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10 mentiras que gostamos de acreditar para seguir consumindo

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10 mentiras que gostamos de acreditar para seguir consumindo

Ninguém disse que repensar o consumo é fácil, principalmente quando estamos inseridos no sistema em que a moda muda rapidamente, novidades surgem a cada semana e o desejo de comprar e consumir às vezes é quase incontrolável.

Mesmo sabendo de todos os problemas do fast fashion às vezes nos deixamos enganar para não sentirmos tanta culpa por uma compra por impulso. Se identificou? 

Listamos 10 ciladas que as fast fashions aprontam e que a gente deixa passar, mas não deveria, se quisermos pensar em uma moda mais ética e sustentável:

#1 A peça é 100% algodão, então tudo bem

De tanto falar dos problemas das roupas feitas de poliéster, parece que o algodão é a salvação para tudo. Mas só ser feita de algodão não é suficiente para uma peça ser sustentável. Como já contamos, o algodão cultivado de maneira convencional é uma fibra que consome muita água e agrotóxicos. 

O algodão é a segunda fibra têxtil mais produzida no mundo. O Brasil está entre os cinco maiores produtores mundiais ao lado de países como China, Índia, EUA e Paquistão. Mas o Brasil é também o maior mercado de agrotóxicos do planeta e o algodão é a quarta cultura que mais os consome, com aproximadamente 10% do volume total usado no País.  

Isso sem mencionar os transgênicos, que dominam a produção de algodão no mundo. São sementes muito caras, que afundam os pequenos produtores em dívidas e promovem uma concorrência desleal entre quem tem mais acesso. 

Ou seja: só ser de algodão não basta. A fibra precisa vir de um cultivo responsável e ter as devidas certificações para poder ser considerada mais sustentável. 

#2 Tudo que é feito no Brasil é feito do jeito correto

Infelizmente, não. Levantamos e levantaremos sempre a bandeira do #FeitoNoBrasil, mas sabemos que ainda há muitas empresas que trabalham de forma irregular aqui mesmo, no nosso país. Pra muita gente, trabalho análogo à escravidão na moda é coisa do outro lado do mundo, mas sentimos informar que também acontece em solo brasileiro.

89% dos trabalhadores da moda em São Paulo que moram nos locais de trabalho são mulheres imigrantes, muitas vezes lidando com condições precárias de trabalho e vivendo em alojamentos onde funcionam as pequenas oficinas de costura. Muitos desses imigrantes nem possuem contratos de trabalho formais.

No polo têxtil da região do Agreste, milhares de trabalhadores vivem da produção têxtil. Na conhecida “Capital do Jeans”, Toritama, 94,86% dos trabalhadores atuam de maneira informal (IBGE), sem garantia de direitos trabalhistas, extrema precarização e nenhuma proteção ou garantia social.

Ainda mais preocupante, dados de 2015 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) apontam que das quase 3 milhões de crianças e adolescentes que trabalham no Brasil, 114 mil (3,8%) estão na indústria têxtil.

# 3 A marca está neutralizando as emissões de carbono

Como falamos por aqui recentemente [https://insectashoes.com/blogs/blog/a-moda-pode-ser-carbono-neutro], muitas marcas estão embarcando na neutralização ou compensação de carbono sem olhar de uma maneira crítica para a sua produção, mudando de dentro para fora e deixando de fato de emitir tantos gases do efeito estufa. 

Neutralizar as emissões de carbono, para uma grande empresa, não representa nenhuma mudança. Ela segue produzindo da mesma forma, enquanto paga para alguma outra empresa ou organização não fazer o que ela faz. 

É muito confortável informar que as emissões estão sendo “neutralizadas”, mas ignorar as mudanças necessárias para que elas possam, antes de mais nada, parar de existir. Ser carbono neutro não significa que não está mais emitindo gases do efeito estufa. Eles seguem sendo emitidos e o problema está aí.

