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A moda pode ser carbono neutro?

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A moda pode ser carbono neutro?

Você já ouviu falar em carbono neutro? Ou carbono zero? Ou ainda compensação de carbono? Estamos vivendo a chamada economia de baixo carbono, e provavelmente ouviremos falar sobre isso cada vez mais. 

Em 2018, um relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU descobriu que a melhor chance do mundo de limitar o aquecimento a 1,5ºC é cortar as emissões quase pela metade até 2030 e zerar o resto até 2050. 

A corrida para barrar o efeito estufa está aí, e para muitos especialistas já estamos bem atrasados. Com a crise climática se agravando, temos cada vez menos tempo para solucionar esse problema e por isso é importante entender afinal de contas como funciona esse tal de carbono neutro e se é de fato uma solução ou mais um discurso vazio. 

Carbono e efeito estufa

Por essa muita gente não esperava: o efeito estufa, quando acontece de forma natural, é bom. É ele que mantém o aquecimento da superfície do nosso planeta em uma temperatura de aproximadamente 30°C. Sem ele, a temperatura média por aqui seria -18°C, inviabilizando a vida como conhecemos. Esse processo acontece com a radiação solar absorvida pelos gases da atmosfera - entre eles o famoso CO2.

O grande problema do efeito estufa é o seu agravamento. Esse fenômeno natural começou a ser acentuado justamente pelas ações do homem, que desde a revolução industrial começou a emitir muito mais CO2 do que a Terra pode dar conta e iniciou esse processo que conhecemos como aquecimento global. 

Emissões de gases nocivos, desmatamento, zero preocupação com o meio ambiente. A história você já conhece, e no meio disso tudo, até a capacidade de absorver carbono da Amazônia se perdeu. Um estudo da revista Nature concluiu que a Floresta Amazônica está emitindo mais carbono do que absorvendo, e isso é resultado do desmatamento, da degradação florestal e das mudanças climáticas. 

Entre 2010 e 2018 a Floresta Amazônica emitiu mais de 1 bilhão de toneladas de CO2 por ano em decorrência das queimadas. No mesmo período, apenas 18% dessas emissões foram absorvidas pela própria floresta.

E por falar em emissões de CO2, um estudo do instituto de pesquisas norte-americano Climate Accountability apontou um grupo de 20 empresas (produtoras de petróleo, gás natural e carvão) como responsáveis por mais de um terço das emissões de gases causadores do efeito estufa em todo o mundo desde 1965. A Petrobras aparece na lista, na 20ª posição.

A geração excessiva de gás carbônico (CO2), metano (CH4) e dióxido de nitrogênio (NO2) é causada por vários fatores, alguns com maior peso, como os que acabamos de citar, e outros com menor. A indústria da moda não fica de fora. É difícil ter um número exato, pois a cadeia da moda é longa e cheia de processos, mas estima-se que é responsável por entre 8% e 10% de todas as emissões de gás carbônico para atmosfera. 

Um estudo da Fundação Ellen MacArthur previu que as emissões dos gases do efeito estufa pela indústria da moda podem aumentar em 60% até 2030 se nada for feito a respeito. Se as empresas quiserem reduzir esse número, uma mudança nos modelos de negócio é urgente.

As fibras sintéticas são um dos grandes problemas nesse sentido. Um relatório publicado pela Change Markets projetou o uso majoritário de 73% de fibras sintéticas, sendo 85% dessas poliéster para 2030. Sabemos que o poliéster tem muitos problemas, indo além da geração de microplásticos na lavagem: seu uso excessivo provoca o aumento das emissões de GEE desde a extração dos recursos até o descarte no fim da vida útil.

Por conta disso, as empresas de moda já perceberam que é hora de se mexer para contribuir com as metas do Acordo de Paris, que não tem nada a ver com a semana de moda, e sim com o clima. Esse acordo é um tratado mundial criado com o objetivo de reduzir o aquecimento global, discutido entre 195 países durante a COP21, em Paris. O compromisso entrou em vigor em 2016 e a meta é reduzir as emissões de gases de efeito estufa para limitar o aumento médio de temperatura global a 2ºC. 

Parece pouco, mas os impactos são gigantes, e do jeito que as coisas vão, é uma tarefa árdua. Também exige mudanças drásticas na forma que empresas e países fazem negócios. Existem várias maneiras de reduzir essas emissões, mas ultimamente o que mais tem se falado é na compensação ou neutralização de carbono. 

Em 2019 foi a vez da moda assinar seu próprio tratado. O Fashion Pact foi assinado na França por representantes de mais de 30 grupos, detentores de aproximadamente 150 marcas de moda, e apresentado aos líderes do G7 pelo CEO da Kering, François-Henri Pinault. Esse pacto visa limitar o impacto do setor no clima, biodiversidade e oceanos através de metas estabelecidas para 2030 e 2050.


Compensar, neutralizar ou zerar? 

Desde o final da década de 1990, a prática de compensação de emissões de gases de efeito estufa (ou compensação de GEE) vem ganhando força. A compensação deveria ser o mínimo esperado de qualquer empresa ou governo engajado na luta contra o aquecimento global, mas é vendida como se fosse a solução mágica e está longe disso.

