estados Unidos, de onde foram retirados os dados para a pesquisa. 

Então é tudo sobre o transporte?


Não necessariamente, mas a logística é um fator decisivo dentro dessas perspectivas. A questão é que entre idas e vindas de uma peça, é possível que esses trajetos sejam feitos de carro ou caminhão. Mas sabemos que hoje muitos serviços de aluguel nem possuem lojas físicas e trabalham com envios mais ecológicos, como bicicleta, por exemplo. 


Tem também a questão da higienização. Roupas alugadas precisam ser limpas, mesmo se a pessoa que alugou não as usou. O método mais comum é a lavagem a seco, que usa bastante energia e produtos químicos. Principalmente nos Estados Unidos, que tem uma matriz energética muito dependente de combustíveis fósseis, gasto de energia = emissões de CO2.


(E tem também as embalagens. Muitos lugares embalam as roupas como se fossem novas, com papel seda e um plástico envolvendo tudo para dar aquela impressão de novinho. Isso o estudo nem falou, mas a gente não esquece!)


Por que essa divulgação é problemática?


A pesquisa em si talvez não tivesse pretensão de causar tanta polêmica, mas o grande problema foi a forma como vários veículos a divulgaram. Você deve ter lido por aí as manchetes - “alugar roupas é ruim para o meio ambiente”, ou “alugar roupas é mais poluente do que simplesmente jogá-las fora”. 


Por mais que algumas matérias tenham explicado que esta foi apenas uma das conclusões dentro de uma gama variada de cenários, é problemático falar dessa forma, já que o impacto inicial pode passar a mensagem errada.


Resultado? Todos os esforços para a implementação de formatos mais circulares de se consumir moda perdem força, enquanto muitas empresas de aluguel de peças caem em descrédito.


Por sinal, em resposta a tudo isso, a gigante Rent the Runway encomendou uma pesquisa terceirizada que pode ser considerada o primeiro estudo completo sobre os impactos do formato de aluguel de roupas. 


Eles fizeram um estudo de Análise de Ciclo de Vida para entender o impacto ambiental da plataforma. A análise confirmou que o formato Closet in the Cloud trabalhado por eles resulta em economias ambientais em comparação com a compra de roupas novas em relação ao uso de água, uso de energia e emissões de CO2. 


O estudo envolveu todos os aspectos do modelo de aluguel, desde o desgaste por uso até a lavagem a seco e o transporte. Com base nessas descobertas, eles estimam que compensaram a produção de mais de 1,3 milhão de novas peças de vestuário desde 2010.


Eles ainda concluíram que com aproximadamente 27,1 milhões de usos estimados em todas as 12 categorias de roupas presentes na plataforma desde 2010 foram economizados 54,7 milhões de galões de água, 33 milhões de kWh de energia e 13,3 milhões de libras de emissões de CO2.

Então, alugar é bom ou ruim?


A lição final que fica dessa análise e também do estudo é aquela que a gente já conhece muito bem: precisamos mudar a maneira como nos relacionamos com o consumo de moda. O jeito mais sustentável de consumir é comprar menos e estender o tempo de uso ao máximo. 


É importante lembrar que nem todo mundo usa os serviços de aluguel de peças de roupa da mesma forma. Enquanto algumas pessoas trocam de guarda-roupas a cada mês, outras de fato só alugam peças para ocasiões específicas para evitar a compra de algo que será pouco usado. 


Então, na hora de alugar roupas, lembre-se de escolher plataformas que têm compromisso com o meio-ambiente e optam por transporte de menor impacto, dispensam embalagens plásticas desnecessárias e não incentivam o consumismo, combinado?

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