#4 A roupa que eu comprei é de tecido biodegradável

E você vai compostar essa peça quando não quiser mais? Temos quase certeza que não. E talvez na hora de comprar você esqueça que um tecido biodegradável precisa de condições ideais para se degradar, porque do jeito que muitas empresas comunicam, parece que mesmo no aterro a roupa vai deixar de existir em alguns meses. 

Um material é biodegradável quando ele se decompõe em semanas ou meses. E para que a degradação aconteça, o material deve ser levado a uma unidade de compostagem. É nesse ambiente que o material encontrará condições adequadas para se decompor, e não no aterro sanitário ou lixão. 

Para ser considerado biodegradável, um material precisa atender a normas específicas, como ABNT NBr 15448 de biodegradação e compostagem, e comprovar suas propriedades por meio de testes em laboratórios certificados. 

Mas isso não é explicado ao consumidor, e na empolgação de ver um produto que se diz biodegradável, muita gente cai no conto do greenwashing e acaba comprando.

#5 Se não tem couro nem pele animal, tá liberado!

Essa é outra polêmica. Falamos aqui [https://insectashoes.com/blogs/blog/existe-couro-vegano] que muito do que é vendido por aí como “couro vegano” acaba sendo atrelado a uma ideia de sustentabilidade, mas é um material sintético, o PU. O poliuretano é um tecido artificial feito de um polímero termoplástico que tem impactos ambientais negativos, graças a uma produção poluente que envolve vários químicos. O PU não é biodegradável e é feito a partir do petróleo, uma fonte de matéria-prima não renovável. 

As peles sintéticas que imitam peles de animais também carregam seus problemas. Os fios sintéticos da pele falsa são fibras plásticas, também oriundas de polímeros químicos do petróleo e do carvão: poliéster, poliuretano, polipropileno e lã acrílica são alguns desses componentes. 

Durante o ciclo de uso desses materiais, eles liberam microplásticos, não são recicláveis e ao serem descartados levam décadas para serem totalmente degradados.

#6 A marca lançou uma linha responsável

Agora a moda é lançar, dentro de uma empresa nada responsável, uma linha consciente, ecológica ou sustentável. Mas as empresas de fast-fashion podem em algum ponto serem consideradas responsáveis? Nós achamos que não.

Com milhões de peças produzidas a cada ano, cerca de 500 novas a cada semana e um ritmo acelerado de impor novidades e criar desejo e impulso de compra, esse modelo de varejo é um dos grandes responsáveis pela indústria da moda estar entre as top 5 mais poluentes do planeta. 

Lançar uma linha feita com materiais ecológicos, tingimentos naturais ou algum outro atributo sustentável não muda em nada o resto da produção que segue dentro dos mesmos padrões.

Além disso, é fácil falar sobre sustentabilidade ambiental, mas e as pessoas envolvidas na cadeia produtiva? As condições de trabalho são seguras e dignas? Os trabalhadores têm seus direitos atendidos? Os salários são dignos e adequados? As jornadas de trabalho respeitam os horários de descanso? E muito importante: a empresa divulga onde e de que forma são feitas as roupas?

#7 Fibra sintética é bom porque tem durabilidade 

Mais de 60% das fibras consumidas no mundo todo são sintéticas. O nosso conhecido poliéster está aí, junto com poliamida, acrílico e poliolefina. Para a indústria da moda elas representam uma revolução: são mais baratas, mais duráveis e mais leves, muito mais fáceis de produzir e vendem que é uma beleza.

Mas elas também são altamente poluentes em todo o seu processo produtivo, desde a extração da matéria-prima (petróleo, quase sempre) até a disposição final: não se degradam na natureza, são difíceis de reciclar e formam pilhas de lixo.

Durante o uso, ainda liberam microplásticos e outras partículas poluentes. É estimado que uma peça de roupa sintética libere 700.000 microfibras a cada lavagem. As fibras têxteis são as maiores fontes de microplásticos, sendo 34,8% da poluição encontrada nos oceanos. 