Os créditos de carbono, que consistem na compra e venda de emissões de carbono, surgiram a partir do Protocolo de Kyoto, acordo internacional assinado em 1997, no Japão, que já previa a redução da emissão de gases de diversos países. Um crédito de carbono equivale a uma tonelada de CO2. As empresas que conseguem diminuir suas emissões obtêm créditos e podem vendê-los. Aquelas que não conseguem reduzir as emissões compram esses créditos e fica tudo no zero a zero.

Existem diferentes técnicas para fazer a neutralização do carbono. Entre as mais conhecidas estão a CCS (captura e armazenamento de carbono), que consiste em capturar o gás diretamente do ar ou antes dele alcançar a atmosfera; o aumento de sequestro de CO2 pelo solo via reflorestamento; o aumento do sequestro de carbono pelo oceano; a utilização de energias renováveis e o sequestro de CO2 da atmosfera pela vegetação.


O problema do carbono neutro

A verdade dolorida é que mesmo se todas as empresas do mundo parassem de emitir CO2 amanhã, o planeta já tem mais desse gás na atmosfera do que deveria, de acordo com estudos recentes. Então, partindo desse ponto, neutralizar é o mínimo, mas não é tão eficiente. 

A moral da história é que neutralizar as emissões de carbono, para uma grande empresa, não representa nenhuma mudança. Ela segue produzindo da mesma forma, enquanto paga para alguma outra empresa ou organização não fazer o que ela faz. E aí começam vários pequenos problemas e a gente já começa a sentir o cheirinho do greenwashing no ar. 

O mercado dos créditos de carbono é muito atraente para as indústrias mais poluentes, como companhias aéreas, petroleiras e países industrializados. No fim das contas, compensar as emissões é uma alternativa mais barata do que reduzir de fato o uso de combustíveis fósseis.

Entendeu a sutileza? Fica muito mais confortável informar que as emissões estão sendo “neutralizadas”, mas ignorar as mudanças necessárias para que elas possam, antes de mais nada, parar de existir. Dizer que é uma empresa (ou governo) carbono neutro não significa que não está mais emitindo gases do efeito estufa. Eles seguem sendo emitidos e o problema está aí.

Dentro desse universo, o plantio de árvores e reflorestamento é algo muito falado, e, mais uma vez, vendido como solução mágica. Sim, as florestas são cruciais na fixação de carbono, mas uma árvore leva em média 20 anos para começar a absorver a quantidade de CO2 que deveria para fazer o cálculo da compensação valer. Outro problema do plantio de árvores como solução é que quando árvores (e qualquer outra planta) morrem, seja por incêndios, por corte ou por velhice (sim, isso acontece!), grande parte do carbono que ela tinha capturado volta para a atmosfera. Então ainda existe o risco do plantio de árvores como única estratégia de neutralização de carbono se tornar uma fonte de emissões, caso as árvores morram de forma prematura. A compensação por plantio de árvores é, no melhor dos melhores casos, uma compensação temporária.

Um exemplo disso é o caso dos incêndios florestais. O fogo que atingiu a costa oeste dos Estados Unidos dizimou várias áreas verdes, incluindo áreas que faziam parte de projetos de compensação de carbono. Foi tudo para o ar, as árvores e o carbono. Como muita gente não vai muito a fundo para pesquisar se os métodos são mesmo comprovados, as empresas se sentem à vontade de vender de forma enganosa que estão contribuindo ativamente para a redução do efeito estufa. A coisa já tomou uma proporção tão grande que ganhou um nome: carbonwashing.

Ainda não existe um mercado global de carbono regulado nem regras sobre quando uma empresa pode dizer que é neutra, mas já existem ferramentas, como o GHG Protocol (Protocolo de gases do efeito estufa). Essa metodologia ajuda a quantificar as emissões de CO2 e foi desenvolvida pelo World Resource Institute (WRI), mas ganhou uma adaptação para a realidade brasileira feita pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Usando essa ferramenta, as empresas conseguem enxergar melhor todas as suas emissões e rola um momento de autoconhecimento - tem como entender melhor cada área da organização e rastrear os principais focos de emissões. Às vezes eles estão onde menos se espera.

As empresas ainda podem apostar na transparência e divulgar as informações obtidas com essa análise, o que é muito bacana para se fortalecer no mercado. É ótimo também para o consumidor, que tem acesso a mais detalhes sobre os impactos negativos das atividades e o que a empresa está fazendo a respeito. 

Uma vantagem do uso do GHG Protocol é que, quanto mais empresas adotarem a metodologia, mais nivelado fica o conhecimento sobre o assunto e isso facilita muito para quem quer comparar dados e informações entre companhias e diferentes setores da economia. Porém, enquanto isso, ainda tem muita gente usando sua própria régua para calcular emissões e compensações. Sem estudos mais aprofundados, o greenwashing (ou carbonwashing) rola solto, porque qualquer um pode divulgar qualquer dado como se fosse uma verdade absoluta. 

