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20 de novembro: qual o papel da população branca?

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20 de novembro: qual o papel da população branca?

No ano passado eu escrevi aqui para o blog da Insecta sobre as razões que fazem o Dia da Consciência Negra tão importante. Expliquei os caminhos históricos que fizeram nosso país ser considerado um dos mais racistas do mundo, fato esse ainda negado por uma parcela conservadora que acredita que racismo só se dá pela verbalização pública de termos pejorativos, ignorando que sua recusa em refletir é parte das ações racistas de nossa sociedade.

Apesar de alguns pequenos avanços, as notícias ainda são pessimistas para a população negra: o genocídio de jovens negros, o feminicídio de mulheres negras e a taxa de desemprego entre negros de todas as idades seguem aumentando, tornando a luta por equidade mais complexa e difícil, uma vez que as razões e consequências do racismo estrutural são várias. Mas é nesse dia, também, que pessoas brancas empáticas à causa negra escolhem expor seu apoio. Muitas vezes recebo mensagens dessas pessoas, me questionando qual seria a forma mais eficaz de ajudar a população negra.

Outras alegam que não fazem nada por medo de “roubar o local de fala” dos negros. Por isso, meu artigo de hoje é voltado para nossos amigos brancos e como vocês podem (e, ao meu ver, devem) ajudar no combate ao racismo. Para introduzir esta argumentação, preciso relembrar uma história. Há exatamente um ano, no dia 20 de novembro, uma escritora feminista branca resolveu dar sua contribuição a tão importante data. Para isso, resolveu escrever um post em seu perfil em uma rede social, muito bem fundamentado, falando sobre o privilégio branco e assuntos que concernem a este tópico.

Não seria exatamente um problema se: 1) ela tivesse escolhido outro dia para expor suas ideias, em vez de usar uma data que precisa ser usada para dar visibilidade aos negros e 2) não tivesse escrito de uma forma que ficou parecendo que ela recortou um punhado de trechos de textos de autoras negras, modificou um pouco as palavras e assinou com seu nome.

No fim das contas, o imbróglio foi certo: algumas pessoas negras a questionaram por ela, em pleno dia da consciência negra, viralizar em world wide web com argumentações retiradas de escritoras negras sem dar a nenhuma delas créditos pelas referências.

Ao ser questionada pelo oportunismo, a escritora branca se ofendeu - ignorando que já havia ofendido cada mulher negra que viu seus escritos serem usados como base por uma escritora branca, sem receberem créditos. Sob o meu ponto de vista, a pior forma de querer mostrar apoio é tomar para si um assunto em vez de oferecer autores negros como referência. Nestes casos, eu sempre recomendo a obra da doutora em Psicologia Social, Lia Vainer Schucman, autora do livro Entre o encardido, o branco e o branquíssimo. Na obra, a autora propõe o estudo da branquitude: o que significa ser branco em termos práticos e simbólicos? Quais são os tais privilégios dos quais todos falam tanto? O que significa ser branco em um país que se popularizou sob a farsa da democracia racial?

Os estudos sobre a branquitude vão muito além de especulações sobre o que seriam tais privilégios. Brancos dificilmente se veem como raça. Eles se veem como pessoas. Por isso é tão difícil fazer a população compreender que raça não é um termo pejorativo. Os conceitos de normalidade, civilidade e educação foram moldados sob o ponto de vista branco, e tudo o que sai deste eixo é tido como exótico. No ano passado eu tive a oportunidade de participar de um debate sobre racismo na mídia na sede do jornal Le monde Diplomatique. Após o evento, propusemos ao veículo que cedesse espaço para escritores negros em uma série sobre racismo, e foi assim que tive um artigo meu publicado no jornal.

Existem muitos caminhos para estudarmos racismo, e no meu caso, para os meus escritos a minha base foram a Comunicação e Psicologia, mostrando um pouco da teoria do estrangeiro, que torna os preconceitos tão vivos em nossas relações sociais, e como as dinâmicas dos veículos de comunicação pulverizam senso comum em uma massa populacional, dificultando a quebra desses paradigmas. Por isso, quando uma pessoa branca me questiona sobre como pode ajudar a população negra, a resposta é sempre: estude branquitude. Saiba o que é ser branco e o que isso simboliza em nosso país. Em outra ocasião fiz um post no meu Facebook perguntando por que meus amigos brancos não compareciam a eventos negros - palestras, debates, conferências, etc. As respostas tornaram o post um show de horror. Pessoas brancas alegavam que tinham medo de se sentirem discriminadas e hostilizadas, ou diziam que achavam que os eventos negros não eram lugar pra elas. É preciso entender algumas coisas sobre isso:

  1. Existem alguns eventos negros que são exclusivos para pessoas negras. Geralmente são eventos de formação política, para ajudar àqueles que estão em processo de se reconhecer como negros, e também para estudos de leituras de intelectuais negros. Esses espaços precisam ser respeitados. É importante que tenhamos tempo e espaço para compreendermos nossa própria existência.
  2. Negros passam uma vida sendo rechaçados, assassinados e desumanizados apenas por serem negros. E brancos acham que sabem o que é hostilidade quando simplesmente não querem compreender como os grupos negros se organizam.
  3. A maioria dos eventos negros são abertos para todos, o que torna totalmente possível a participação de pessoas brancas para que possam aprender mais sobre as nossas pautas. Muitos desses eventos são gratuitos, inclusive.
Ao contrário do que propagam fanpages conservadoras, não existe mimimi algum nós negros. Pelo contrário, nós trabalhamos em múltiplas jornadas. Muitos de nós, além de um emprego em horário comercial, mantemos atividades em coletivos, ongs ou centros culturais, montando cursos, oficinas e outras atividades para disseminar conhecimento sobre nossa história e cultura. Nós somos uma população muito ativa, criativa e proativa. Neste 20 de novembro eu convido a população branca a nos conhecer e reconhecer.

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