#8 Os materiais são de baixo impacto 

O conceito de materiais de baixo impacto ou sustentáveis vem caindo no gosto do fast fashion. Mas mudar para tecidos sustentáveis ​​ao produzir roupas sob o mesmo modelo não transforma ninguém em sustentável. 

Mesmo quando uma roupa é feita com materiais sustentáveis, ainda existem problemas como condições de trabalho, volume de peças produzidas, qualidade das roupas e todos os pontos já conhecidos de uma produção de impacto nada baixo para pessoas e planeta. 

O uso de materiais também precisa ser bem contextualizado. Não adianta misturar algodão orgânico com poliéster e dizer que uma camiseta é sustentável. Ela vai seguir liberando microplásticos na lavagem, deixará de ser biodegradável e inviabilizará a reciclagem.

#9 A marca recolhe peças para reciclá-las

Hoje 87% das roupas descartadas são aterradas ou incineradas, 13% são recicladas de alguma forma, 12% são recicladas para usos de baixo valor e apenas 1% viram roupa nova de fato. 

A reciclagem de tecidos pode acontecer com sobras de cortes da indústria ou peças inteiras, mas é muito difícil. Os itens são triturados e desfibrados, transformando-se em novas fibras que normalmente ficam mais frágeis e podem se romper facilmente. Isso pode resultar num tecido menos duradouro, e isso faz com que outras fibras virgens, muitas vezes poliéster, sejam misturadas para garantir a resistência necessária.⠀

Todo esse processo ainda pode gerar resíduos, principalmente na produção de novas peças onde haverão novas sobras de corte. Reciclar um tecido misto é ainda mais complexo, pela mistura de fibras que garantem características adversas.

Hoje é praticamente inviável fazer a reciclagem de tecidos para criar roupas novas em larga escala. O que a grande maioria das marcas faz é repassar as peças que não podem ser reutilizadas (grande maioria) para que sejam descartadas. 

#10 Se eu me arrepender é só devolver ou doar

Comprar pela internet é fácil, as lojas estão abertas 24h por dia e toda hora tem um cupom de desconto dando sopa. Só que com isso as compras por impulso acontecem muito mais frequentemente e isso gera um volume imenso de devoluções e doações de peças que nem deveriam ter sido compradas. 

Um reflexo disso é o mercado de Kantamanto, um dos maiores mercados de roupa de segunda mão do mundo, na cidade de Acra em Gana. A cada semana chegam cerca de 15 milhões de peças doadas e exportadas pelo Norte Global. 

Antes de começarem a receber esse volume excessivo de roupas, Kantamanto era um mercado de upcycling, mas isso se transformou completamente quando o mercado passou a ser o depósito de resíduos têxteis. Com o mercado super saturado, a oferta de produtos é muito grande, o que tem feito os consumidores começarem a olhar para as roupas como um bem descartável e os aterros e lixões da região estão tomados por essas peças.

Outro problema é em relação às devoluções. Quando você compra uma peça, ela chega e você decide devolver, isso dobra as emissões de CO2 geradas pelo transporte, e dependendo da logística da empresa esse número pode ser ainda maior.

Em muitos casos, também é mais barato para as marcas descartar ou incinerar as roupas que são devolvidas ao invés de reinserí-las no mercado. 

Depois de tudo isso, não queremos que você perca a esperança no mundo da moda. Existem muitas, e cada vez mais marcas que se preocupam com o jeito que as coisas são feitas. 

Mas a verdade é que se continuarmos produzindo como de costume, o impacto climático da moda vai aumentar 49% até 2030. A nossa relação com a moda tem um efeito colateral significativo sobre os recursos do planeta e isso precisa mudar. 

Isso significa que a mudança tem que ser sistêmica: a moda precisa se reinventar e começar a produzir menos, ao invés de procurar atalhos, enquanto os consumidores precisam entender que é necessário consumir menos. 

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