Não queremos dizer que todo mundo que está fazendo neutralização ou compensação deveria parar. Essas práticas são válidas, mas não devem ser a única ação. É preciso investir em mudanças para reduzir e zerar de fato as emissões, além de restaurar o que já foi emitido. 


Tem como fazer mais?

Tem sim, mas dá muito mais trabalho, exige uma visão a longo prazo e metas ambiciosas. Mais eficientes e ousados do que os planos de neutralização de carbono são os planos net-zero. Neles, as emissões são reduzidas através da eficiência energética ou do investimento em energias renováveis, combinando isso com a compensação de qualquer restinho de CO2 que tenha ficado para trás.

A ferramenta de cálculo do GHG Protocol tem uma grande sacada, que é dividir as fontes de emissões em três principais categorias, que eles chamam de “escopos”: 

Escopo 1: emissões diretas de GEE provenientes de fontes que pertencem ou são controladas pela organização;

Escopo 2: emissões indiretas de GEE provenientes da aquisição de energia elétrica e/ou térmica;

Escopo 3: emissões indiretas de GEE provenientes das atividades da organização, mas que não pertencem ou não são controladas pela mesma.

Essas “emissões indiretas” do Escopo 3 são o verdadeiro desafio. Elas são referentes a fornecedores terceirizados, parceiros e toda aquela parte da cadeia produtiva que não necessariamente pertence à empresa, mas trabalha para ela de alguma maneira. Para que alguém possa dizer com propriedade que é carbono zero, é preciso controlar todas.

No net-zero é esse o saldo entre as emissões e as remoções de carbono tem que somar, naturalmente, zero. E para chegar nesse número é preciso que seja feita uma descarbonização (ou seja, eliminação total das emissões), e isso implica em uma mudança radical em toda a empresa, sua cadeia produtiva, fornecedores, parceiros e clientes. 

Como vimos no Índice de Transparência Global do Fashion Revolution de 2021, menos de 25% das gigantes do varejo revelam suas emissões de carbono e menos de 20% a pegada de carbono de seus materiais - entre essas marcas, signatárias do Fashion Pact. A maioria das empresas só calcula as emissões de suas instalações, sendo que as emissões da cadeia podem ser até 5,5 vezes maiores.

algodão e agricultura regenerativa


Agricultura regenerativa

Sim, existem várias tecnologias para capturar carbono do ar, reduzir emissões na fonte, acelerar processos naturais e tudo mais. Mas, como a gente já deveria imaginar, as melhores técnicas são aquelas que já existem - ou seja, a própria natureza!

Um dos conceitos mais interessantes ligados à neutralização do carbono da atmosfera é a agricultura regenerativa. Parte importante da solução para a crise climática está na restauração, recuperação de áreas degradadas e promoção de uma economia regenerativa, que passa pela agricultura.

O termo “agricultura regenerativa” é ligado à possibilidade de produzir enquanto se recupera o solo. Acontece a manutenção de todo o sistema de produção alimentar, incluindo as comunidades rurais e os consumidores. Essa regeneração da agricultura tem um olhar global, que leva em conta, além dos aspectos econômicos, as questões ecológicas, éticas e de igualdade social.

Na agricultura regenerativa são muito comuns as práticas da agricultura orgânica, como a ausência de pesticidas, herbicidas e fertilizantes. Segundo pesquisadores, a agricultura regenerativa pode ajudar a reverter as mudanças climáticas porque recupera as funções naturais do solo e da vegetação. Manter uma raiz viva no solo o tempo todo ajuda a fazer o ciclo de nutrientes sem retirar do chão o carbono armazenado, por exemplo. O uso de compostos orgânicos também aumenta a variedade de micro-organismos presentes na terra, que alimentam as plantas e ajudam a gerenciar pragas. O plantio cruzado, isto é, de mais de uma espécie no mesmo espaço, também é uma técnica importante que promove a biodiversidade. 

As práticas agrícolas convencionais, como as monoculturas e criação de gado, e principalmente o desmatamento, são responsáveis por um quarto estimado das emissões globais de gases de efeito estufa, de acordo com a Agência de Proteção Ambiental (EPA). Esse tipo de agricultura pode remover dióxido de carbono da atmosfera a uma taxa de cerca de uma tonelada de gás para cada hectare plantado. Um estudo do Instituto Rodale concluiu que os benefícios da agricultura regenerativa para o meio ambiente são enormes. Em um mundo ideal, se cultivássemos alimentos utilizando métodos regenerativos, seríamos capazes de sequestrar mais de 100% das emissões anuais de dióxido de carbono em todo o mundo.

A agricultura passa também pelo cultivo de fibras naturais para o uso na moda. Vamos pegar o algodão, por exemplo: a urgência climática pode ser o empurrão que faltava para muitas empresas passarem a fomentar a produção do algodão agroecológico de estrutura familiar, produzido sem agrotóxicos e através de um olhar regenerativo. 

O relatório de Outubro de 2018 do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas deixou claro que, se quisermos ter alguma esperança de conter o aquecimento global, precisamos abandonar o carbono e fazer uma mudança radical nas estruturas.

As energias renováveis, redução do consumo de carne e do desperdício de comida são alguns dos caminhos, mas a moda também precisa se engajar de fato. 

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